Edição do dia

Quinta-feira, 18 de Agosto, 2022
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens quebradas
25.9 ° C
27.1 °
25.9 °
94 %
6.2kmh
75 %
Qua
28 °
Qui
30 °
Sex
31 °
Sáb
29 °
Dom
29 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      Início Internacional Os últimos de Mariupol

      Os últimos de Mariupol

      Mstyslav Chernov e Evgeny Maloletka eram os últimos jornalistas em Mariupol, que estes dias recebeu um ultimato por parte das forças russas, que desde o início da invasão da Ucrânia, a 24 de Fevereiro, têm dizimado a cidade. Ambos estão a salvo, mas com a sensação de que deveriam ter feito mais. “Senti-me terrível deixando todos eles para trás”, admitiu Chernov.

      Num relato frio e, ao mesmo tempo, comovente, o fotojornalista da Associated Press (AP) Mstyslav Chernov escreveu que “os russos estavam a caçar-nos [a ele e a Evgeny Maloletka]”. Eles tinham uma lista de nomes, incluindo o nosso, e estavam a aproximar-se.

      Como fotojornalista, tinha vindo a acompanhar o trabalho destes dois profissionais desde o início do conflito. As imagens que diariamente partilhavam davam-nos conta de como a invasão russa da Ucrânia estava a revelar contornos de crueldade. Não eram apenas as infraestruturas governamentais, militares ou as comunicações que o exército russo queria derrubar, mas também eram realizados ataques a zonas residenciais, hospitais e locais onde estavam alojadas crianças.

      No passado sábado, dia 19 de Março, depois de cerca deuma semana sem qualquer publicação de imagens no Instagram – a última série de imagens foi publicada a 12 de Março –, enviei uma mensagem a Evgeny Maloletka. “Está tudo bem contigo?”, perguntei. No dia seguinte, o fotojornalista ucraniano respondeu: “Obrigado, estou num local seguro”. E mais nada se disse até ontem, altura em que o seu companheiro de trabalho Mstyslav Chernov escreveu sobre os últimos 20 dias em Mariupol.

      Nós éramos os únicos jornalistas internacionais que restavam na cidade ucraniana de Mariupol, e estávamos a documentar o seu cerco por tropas russas há mais de duas semanas”, escreveu Chernov. Estávamos a reportar dentro de um hospital quando homens armados começaram a perseguirnos pelos corredores. Os cirurgiões deram-nos batas brancas para usar como camuflagem.

      De repente, ao amanhecer, uma dúzia de soldados irrompeu: Onde estão os jornalistas, pelo amor de Deus?Olhei para suas braçadeiras, azuis da Ucrânia, e tentei calcular as chances de que fossem russos disfarçados. Dei um passo à frente para me identificar. ‘Viemos para te tirar daqui, disseram”, contou o fotojornalista no seu relato à AP.

      Chernov refere que, por aquela altura, “as paredes do consultório tremeram com os tiros de artilharia e metralhadoras do lado de fora, e parecia mais seguro ficar lá dentro”, mas os soldados ucranianos estavam ali para os resgatar. “Corremos para a rua, abandonando os médicos que nos abrigaram, as mulheres grávidas que foram bombardeadas e as pessoas que dormiam nos corredores porque não tinham para onde ir. Senti-me terrível deixando todos eles para trás”, admitiu.

      Durante cerca de nove minutos, “talvez 10”, os dois profissionais, escoltados pelo exército ucraniano, correram por entre um cenário caótico e de destruição. “Quando os projécteis caíram nas proximidades, caímos no chão.”

      Ambos foram levados para uma zona com carros blindados, escondidos num porão escuro. “Se eles te apanharem, vãote colocar à frente de uma câmara e vão obrigar-te a dizer que tudo o que filmaste é mentira”, disse um militar. “Todos os seus esforços e tudo o que você fez em Mariupol será em vão”, referiu Chernov, citando o que afirmou o oficial ucraniano, que uma vez, conta Chernov, havia implorado que mostrássemos ao mundo a sua cidade moribunda”.

      E assim relatou Mstyslav Chernov o seu salvamento (e o de Evgeny Maloletka) à AP. Chernov, nascido em Kharkiv, sempre pensou que a Ucrâniaestava cercada de amigos.“Cobri guerras no Iraque, no Afeganistão e no disputado território de Nagorno Karabakh, tentando mostrar ao mundo a devastação em primeira mão. Mas quando os americanos e depois os europeus evacuaram os seus funcionários dasembaixadas da cidade de Kiev, o meu único pensamento foi: Meu pobre país’”.

      “Poucas pessoas acreditavam que uma guerra estava a chegar”

      Chernov conta que “cerca de um quarto dos 430 milmoradores de Mariupol partiram naqueles primeiros dias, enquanto ainda podiam. “Poucas pessoas acreditavam que uma guerra estava a chegar e, quando a maioria percebeu, já era tarde demais”, notou, explicando que, bomba após bomba, os russos cortaram a electricidade, a água, o abastecimento de alimentos e, finalmente, as torres de rede móvel, a rádio e a televisão.

      Na ausência de informação, um bloqueio cumpre dois objectivos, contata o jornalista. “O caos é o primeiro. As pessoas não sabem o que está a acontecer e entram em pânico. No começo não conseguia entender por que Mariupol se desfez tão rapidamente. Agora sei que foi por causa da falta de comunicação”, admitiu o videógrafo Chernov.

      A impunidade é o segundo objectivo. Sem qualquerinformação de outra cidade, sem fotos de prédios demolidos oucrianças a morrer, as forças russas podiam fazer o que quisessem. Se não fosse por nós, não haveria nada”, apontou o ucraniano. “Eu nunca, nunca senti que quebrar o silêncio era tão importante.

      Mstyslav Chernov, juntamente com Evgeny Maloletka, está a salvo. “Fomos os últimos jornalistas em Mariupol. Agora não há nenhum”, desabafou, acrescentando que, diariamente, recebe, nas redes sociais, mensagens de pessoas a querer saber notícias sobre familiares e amigos que filmaram e fotografaram. “Eles escrevem-nos desesperadamente e intimamente, como se não fossemos estranhos, como se pudéssemos ajudá-los.”

      No domingo, quando Maloletka respondeu finalmente à minha mensagem, fiquei descansado, mas o facto de estar a salvo, juntamente com Chernov, significou que as notícias sobre o que se está a passar em Mariupol deixaram de existir. “As autoridades ucranianas disseram que a Rússia bombardeou uma escola com cerca de 400 pessoas alojadas, em Mariupol, mas não podemos ir até lá”. Estas foram as últimas palavras de um relato carregado de muita realidade e muita tristeza.

      PONTO FINAL