Edição do dia

Segunda-feira, 27 de Maio, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
chuva fraca
27.9 ° C
31.5 °
26.9 °
94 %
6.2kmh
40 %
Seg
30 °
Ter
28 °
Qua
25 °
Qui
26 °
Sex
28 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioCulturaEntre Macau e Veneza, as memórias da cidade esquecida transformam-se em sonhos

      Entre Macau e Veneza, as memórias da cidade esquecida transformam-se em sonhos

      Na 59.ª Bienal de Veneza, Macau mostra a cidade perdida, feita de recantos ocultos e tradições desaparecidas. Aquilo que o colectivo YiiMa apresenta na cidade italiana são memórias disfarçadas de sonhos. Ao PONTO FINAL, Guilherme Ung Vai Meng assinala a importância de Macau “se ligar ao mundo da arte internacional”, através de uma exposição que não esquece a guerra na Ucrânia.

       

      Em Veneza, estão expostos sonhos e memórias de Macau. O colectivo YiiMa está na 59.ª bienal internacional de arte para mostrar aquilo que desapareceu do território e aquilo que está em vias de se perder. Sob a curadoria de João Miguel Barros, Guilherme Ung Vai Meng e Chan Hin Io – os dois anjos – apresentam uma reinterpretação das disparidades de Macau.

      “Alegoria dos Sonhos” é o título da exposição da autoria dos dois artistas de Macau que foi inaugurada há uma semana. São 11 peças ou conjuntos que, segundo a descrição do Instituto Cultural (IC), “apresentam uma perspectiva única que funde céu e terra, propondo uma reinterpretação da riqueza e densidade de alguns recantos ocultos de Macau e das memórias da cidade que se estão a desvanecer como sonhos”.

      A exposição do colectivo YiiMa faz parte de um dos eventos colaterais da 59.ª Bienal de Veneza. Esta é a oitava participação de Macau no evento italiano que tem mais de um século de história. Esta edição da Bienal de Veneza teve início a 23 de Abril e termina apenas a 27 de Novembro. No entanto a “Alegoria dos Sonhos” dos YiiMa termina a sua participação no dia 20 de Outubro. As obras de Macau podem ser vistas no Pavilhão de Macau-China, em frente ao Arsenale, um dos principais espaços do evento.

      Esta edição da bienal propõe o tema “The Milk of Dreams” e, a partir daí, os dois artistas construíram “uma ponte entra Macau e Veneza”, descreveu João Miguel Barros ao PONTO FINAL. “Eles têm uma base de fotografia muito forte; uma fotografia assente na performance, com um trabalho muito ritualizado e sempre com base na memória, identidade e tradições”, explicou o curador desta exposição. “Os dois anjos são testemunhas da realidade que fica registada em cada fotografia que fazem”, completa João Miguel Barros.

      No entanto, a ideia inicial não estava tão focada na fotografia, era mais multidisciplinar. Segundo o curador, originalmente a ideia passava por criar três módulos diferentes: um assente na fotografia, um outro com uma instalação, e o terceiro com audiovisual. “Tivemos de construir um projecto à medida do espaço”, lamentou.

      A partir de Veneza, Guilherme Ung Vai Meng explicou ao PONTO FINAL que, para este projecto, a dupla de artistas visitou muitas casas tradicionais de famílias de Macau e percebeu que “a cidade desenvolveu-se muito rapidamente e muitas tradições e património ficaram num estado frágil”. “Quisemos aproveitar a imagem para conservar essa memória importante de Macau. Por isso, neste caso, mostramos as obras que são maioritariamente sobre o ambiente cultural e a vida quotidiana da nossa cidade”, apontou o artista.

      História não é apenas o estudo sobre “reis, governadores ou imperadores”. “As pessoas normais também têm direito a ter uma história. Pode ser pequenina, mas faz parte da sua memória”, referiu, sublinhando que “é muito importante, por isso, usamos a nossa criatividade para misturamos [a história] com o ambiente real para mostrar Macau para além da parte moderna e do entretenimento”.

      Para o antigo presidente do Instituto Cultural de Macau, estar na Bienal de Veneza é especial: “A bienal é uma plataforma muito importante para Macau se ligar ao mundo da arte internacional. É muito importante para os artistas mostrarem os trabalhos de Macau, especialmente trabalhos de arte contemporânea, em Veneza”.

      Ung Vai Meng adiantou que a exposição “está a correr muito bem” e que “todos os dias há muitos visitantes que visitam o pavilhão de Macau”, entre artistas, curadores e visitantes comuns. Houve até uma família de portugueses que foi ter com os YiiMa a Veneza. “Ficámos muito contentes”, afirmou, concluindo: “Estamos muito satisfeitos por termos esta oportunidade para construir uma ponte de ligação”.

       

      MAIS DE 90 PAVILHÕES COM ARTE PARA TODOS OS GOSTOS

       

      Nesta edição, há mais de 90 pavilhões de arte em Veneza. Alguns deles têm relação directa com o tema da bienal, “The Milk of Dreams”, mas a maioria passa ao lado do mote. Os temas vão desde a preservação dos pauis na Patagónia à resiliência das mulheres negras, do declínio económico em Itália à bandeira ganesa, do próprio pavilhão alemão como local político até ao “nada” do pavilhão croata.

      Hong Kong também está representado na bienal, por Angela Su. Tal como Macau, a exposição do território vizinho pode ser vista num dos eventos colaterais. Segundo a curadora, Freya Chou, Su quis colocar o foco das suas peças nas relações entre “o nosso estado e a tecnologia científica”. Já o pavilhão da República Popular da China tem este ano o título de “Meta-Scape”, actualizando o conceito de ‘jing’, que se refere a uma fusão do homem com a máquina. É apresentada uma escultura chamada Snowman, por Wang Yuyang, que dominará parte do pavilhão, assemelhando-se a um nó de formas triangulares, colocada dentro de um jardim.

      O pavilhão de Portugal fica a cargo de Pedro Neves Marques, artista que se foca no vídeo. O pavilhão português tem como título “Vampiros no Espaço” e vai apresentar filmes e poemas de Neves Marques. O seu foco são os vampiros, que, na interpretação do artista, poderão ser utilizados para abordar as nossas concepções de género e sexualidade.

      As Filipinas mostram a exposição “This Is Our Gathering / Andi Taku e Sana, Amung Taku Di Sana”, onde Gerardo Tan, Felicidad A. Prudente, e Sammy Buhle exibem uma exposição que estabelece ligações entre o som e os têxteis. A Alemanha mostra um trabalho conceptual sobre o próprio pavilhão, dando-lhe um contexto político. Tomo Savić-Gecan é o artista cuja obra representa a Croácia. O trabalho do artista croata conta com artigos publicados por vários meios de comunicação social que serão analisados por inteligência artificial, os quais dão instruções a cinco artistas situados em redor de Veneza que realizarão “movimentos cuidadosamente coreografados e mínimos”, perceptíveis apenas para quem está à procura.

       

      ARTE EM TEMPOS DE GUERRA

       

      Uma das exposições de Veneza, também inserida num dos eventos colaterais, tem estado a gerar curiosidade. Zhanna Kadyrova, da Ucrânia, fez arte enquanto fugia da guerra. Ao PONTO FINAL, Veronica Fendi, responsável da galeria que representa a artista ucraniana, explicou que Kadyrova foi obrigada a fugir dos arredores de Kiev, onde residia, em direcção à fronteira com a Hungria. Acabou por se fixar na vila de Berezovo. Lá, encontrou um rio com pedras que se assemelhavam a um tipo de pão ucraniano, ‘palianytsia’. Este pão tornou-se um símbolo da resistência ucraniana, uma vez que tem um nome difícil de pronunciar para os russos, permitindo perceber se quem diz o nome deste tipo de pão é russo ou ucraniano. “Uma espécie de código para perceber se há espiões”, sublinhou Veronica Fendi.

      “Palianytsia” apresenta grandes pedras retiradas de Berezovo. Zhanna Kadyrova alisou-as em forma de pão e cortou-as em fatias. A sua exposição tem como objectivo angariar fundos para a compra de coletes blindados e capacetes para os militares na linha da frente, bem como para uma organização que apoia idosos em Kiev com alimentos e medicamentos. “Ela apercebeu-se de que poderia começar este projecto para chamar atenção para a guerra”, contou a representante da Galleria Continua.

      Um dos aspectos mais marcantes da arte de Zhanna Kadyrova, que inclui fotografia, vídeo, escultura, performance e instalação, é a sua experimentação com formas, materiais, e significado. Usa frequentemente azulejos baratos para mosaico, combinados com materiais de construção pesados, tais como betão e cimento.

      O pavilhão nacional da Ucrânia desta edição apresenta o trabalho de Pavlo Markov, cuja escultura “Fountain of Exhaustion” consiste em 78 funis de bronze dispostos num triângulo, através dos quais a água goteja constantemente, antes de ser reciclada. O projecto foi concebido na cidade de Kharkiv em meados dos anos 90, quando o abastecimento de água da cidade foi danificado, e tornou-se uma forma de o artista se envolver com o que via como uma falta de vitalidade cultural e política na nova nação ucraniana que emergiu após o colapso da União Soviética. A viagem da escultura de Kiev até Veneza foi difícil. Logo após o início da invasão militar russa, a curadora Maria Lanko empacotou os funis no seu carro e fez uma linha para a fronteira polaca, demorando quase uma semana a chegar a Itália.

      Este ano o pavilhão da Rússia não abriu. Em solidariedade para com a Ucrânia e contra a guerra, o curador do pavilhão russo, Raimundas Malašauskas, retirou o seu projecto e o espaço permaneceu fechado. Alexandra Sukhareva, uma das artistas participantes no Pavilhão da Rússia, publicou um comunicado no Instagram dizendo que “não há lugar para a arte quando civis estão a morrer sob o fogo de mísseis, quando cidadãos da Ucrânia estão escondidos em abrigos [e] quando os manifestantes russos estão a ser silenciados”.

      Outro artista russo, Vadim Zakharov, protestou em frente ao pavilhão da Rússia, contra a invasão à Ucrânia. O artista, que representou a Rússia na bienal de 2013, expôs uma tarja onde se lia que “o assassinato de mulheres, crianças [e] cidadãos da Ucrânia é uma vergonha para a Rússia”.

       

      PONTO FINAL