Edição do dia

Quarta-feira, 7 de Dezembro, 2022
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
céu limpo
19.9 ° C
20.9 °
19.9 °
68 %
6.2kmh
0 %
Qua
20 °
Qui
22 °
Sex
22 °
Sáb
22 °
Dom
21 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      Início Internacional “A sorte da guerra pode estar a mudar”

      “A sorte da guerra pode estar a mudar”

      Com o recuo do exército russo, principalmente à volta da capital Kiev, os ucranianos podem estar a ganhar elã para defender o seu país. A ideia foi transmitida ao PONTO FINAL pelo académico Michael Share, especialista em História da Rússia. O docente da Universidade de Macau acredita ainda que o presidente russo não sabe tudo o que se passa no teatro de operações. “Se a Ucrânia vencer a guerra, Putin cai. Os russos não gostam de perdedores.”

      A guerra nunca esteve fácil para o lado russo que tem usado e abusado de destruir alvos não militares ou governamentais como escolas, restaurantes e outros edifícios civis, muito menos está agora, numa altura em que as tropas do Kremlin estão aparentemente a recuar, com os ucranianos a recuperarem diversas localidades ao redor de Kiev e com ganas de entrar no território de Donbass e, quem sabe com alguma surpresa pelo caminho. “A sorte da guerra parece-me que pode estar a mudar. Os russos não conseguiram cercar Kiev e agora a Ucrânia está a recuperar terreno. Os ucranianos podem reconquistar o Donbass e até a Crimeia”, afirmou o historiador Michael Share ao PONTO FINAL.

      Esta semana, numa das reuniões entre a Rússia e a Ucrânia em Istanbul, o porta-voz da Turquia referiu que as demandas russas pelo Donbass e pela Crimeia “não são realistas” e “muito maximalistas”, o que pode ter deixado o lado russo um pouco desarmado. “Estas são as linhas vermelhas para os ucranianos na Crimeia e Donbass, e com razão, porque dizem respeito directamente à integridade e soberania territorial da Ucrânia. Não reconhecemos a anexação da Crimeia, pois, como o resto do mundo, nem a China reconheceu a anexação da Crimeia. Os russos deveriam realmente apresentar outras ideias”, afirmou Ibrahim Kalin, em entrevista à CNN.

      E se a Rússia, que já está praticamente sozinha no mundo, continuar a perder neste conflito, “Putin poderá cair”. “Os russos não gostam de perdedores. Sempre foi assim na sua história. Quando algo correu mal, o líder foi substituído”, lembrou Michael Share, dando exemplos dos diversos episódios de quando isso sucedeu depois da Crise dos Mísseis em Cuba, com Nikita Khrushchov, que acabou derrubado em 1964.

      Uma possível derrota de Putin pode, naturalmente, de acordo com o historiador da Universidade de Macau (UM), “encorajar os seus oponentes”. No entanto, Putin ainda tem uma, senão várias palavras a dizer. Há uma conversa que vem insistentemente do Ocidente de que o presidente russo pode usar a qualquer momento armas nucleares. O professor Share acredita que, para já, isso não passa de uma “especulação” até porque “a Rússia nunca tocou nesse assunto”, pelo menos de forma directa. “Não vou negar que isso não possa acontecer, mas seria como um último recurso. Continuo a acreditar que não. Repare que esta é a primeira vez, desde 1962 [altura da Crise dos Mísseis de Cuba], que se fala de armas nucleares. Mas a Rússia também tem em sua posse armas químicas, como se viu na Síria”, admitiu, acrescentando que se o pior cenário acontecer, “o Ocidente entra forte na guerra”.

      Ontem, a inteligência norte-americana revelou aquilo que parece ser uma tensão crescente entre Putin e o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, que já foi um dos membros mais confiáveis do Kremlin. Os Estados Unidos da América acreditam que o presidente da Rússia “tem sido mal informado por seus assessores sobre os resultados militares russos na Ucrânia” e, por medo de represálias, “os seus conselheiros estariam a ser optimistas nos relatórios sobre o conflito”.

      Michael Share admite que isso possa ser verdade até porque “Putin tem estado muito isolado”. “Não é de agora, mas agora está pior. Ele praticamente só conversa com duas, três ou quatro pessoas no máximo. Isolou-se com a pandemia de Covid-19 e, agora com a guerra, isolou-se ainda mais. Certamente, se não está a ser informado, estará a ser mal informado.”

      Por outro lado, constata o especialista em História da Rússia, “temos visto bem como ele tem tratado os seus subordinados”. “Apesar de considerar estes cenários todos especulativos, são todos possíveis, admito. A primeira fatalidade numa guerra é a verdade. Depois disso, tudo é possível. Relembro que todos órgãos de comunicação social independentes na Rússia foram encerrados”, analisou.