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      Início Parágrafo Parágrafo #76 JOSÉ CRAVEIRINHA, O MOÇAMBICANO UNIVERSAL

      JOSÉ CRAVEIRINHA, O MOÇAMBICANO UNIVERSAL

      No centenário do nascimento de José Craveirinha, uma edição bilingue em português e chinês traz os versos do mais celebrado autor moçambicano para Macau e para os leitores de língua chinesa.

       

      Indissociável da história de Moçambique, José Craveirinha nasceu há um século, no bairro da Mafalala, filho de pai português e mãe ronga. Maputo era então Lourenço Marcos e a luta pela independência do país perante a colonização de Portugal ainda estava longe. Numa nota biográfica, apresentava-se assim: «Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. Do Zihlahla, entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres. Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato…A seguir, fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros.» Jornalista de profissão, com textos assinados em jornais como a Voz de Moçambique, O Brado Africano e Notícias da Beira, sempre teve na escrita o seu modo natural de expressão e pensamento. Com o primeiro livro de poesia, Xigubo, publicado pela Casa dos Estudantes do Império em 1964, a sua voz firmou-se no panorama literário Moçambicano, circulando por outras geografias e assegurando uma atenção que haveria de confirmá-lo, com o passar do tempo, como um dos grandes poetas da língua portuguesa.

      É com Karingana ua karingana, publicado em Maio de 1974, que a sua consagração se concretiza, dentro e fora das fronteiras moçambicanas. Para além da boa recepção que teve no espaço de língua portuguesa, e concretamente em Portugal, onde o seu trabalho já circulava antes do 25 de Abril de 1974, Karingana ua karingana abriu definitivamente as portas para a recepção de Craveirinha noutras geografias. À medida que livros como Cela 1 (1980), com poemas que evocavam os tempos em que esteve preso pela PIDE, Maria, dedicado à sua mulher, Maria de Lurdes Nicolau, ou Babalaze das Hienas (1997) foram sendo publicados, a consagração de José Craveirinha como o grande poeta moçambicano foi-se cristalizando no firmamento literário. Os prémios acompanharam a canonização, com distinções atribuídas em Moçambique, mas também em Portugal, Brasil ou Itália, num processo que atingiu o seu apogeu em 1991, com a atribuição do Prémio Camões, pela primeira vez distinguindo um autor africano.

      Craveirinha povoou os seus poemas com personagens que, sobretudo antes da independência, se situavam no vasto campo dos oprimidos, dos pobres, dos excluídos. A sua escrita não era, no entanto, fomentadora de uma exclusão em sentido inverso, mesmo que esta pudesse compreender-se tendo em conta o contexto social e histórico. Em muitos dos seus textos, Craveirinha evoca a sua herança portuguesa – e, portanto, europeia e branca, tal como os colonizadores – sem invocações de anulação ou afastamento, e o mesmo faz com a língua em que escreve. Num gesto ávido de diálogo e conhecimento, inclui a alteridade na sua poética e assume-a como sua, sem que isso seja impedimento para reclamar a igualdade e o fim de domínios e opressões de diversas matizes.

      Ainda antes da publicação de Xibugo, quando os poemas de Craveirinha circulavam de modo disperso pela imprensa moçambicana, o ensaísta romeno Tristan Tzara, que escreveu abundantemente sobre literatura, dedicou-lhe algumas linhas que ajudam a situar a recepção do poeta no espaço internacional:  «Mas o grande poeta actualmente em Moçambique, em Lourenço Marques, é José Craveirinha. É um poeta que sofreu a influência dos surrealistas, que tem uma veia muito popular e cuja poesia toda possui um carácter social. Ela radica nas camadas mais profundas do povo negro. É um poeta que se aparenta, se quisermos, com Guillen . É considerado pelos intelectuais brancos como o poeta mais importante e mais autêntico do país.» Seria preciso acrescentar que a figura dos “intelectuais brancos” serviu para fixar um aval poético e crítico que contribuiu para a canonização do autor de Karingana ua karingana, mas a força da sua poesia não se afirmou porque esses intelectuais, muitos deles radicados na então metrópole, assim o decidiram. José Craveirinha foi, desde cedo, lido e compreendido no seu país natal e foi o reconhecimento dos moçambicanos, muitos deles ainda analfabetos, mas que o receberam através da oralidade que sempre assegurou a transmissão de conhecimentos, histórias e informação, que o fincou decisivamente na história e na literatura de Moçambique. A sua escrita foi sempre atravessada por uma vocação universalista, cruzando as denúncias da opressão (da colonização e da guerra, sim, mas também as provocadas pela intemporal vontade de domínio dos que pouco têm pelos que muito possuem, tantas vezes convocando para a sua retórica a lógica racial que impunha um domínio dos brancos sobre todos os outros) com os temas do amor, da morte e das ligações que vamos criando com a terra. Terá sido essa vocação que lhe garantiu também um lugar cativo na história da literatura mundial, algo que as traduções para diferentes idiomas foram assegurando e que agora se vê expandir com a chegada dos seus poemas à língua chinesa.

       

      Ao encontro de novos leitores

      Em Maio, a poesia de José Craveirinha chegará a Macau e aos leitores de língua chinesa pela primeira vez. Com chancela da PraiaGrande Edições, Poemas Seleccionados é o resultado do trabalho da professora Lola Geraldes Xavier, mas também das dinâmicas criadas no seio do Grupo de Estudos ECOADOR, Estudos de Culturas Ocidentais, Africanas e do Oriente, bem como da tradução de Lu Jing e Wu Hui. Numa versão bilingue, em português e chinês, os poemas do autor moçambicano apresentam-se agora numa geografia muito distante da sua, prontos para encontrarem novos leitores. O lançamento está marcado para o próximo dia 28 de Maio, na Livraria Portuguesa.

      Este livro nasceu da proposta feita pelo filho de José Craveirinha, Zeca Craveirinha, para que se publicasse Maria, um dos mais populares livros do autor, em chinês. Lola Geraldes Xavier preferiu fazer uma selecção dos poemas do autor e não restringir esta primeira tradução a um só livro: «O livro Maria pertence a uma das “correntes temáticas” da poesia de Craveirinha: o lirismo amoroso. Não representa, pois, suficientemente a sua poesia», explicou a professora ao Parágrafo. «Incluir apenas poemas de Maria poderia induzir em erro o leitor chinês, cingindo o poeta apenas a essa vertente amorosa, na perspetiva evocativa. José Craveirinha é, sobretudo, o poeta cuja voz é a arma da luta dos oprimidos conta os poderosos, de Próspero versus Caliban (e não apenas de negros contra brancos). É também o poeta do erotismo, que marca a sua última fase da poesia, uma das suas facetas menos conhecida e estudada. Ainda assim, por questões que se prendem com o possível desconhecimento do leitor chinês do contexto histórico-político de Moçambique, acabámos por privilegiar a poesia de pendor mais universal de Maria

      O trabalho de tradução do português para o chinês foi feito por Lu Jing e Wu Hui, alunos do Doutoramento em Português da Universidade Politécnica de Macau. Ao longo de quase um ano, e depois de seleccionados os 83 poemas que integram esta antologia, houve discussões, interpretações e revisões, sempre no sentido de encontrar a melhor versão de cada poema numa língua tão diferente daquela em que originalmente foi escrito. Wu Hui e Lu Jing contaram ao Parágrafo, por escrito, como foi o processo, nomeadamente no que às dificuldades linguísticas e semânticas diz respeito: «As estratégias de tradução que ambos usámos foram um pouco diferentes na fase inicial do trabalho: o Luís (Lu Jing) prefere respeitar todas as mensagens originais dos poemas, enquanto a Jasmim (Wu Hui) está mais acostumada a encontrar a diversidade das palavras no âmbito semântico na tradução em chinês. Contudo, chegamos a um acordo, ou melhor, a um balanço sobre a estratégia de tradução, após repetidas discussões e até “debates”. Na primeira metade dos poemas que contêm informações culturais e históricas de Moçambique, traduzimos de forma mais literal e conservadora, a fim de minimizar a distorção (ou seja, o desvio) das ideias do poeta e salvaguardar uma série de expressões sobre a gastronomia, dança, moeda, personalidades moçambicanas apresentadas no texto de partida. Ao mesmo tempo, recorremos à nota de rodapé para que os leitores chineses tenham acesso a essas informações contextuais imprescindíveis que não conseguem ser referidas nos poemas traduzidos. Quanto à segunda parte, sobre Maria, para que os leitores sintam a emoção íntima do poeta, reduzimos a quantidade de notas de rodapé, procuramos revelá-la com uma linguagem natural e correspondente à estética chinesa. Um outro desafio reside em esquemas rítmicos abundantes nos poemas. Por causa da diferença linguística, é muito difícil, até impossível, transportar exatamente o esquema rítmico original na tradução. Por exemplo, a repetição do som português “ão” no poema “Grito negro” é intraduzível em chinês. Apesar disso, em alguns casos, tentamos procurar os caracteres chineses que rimem para imitar esta beleza sonora na língua chinesa.»

      A poesia de José Craveirinha está cheia de referências idiossincráticas da história e da cultura moçambicanas, não apenas ao nível do vocabulário, mas também na remissão para episódios ou períodos históricos e para acontecimentos concretos. Apesar disso, a vocação universal da sua escrita é notória, e não apenas nos poemas de temática amorosa. Nos versos que remetem para a opressão colonialista, o conhecimento do contexto histórico da colonização portuguesa de Moçambique e da luta pela independência ajudará a situar o que se lê, mas não é imprescindível para a leitura. O universalismo de Craveirinha está nessa capacidade de encenar, denunciar e cantar a opressão e as resistências que se lhe opõem a partir do seu universo de vivências, sim, mas com o verbo bem enraizado na experiência humana de todos os tempos e todos os lugares. Por isso mesmo, para os tradutores do livro que agora se publica em edição bilingue, a chegada destes poemas à língua chinesa não será travada pelas diferenças culturais: «Ao ler os poemas de José Craveirinha, e ao ouvir o seu “Grito negro” em nome dos seus compatriotas africanos, acreditamos que os versos que refletem a luta anticolonialista vão, no primeiro momento, ressoar com os leitores chineses. Este tema faz-nos lembrar muitos escritores chineses que deram voz em tempos de crise nacional, como Lu Xun, que também tem uma antologia de ensaios intitulada Grito de Chamada. Escreveu, em 1934, um breve poema sem título com dois últimos versos “Preocupações sem limites no coração abrangendo o vasto universo/Ouve-se no silêncio o estrondo de trovão.” Nos dias mais sombrios antes do amanhecer, tanto os lutadores revolucionários chineses como moçambicanos usavam as suas criações literárias para fazer sons estrondosos.»

      Depois de José Craveirinha, outras traduções para chinês ocuparão os doutorandos da Universidade Politécnica de Macau. Como revelou Lola Geraldes Xavier ao Parágrafo, há «outros projectos em curso e outros em planificação. Em relação às traduções, para já, continuaremos com autores de Moçambique, graças ao interesse, entusiasmo e dedicação de estudantes do Doutoramento em Português da Universidade Politécnica de Macau, que coordeno. A tradução surge num processo de sinergias com a investigação». Para já, prepara-se a publicação, no Brasil, de um livro de ensaios sobre José Craveirinha, reunindo estudos de vários especialistas sobre o poeta. Em ano de centenário, o autor que se congratulou por nunca ter sido «poeta profundo/ fora do tempo sucedido/ e da história a fazer», como escreveu num dos seus poemas, terá a sua obra evocada em três continentes e várias latitudes. É homenagem merecida por um poeta de tamanha vocação universal.