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      InícioOpinião“O melhor é sofrer”

      “O melhor é sofrer”

      Não foi à custa da guerra que os portugueses se estabeleceram em Macau, mas a sua presença no território esteve implicada em constantes e intensas lutas (poucas, no entanto, que chegassem ao recurso às armas, como aconteceu na defesa dos ataques dos holandeses, por exemplo); e os conflitos, quase sempre, eram internos.

      “[F]oi sempre em Macau completa a desordem administrativa, financeira e até social”, escreve Manuel da Silva Mendes no seu inacabado livro sobre a história do estabelecimento, onde o professor e advogado natural de São Miguel das Aves (actual Vila das Aves) viveu e acabou por morrer, em 1931. “As grandes instituições”, observa Silva Mendes, “como o Leal Senado, a Misericórdia, o Cabido, as Ordens Religiosas digladiavam-se continuamente em questões de privilégios, de administração e principalmente de dinheiro”.

      Estas disputas institucionais, devidas invariavelmente às fortes e intransigentes personalidades que ao longo dos tempos foram exercendo os poderes, eram agravadas pela constante pressão que se fazia do outro lado da fronteira. Daí a perplexidade de Silva Mendes: “Como assim Macau, desamparado pela metrópole, continuamente apertado por exigências de dinheiro por parte dos mandarins, sem cessar por estes sujeitos a grandes vexames, dentro de casa sempre em lutas de toda a ordem, em perpétua desordem económica e financeira, num viver durante séculos meramente de aventuras, foi persistindo, é verdadeira maravilha!”

      O espanto não era despropositado. “Contra tudo e contra todos” podia ser a divisa não oficial, mas sempre presente, de um território onde, quanto mais o tempo passava, mais pareciam deteriorar-se as condições da sua sobrevivência, e necessariamente instável se tornava a posição dos ocupantes portugueses. Todavia, o imperioso era arcar com o sofrimento, mais do que combatê-lo, ou às suas causas. Entendia-se que uma qualquer revolta contra as “injustiças” – condenada à partida por inglória – só iria piorar a situação. Nesse sentido, era perfeita a consciência dos limites e dos poderes. Os moradores de Macau não acalentavam ilusões: o melhor era aguentar.

      Na China do século XVIII, assomava com viço à superfície o que nunca tinha inteiramente desaparecido: a desconfiança devida ao receio das más influências dos estrangeiros, cada vez mais numerosos. E insolentes.

      Os “bárbaros” tinham de ser vigiados de perto, também em Macau, onde o vice-rei de Guangdong vai procurar instalar um mandarim com poder sobre todos os moradores. Era a marca do governo Qing, cioso de vincar a diferença relativamente à permissiva dinastia Ming, que acabara de derrubar. Uma vez estabelecido na grande província do sul do país, os zelosos Qing apertavam o controlo sobre os estrangeiros de Macau, que, no entanto, não se conformavam todos à nova realidade. Sobretudo, os governadores enviados para o estabelecimento, que teimavam em resistir à partilha da administração da cidade com as autoridades chinesas, acostumadas a comportarem-se como os senhorios que, naturalmente, eram.

      Ficou célebre a explicação do bispo e governador de Macau, D. Alexandre Guimarães, em 1777, sobre uma soberania mista dada a confusões: “(…) estas leis e ordens se entendem eficazmente nos domínios onde o seu poder é absoluto, livre, despótico, e in solidum; porém neste canto da China, onde o muito poder de Sua Majestade é absoluto, e in solidum, livre, e despótico a respeito dos seus vassalos, que também estão sujeitos às determinações do Imperador, e por isso a sujeição, quanto ao regime, é mista, pendente de El-Rei Nosso Senhor, e do Imperador da China (…)”.

      A explicação vem a propósito. De Goa, chegam a Macau ordens para que os estrangeiros sejam expulsos. Os argumentos não são novos e resumem-se a dois grandes “fundamentos”: “arruinarem o comércio da cidade, em razão da carestia em que puseram os géneros e os mantimentos”; e a “perversidade dos costumes, com que têm corrompido os naturais”.

      Os estrangeiros, ingleses e companhia, estavam em Macau a mando do Imperador, que assim tinha determinado, “há mais de dez anos”. Guimarães, bispo-governador, lembrava como os portugueses estavam numa “terra precária consentidos há duzentos e vinte e dois anos, vivendo em boa harmonia, e com sujeição nos delitos à justiça do Imperador”.

      Tinham passado séculos, mas, na memória de D. Alexandre, viviam ainda “as funestas e lamentáveis tragédias de Liampó, e de Chinchéu”, resultantes “da contravenção” das ordens do Imperador. Aos esquecidos do que se passara naqueles primeiros estabelecimentos portugueses na China, o bispo aconselhava a leitura de Fernão Mendes Pinto.

      Não era, pois, possível “resistir com forças a qualquer ordem”, avisava D. Alexandre, contrapondo os cerca de 22 mil “chinas existentes nesta cidade” aos “cristãos de Macau, assim velhos, como moços, e crianças de peito, pretos e brancos de um e de outro sexo”, que não chegavam “a seis mil e muito fracos”. Caso assim desejasse, “o Imperador num instante meterá nesta cidade de improviso tantos chinas, que lançando cada um só sapato neste rio fará entupir a barra”.

      Do mesmo modo, não podia haver “boa harmonia se encontrarmos por força as ordens do imperador ou do Suntoc [= governador ou vice-rei]”. Concluía o bispo-governador que, “onde não há forças o direito se perde”, e, em Macau, “nós não temos forças, nem direito; logo é melhor sofrer”.

       

      Hugo Pinto

      Jornalista