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      “Muito raramente os Chefes de Estado são acusados dos crimes dos seus subordinados”

      Será muito difícil ver Vladimir Putin em Haia a responder pelo massacre revelado há dias na cidade ucraniana de Bucha. Michael Share, especialista em História da Rússia, diz que será difícil provar que o Presidente russo sabia e aprovou o massacre. Por outro lado, o investigador diz que o futuro da guerra na Ucrânia está dependente da Europa e da eventual suspensão da importação de petróleo e gás natural da Rússia.

      O recuo das tropas russas da cidade de Bucha, na Ucrânia, revelou ao mundo um massacre alegadamente cometido pelas forças invasoras. As imagens que começaram a circular mostram vários corpos nas ruas da cidade, alguns com as mãos ainda amarradas atrás das costas. As autoridades ucranianas dizem que foram executados sumariamente cerca de 300 civis, incluindo homens, mulheres e crianças. “Estas alegações, se se provarem verdadeiras, configuram crimes de guerra”, afirma Michael Share, professor da Universidade de Macau e especialista em História da Rússia.

      O Kremlin diz que as acusações são falsas e que os corpos foram colocados no local pelos ucranianos depois de as forças russas terem saído de Bucha. No entanto, como revelou uma investigação do jornal New York Times, imagens de satélite provam que os corpos já estavam nas ruas durante a ocupação russa, não foram lá colocados depois.

      “Isto terá de ser investigado. Se for provado, os comandantes das unidades que estavam em Bucha terão de ser acusados de crimes de guerra e provavelmente condenados”, diz Share ao PONTO FINAL, refutando, no entanto, que os russos possam vir a ser acusados de genocídio, como pede o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. O crime de genocídio acontece quando há uma tentativa de exterminar deliberadamente um grupo de pessoas tendo por base diferenças étnicas, nacionais, raciais, religiosas ou sociopolíticas.

       

      PUTIN ACUSADO? “TEM DE SE INVESTIGAR”

      Poderá também Vladimir Putin ser acusado de crimes de guerra devido ao massacre de Bucha? “Tem de se investigar”, nota Michael Share. Para o investigador, é preciso apurar se Putin sabia que o massacre ia acontecer e se deu o seu consentimento. “Os primeiros a serem acusados serão os soldados que cometeram os crimes, aquela unidade específica. Em segundo, o comandante da unidade. E depois o comandante do comandante, subindo a hierarquia”, explica, salientando que, “se for demonstrado que o Presidente Putin sabia e aprovou, então ele pode ser acusado de crimes de guerra”.

      No entanto, “muito raramente os Chefes de Estado são acusados dos crimes dos seus subordinados, a não ser que se prove que eles sabiam e que deram o seu consentimento”.

      Michael Share compara o massacre de Bucha ao massacre de Mỹ Lai, durante a Guerra do Vietname, em 1968, perpetrado por tropas norte-americanas. Morreram mais de 500 civis no massacre de Mỹ Lai, mas “Richard Nixon nunca foi responsabilizado”. “Os líder muitas vezes estão ocupados e não estão a microgerir uma guerra e todos os detalhes”, diz.

       

      A EUROPA E AS SANÇÕES

      Questionado sobre se o massacre poderá fazer com que a comunidade internacional aumente a pressão sobre a Rússia, Michael Share diz que a questão não tem a ver com a comunidade internacional como um todo, mas sim com a União Europeia apenas: “Irão eles suspender a importação de gás natural da Rússia?”.

      “A Europa apenas baniu o carvão, não o petróleo e o gás natural. Ainda não disseram se vão banir no futuro ou não”, aponta, acrescentando que “as sanções são muito duras e afectam muito a vida normal dos russos, mas não afectam os esforços da Rússia em relação à guerra, porque o petróleo e o gás natural são muito mais importantes que o carvão, a vodka ou o caviar”.

      Por outro lado, nem a China nem a Índia deram a entender que iriam apoiar qualquer sanção do Ocidente em relação à Rússia, e ambos importam tanto o gás natural como o petróleo russo. “O que a China e a Índia disseram é que estas acusações têm de ser provadas”, refere, assinalando: “Haverá uma investigação. As Nações Unidas deverão realizar uma investigação, bem como a Comissão de Direitos Humanos. Mas até haver resultados vai haver muita retórica e muitas palavras. Mas para já não vejo muita acção”.

       

      MOSCOVO OBRIGADA A RECORRER AO PLANO B

      As tropas russas afastaram-se de Kiev nos últimos dias e isso, diz Michael Share, é um sinal claro de que o plano A de Putin falhou. “O plano A era atacar e capturar Kiev e Karkhiv, instalar um Governo pró-Rússia e tomar o país todo com esse Governo. Este era o plano A. Eles pensaram que com o plano A tomariam Kiev numa semana. O plano A falhou. Qualquer observador pode dizer isso. E falhou redondamente”.

      Porém, os russos dizem que o que aconteceu não foi uma retirada, mas “um reagrupamento calmo e ordeiro”. As tropas invasoras agora estão a avançar para um plano B, que é, explica o especialista, consolidar a sua posição na região de Donbass, cuja população tem ligações fortes à Rússia. Share acredita que, falhando o plano A, os russos não vão tentar capturar todo o país, focando-se apenas no Donbass e na costa do Mar Negro.

      Esta é uma vitória para Zelensky: “Isto dá-lhe um ímpeto de vitória para quando eles [ucranianos] forem para Leste tentar reclamar de volta o Donbass. Eles também disseram que vão voltar a tentar recuperar a Crimeia [anexada pela Rússia 2014]. Eles agora têm esse ímpeto”.