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      Início Internacional Guerra Rússia-Ucrânia observada à distância pela China

      Guerra Rússia-Ucrânia observada à distância pela China

      A guerra russo-ucraniana está também a fazer com que a comunidade internacional observe a posição da China, uma potência mundial com relações com os dois países em conflito. Qual o papel da China nesta guerra? Sonny Lo nota que a amizade próxima da China com a Rússia deu lugar a um afastamento após o início do conflito. Jianwei Wang assinala que, em comparação com a Rússia, a China vai passar a ser vista com melhores olhos por parte da comunidade internacional. Já Eilo Yu diz que a guerra deixa Pequim numa situação “embaraçosa”.

       

      Para já, a China tem apelado ao diálogo entre Rússia e Ucrânia, e tem também apoiado os esforços humanitários para apoiar os ucranianos. Mas como está a encarar a China esta guerra na Ucrânia? Como um desafio ou uma oportunidade? A resposta é clara para Li Wei, professor de Relações internacionais da Renmin University de Pequim: “uma grande oportunidade”.

      O académico considerou este um “evento raro”, com maior significado geopolítico que os ataques de 11 de Setembro em Nova Iorque e a crise financeira de 2008. Esta é “uma grande oportunidade para a China poder desempenhar um papel construtivo num jogo tão complexo de grandes potências, e esta oportunidade poderá mesmo moldar toda a paisagem diplomática e ambiente externo da China para os próximos anos”, indicou, citado pelo South China Morning Post.

      Já Eilo Yu, politólogo de Macau, descreve a posição da China como “embaraçosa”. “A China está numa situação muito embaraçosa porque, por um lado, as sanções contra a Rússia parecem ser muito duras e ao mesmo tempo a China está a tentar evitar que as sanções sejam estendidas também para si. Se a Rússia sair derrotada ou se retirar, isto vai prejudicar a aliança entre a China e a Rússia; ao mesmo tempo, o próximo alvo do Ocidente vai ser a China, que vai perder um apoio poderoso que é a Rússia”, afirma ao PONTO FINAL.

      “Se a guerra na Ucrânia acabar e a Rússia se retirar, os russos terão de pagar um preço muito caro e a China será o próximo alvo”, sublinha. Por isso, Eilo Yu diz mesmo que o melhor que a China tem a fazer é ganhar tempo e manter as tensões com o Ocidente. Ao mesmo tempo, “a China irá sentir as pressões da Rússia” para dar mais apoio na guerra.

      “A China está a mudar a posição, de apoio para uma posição mais neutra. Claro que se diz que a China está a apoiar a Rússia em vários aspectos. Mas, em termos de diplomacia, a China parece distanciar-se da Rússia”, lembra.

      Ao PONTO FINAL, o politólogo Sonny Lo lembra que, inicialmente, a China tinha uma “amizade muito próxima com a Rússia”, que culminou com a visita de Putin a Pequim, no início de Fevereiro, a propósito dos Jogos Olímpicos de Inverno.

      “Depois surgiu o conflito e vemos que o Governo chinês mudou de atitude”, aponta, recordando que Xi Jinping “enfatizou a importância do diálogo pacifico e enfatizou que todos os países soberanos devem ter integridade territorial, incluindo a Rússia e Ucrânia”. “O Presidente Xi enfatiza sempre a paz mundial, projectando uma imagem de uma potência mundial pacífica”, diz o académico de Hong Kong.

      “Neutralidade” é a palavra que Jianwei Wang, especialista no que toca às relações entre a China e os EUA, usa para descrever a posição chinesa no que toca a este conflito. “Dos comunicados emitidos pelo governo chinês, a China não quer alimentar uma guerra entre os dois países. A posição oficial é salvaguardar a soberania nacional e a integridade territorial dos países”, refere.

      Para o académico, a China não vai mais longe porque está a seguir o que Moscovo diz, considerando que o que está a acontecer na Ucrânia não é uma invasão, mas sim uma “operação militar especial”. “Se usarmos esses termos, isso significa que será uma acção a curto prazo para lidar com assuntos de segurança”, assinala.

      “Devido à relação estratégica e à estrutura política das três maiores potências mundiais – China, Rússia e EUA – a China não quer condenar ou criticar publicamente a Rússia”, diz Jianwei Wang, repetindo a ideia deixada pelo embaixador chinês nos EUA: “A condenação não resolve problema nenhum. Essa é a posição da China”.

      Para Wang, esta guerra vai trazer mais desconfianças da comunidade internacional em relação à China, uma vez que podem acreditar que Pequim poderá avançar com uma operação semelhante em Taiwan. “Além disso, a guerra deixa a China numa posição difícil diplomaticamente, já que os EUA e o Ocidente culpam a China pelo que aconteceu na Ucrânia. Dizem que a China sabia que a Rússia ia tomar medidas, embora a China negue”, comenta.

      Harald Brüning, director do Macau Post Daily, comentou a situação, destacando a chamada telefónica sobre o assunto realizada entre Xi Jinping e Joe Biden. “A chamada é digna de destaque pela simples razão de que o nosso planeta torna-se um lugar melhor se os dois países mais importantes politica e economicamente comunicarem entre si”, disse, mostrando-se contra as sanções impostas pelo Ocidente à Rússia.

      Num artigo de opinião publicado no jornal norte-americano New York Times, Wang Huiyao, presidente do Centro para a China e Globalização, afirmou que “quanto mais tempo a guerra durar, menos proveitos poderá retirar a China da sua estreita relação com a Rússia”. Para Wang Huiyao, a China poderia assumir uma posição de mediação do conflito: “Qualquer resolução séria teria de envolver os Estados Unidos e a União Europeia como actores-chave nos acordos de segurança europeus. Pequim poderia ajudar a intermediar um cessar-fogo imediato como prelúdio para as conversações entre a Rússia, a Ucrânia, os Estados Unidos, a União Europeia e a China. O objectivo de Pequim seria encontrar uma solução que desse ao Sr. Putin garantias de segurança suficientes que pudessem ser apresentadas como uma vitória ao seu público interno, protegendo ao mesmo tempo a soberania central da Ucrânia e a política de porta aberta da NATO”.

       

      PONTO FINAL