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      “Procurei ter na mesma imagem o luxo e o lixo”

      A exposição “In-Between This and Something Else – A Cidade Desfocada” mostra Macau pela lente de Nuno Cera e está patente na galeria Antecâmara, em Lisboa, até ao final do mês. O artista, que fez uma residência em Macau a convite da Babel, quis criar “uma memória fotográfica” do território.

       

      Hélder Beja, em Lisboa

       

      Nuno Cera está de pé diante das fotografias de Macau e Hong Kong que cobrem a parede da galeria Antecâmara, em Lisboa. Tem uma objectiva apontada a si e, como muitos fotógrafos, nota-se a relutância em ser capturado pela lente: ele não está habituado a ser a ‘presa’, antes o ‘caçador’. Esta sobreposição de imagens – Cera fotografado diante das fotografias da malha urbana de Macau de sua autoria – traça uma boa analogia com o  trabalho que o artista desenvolveu no território (com incursões por Hong Kong e Cantão) durante o mês de residência que fez em 2018 a convite da Babel – Associação Cultural, com o apoio da Fundação Oriente.

      “Macau é uma cidade de contrastes e obviamente que procurei bastante ter na mesma imagem o luxo e o lixo, esses dois extremos que em Macau é muito fácil estarem próximos, muito mais do que noutras cidades”, conta Nuno Cera ao PONTO FINAL enquanto encara as 15 fotografias de grande escala da exposição “In-Between This and Something Else – A Cidade Desfocada”, que ficarão patentes na galeria Antecâmara, ao Bairro das Colónias e por coincidência bem perto da lisboeta Rua de Macau, até 28 de Fevereiro. Antes de descerem a Lisboa, as imagens foram exibidas no Porto, na Galeria da Biodiversidade da Casa Andresen, e uma parte delas consta do ensaio visual de Nuno Cera publicado no livro “Macau. Diálogos sobre Arquitectura e Sociedade”, obra gizada pelos responsáveis da Babel, Margarida Saraiva e Tiago Quadros, que reúne nove entrevistas em torno de matérias como arquitectura, cidade, fronteira, memória, representação e história.

       

       

       

       

       

       

       

      Nas fotografias de Macau assinadas por Nuno Cera há alguns casinos, a construção em altura, os bairros antigos e os néons, há imagens de dentro para fora dos casinos e da ponta do cais de palafita de Coloane. As duas fotografias de Hong Kong são liminarmente diferentes: uma de tons quentes, quase cinematográficos, em que “parece que a cidade está a arder”; outra “com uma vista de certa maneira clássica do Banco da China, daquele nível panorâmico, mas onde o que interessa é que a cidade está um pouco a derreter, está distorcida, já não é real, já é um reflexo”.

       

      Pensar a malha urbana

       

      Nuno Cera esteve em Macau entre 1999 e 2000. Ao regressar a convite da Babel quase 20 anos depois, propôs-se “voltar a olhar aquele território, ver as grandes mudanças – na paisagem, políticas, no ambiente”. Para o artista, “Macau tem uma energia muito específica, é muito fotogénica, apetece fotografá-la”. Alojado na Casa Garden, o autor sentiu-se “completamente livre” para deambular pela cidade e registá-la. “Tentei fotografar alguns pormenores de arquitectura portuguesa e do estado em que ela está. Este trabalho teve essa vontade de se criar uma memória fotográfica, obviamente subjectiva, de Macau em 2018. Fotografei por exemplo a Escola Portuguesa. Ainda não mostrei nenhuma dessas imagens [em exposições], aparece uma imagem no livro.”

      Além das fotografias publicadas no livro, a permanência de Nuno Cera na cidade deu origem à exposição “The Blur City” que teve lugar entre Abril e Maio de 2019 na Casa Garden. Agora, nesta segunda volta pelo acervo recolhido no território, a mostra “In-between this and something else” apresenta “conteúdos físicos, sonoros e visuais,  [que] aludem ao contexto de incerteza que paira sobre o futuro de Macau, mas também à mistura de estilos, à fantasia desenfreada, ao exotismo e à ousadia que caracterizam o seu tecido urbano, construído na confluência de utopias não só díspares como também talvez incompatíveis”, lê-se no texto que apresenta a exposição.

      Os conteúdos visuais referidos incorporam também um vídeo de cerca de 40 minutos que passeia pela paisagem urbana das cidades do Delta, um trabalho feito com apenas uma pequena câmara e um tripé, composto por aquilo a que o autor chama de “fotografias animadas”. “Eu tinha um plano e a pandemia alterou tudo. A minha vontade era fazer um trabalho fotográfico e de vídeo em toda a região do Delta. Em 2019 quando voltei para a exposição ainda fui a Shenzhen e fiz algumas imagens, interessava-me este tipo de paisagem, o poder do capital que altera as cidades de maneira muito forte”, prossegue Cera. “É um trabalho subjectivo, documental e poético que se interessa muito pelas transformações das cidades, as atmosferas, como é que as pessoas vivem – uma curiosidade de perceber aquela realidade”.

       

       

       

       

       

      O convite da Babel a Nuno Cera para um projecto relacionado com arquitectura e urbanismo tem as suas razões de ser: já em 2009 o fotógrafo tinha desenvolvido um projecto sobre mega-cidades, intitulado Futureland, apresentado na Fundação EDP durante a Trienal de Arquitectura de Lisboa. “Viajei para seis ou sete mega-cidades que estavam num ritmo muito acelerado de transformação, havia esse interesse de perceber o que era a mega-cidade”, lembra.

      A fotografia de arquitectura tem ocupado boa parte do trabalho de Cera. Fez, com a editora A+A, toda a fotografia dos guias de arquitectura de Àlvaro Siza Veira (“O Guia de Arquitetura Álvaro Siza: Projetos Construídos em Portugal”), Souto Mora, Carrilho da Graça e Aires Mateus, entre outros. “O meu olhar naquela fase [da residência em Macau] era muito sobre a arquitectura, sobre os edifícios, sobre os espaços – para mim a experiência do [hotel] Morpheus, em termos arquitectónicos, foi incrível. Aquilo é meio ficção científica, é um desenho de futuro que já é passado, um bocado rectro-futurismo.”

       

      O som das cidades

       

      “In-between this and something else” propõe “olhares reflexivos, criativos e subjetivos sobre os desafios que a vida urbana em Macau coloca enquanto lugar de experimentação”. Funciona como uma espécie de  “desmaterialização do livro-objecto em palavras-sons e imagens” e deseja espoletar uma “contínua reflexão sobre o tempo, o espaço e suas transformações”, pode ler-se no texto que apresenta a mostra. Essa desmaterialização e reflexão é também sonora, com uma instalação assinada por Rui Farinha, realizada a partir do som das entrevistas que constam do livro, que “sugere que as palavras, os ruídos urbanos, as interferências, inviabilizam que a comunicação se estabeleça”.

       

       

       

      Nuno Cera conta que, quando ouviu pela primeira vez a instalação de Farinha, achou que era “uma coisa quase ciberpunk, muito destorcida, uma realidade muito filtrada”, e diz gostar desse universo metálico. “Acho que acrescenta uma camada de ficção científica muito boa [à exposição].”

      O baú de fotografia e vídeo da passagem por Macau parece ainda não se ter esgotado, avisa Nuno Cera. Nesta espécie de exposição orgânica, “que vai crescendo e que se vai adaptando”, pode haver ainda mais por revelar entre os fragmentos documentais de cidade e de vida que captaram o olhar do autor. Estas são fotografias que, também devido à pandemia, espoletam em quem as vê uma “vontade de voltar a viajar”. Enquanto assim for, acredita Nuno Cera, valará a pena exibi-las: “Acho que ainda tenho mais imagens para mostrar”.

      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau