Edição do dia

Quinta-feira, 29 de Setembro, 2022
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
27.9 ° C
29.4 °
27.9 °
89 %
6.2kmh
40 %
Qui
28 °
Sex
28 °
Sáb
29 °
Dom
29 °
Seg
30 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      Início Cultura Memórias de quem viu a morte de perto

      Memórias de quem viu a morte de perto

      Aos 72 anos, o alferes miliciano do Grupo Especial de Paraquedistas decidiu que se deveria, por missão, ficar a saber o que, enquanto combatente na Guerra do Ultramar, passou em Moçambique. Manuel da Silva faz questão de recordar as más histórias, porque as boas, que recorda com saudade, não vai deixar de exemplo às gerações futuras. Em mais de 300 páginas, o engenheiro relata as suas vivências enquanto militar do exército português num dos momentos mais negros da história de Portugal. O autor assume que tudo o que fez, fez com sentido de dever, sentido patriótico, porque nunca negou que o era, mesmo amando Moçambique.

       

      “Kapalautsi” é um livro de memórias de um combatente no Ultramar. Mas é igualmente uma localidade na província de Tete, em Moçambique. Manuel da Silva, engenheiro de profissão, nasceu em Portugal, mas aos 10 anos foi para Moçambique, país onde se fez homem e no qual, corria o ano de 1972, acabou por ser recrutado para defender o seu país contra o inimigo.

      Em conversa com o PONTO FINAL, Manuel da Silva, orgulhosamente oficial miliciano paraquedista do exército português, contou como, por diversas vezes, viu a morte por perto, mas garantiu que, felizmente, as memórias da Guerra do Ultramar nunca lhe tiraram o sono. “Não tive pesadelos, nunca fiquei sem dormir por causa da guerra. Isso posso garantir, felizmente”, disse.

      Contudo, nem tudo foram rosas para o paraquedista que só saltou do avião por seis vezes, mas sempre durante a formação. “Não foi fácil. Sempre tomei notas dos meus momentos mais críticos que passei na tropa. Fui coleccionando e fiz uma espécie de diário, mas claro que procurava com essa informação um dia poder mostrar aos meus filhos aquilo que tinha passado na guerra. Vi coisas que ninguém gostaria de ver e apanhei sustos. Com este livro, faço referência, precisamente, aos maus momentos passados. Os bons momentos recordo com saudades, mas aquilo que me marcou mais foram os maus momentos”, assumiu o engenheiro aposentado.

      Manuel da Silva conhece Moçambique como poucos. Ou pelo menos o “seu” Moçambique, aquele que viveu na meninice, antes da guerra, o que viveu enquanto militar, durante a guerra, e depois quando por ali foi para novamente, já nos anos de 1990. “Moçambique ocupa um lugar muito especial no meu coração, tal como Portugal”, confessou ao nosso jornal.

      “Kapalautsi”, como o autor voltou a frisar, “é um livro de memórias”, mas sobretudo “um livro didáctico que ajuda a compreender a guerra em si e também os perigos a que estavam sujeitos os militares”. “A dada altura comecei a extrair alguns retalhos das minhas memórias e comecei a enviar a colegas meus que comentavam. Alguns que tiveram na tropa comigo e outros amigos da Universidade, do Liceu, entre outros”, afirmou.

       

      A dureza das savanas de Moçambique

      E porquê um livro agora aos 72 anos, até porque tal qual nos confessou, não vai ter qualquer benefício com a venda. “Instruí a editora nesse sentido; contudo, o maior benefício que posso ter é o de dar a saber ou fazer recordar àqueles que por lá andaram, como foi duro andar pelas savanas do Moçambique de todos nós”.

      Em Moçambique, Manuel da Silva comandava um pelotão com duas secções quando saía em missão. A coadjuvar tinha dois furriéis. Entre as muitas histórias que conta no seu livro de memórias, nós destacamos uma. “Numa das nossas operações, num dia de grande trovoada e chuva, alguns militares começaram a ficar constipados, outros nem tanto. Depois começaram a tossir e não se pode andar a tossir no meio do mato. Mato é mato, pode não haver ninguém, mas pode ter. É preciso haver silêncio absoluto senão somos detectados”, contou.

      Manuel da Silva não estava para aquilo. A missão acabaria comprometida se o pelotão não se compenetrasse que ali, naquelas condições no meio do mato, ou todos remavam para o mesmo lado, ou então aquilo não acabaria nada bem. “Ou acaba a tosse ou vamos para o destacamento”, disse na altura. “Pela carta militar tínhamos de andar 25 km. Pedi a opinião deles, e cada um justificou a sua tosse. Isto já era noite. Pela noite fora, vamos pelo carreiro até Kapalautsi”.

      Assustados, disseram logo a Manuel que fosse à frente. “Ui, disseram logo. O alferes vai à frente e eu respondi que sim, que ia à frente. Normalmente ia em terceiro ou quarto. Naquela noite, absolutamente, eu fui à frente”, revelou o sucedido com galhardia.

      Quando começaram a caminhar para o quartel, chovia copiosamente. E a indumentária molhada é coisa que Manuel da Silva não recorda com saudade. “A coisa mais horrível que um gajo pode ter é estar no meio do mato com a roupa molhada, a enxugar no corpo, e o material todo molhado. Era uma aflição.”

      O pior estaria para vir. No meio daquela confusão de temporal e noite, com um carreiro para percorrer até ao destacamento, de repente, vê-se um archote, dois talvez. Era um conjunto de dez mulheres, duas delas armadas. “Deveriam ser guerrilheiras. Pelo menos, tomei-as como guerrilheiras. Depois, aconteceu um reflexo. Atirei-me para o lado direito a correr, para o mato, mas fiquei atrás de uma rocha. Elas nem deram por nós.”

      O archote, acrescenta, vinha aproximando-se. Já se via as armas delas. “Quando chegaram a uns 15 metros gritei ‘parem’. As gajas fugiram para a frente, mas os meus soldados estavam no lado esquerdo, contrário ao meu, em posição de ataque. O nosso pessoal começou a disparar e mataram todas. Tudo metralhado a G3. Foi o meu pior momento durante a guerra”, confessou.

      Os corpos ficaram no local. Não havia cabeça para levar quem quer que fosse, nem para identificar. “Ficámos chocados com aquilo. Hoje, passados tantos anos, posso afirmar categoricamente que aquilo foi um autêntico massacre, mas combinámos que não faria parte do relatório. Foi tão fatídico. Ouvia-se o sangue a jorrar ao ritmo do coração. Foi um horror”, relatou, ao pormenor.

      Um dos soldados do pelotão ficou incumbido de confirmar as mortes e fazer a contagem dos corpos, mas não aguentou a pressão da tarefa. “Conseguiu contar oito, mas depois atirou o isqueiro para o chão e chateou-se com aquilo, nada mais disse. Apercebi-me da sua atitude e defendi que fossemos embora dali. Esta parte não escrevi no livro, mas apercebi-me que ele ficou muito abalado com aquilo. Porra, tínhamos acabado de matar um grupo de mulheres”, desabafou, visivelmente consternado, reiterando que “a ideia não era matar”. “As nossas missões eram sempre para capturar material de guerra. Claro que, muitas vezes, tínhamos de matar, defendermo-nos, senão eles matavam-nos. Tenho marcas da guerra no corpo, como esta que pode ver aqui”, disse, apontando para o sobrolho.

      Manuel da Silva estava na tropa com sentido de missão. Não era um praça qualquer, era um oficial. O seu grande objectivo, mesmo tendo sido já contratado em Moçambique para defender Portugal, era prestar um serviço à pátria. “Eu era e sou patriota. Nunca neguei isso a ninguém”, admitiu apesar do amor que nutre por Moçambique.

      O engenheiro, que anos depois, mais tarde, assentou arraiais em Macau, onde foi quadro da CEM, referiu ao nosso jornal que o livro não é a evocação a um herói. “Não sou o herói do livro, nem quero ser. Fiz todos os possíveis para escrever com exactidão tudo o que escrevi. Não escrevi só a favor de Portugal, nem escrevi só a favor de Moçambique. Fiz observações ao comportamento das nossas tropas, mas também relativamente à FRELIMO e a outros guerrilheiros. Não digo que o livro é neutro, mas o livro serve as duas pátrias”, notou.

       

      Um comandante chamado Kaúlza de Arriaga

      Como esteve 20 anos em Moçambique, Manuel da Silva não pode, nem quer, criticar de ânimo leve aquele país africano. “Tenho parte do meu coração por lá”, admitiu.

      Serviu dois anos, três meses e quinze dias, para ser mais exacto nas contas. Saiu em Novembro de 1974, já nos últimos suspiros de uma guerra que Salazar iniciou em 1961 e que só o 25 de Abril de 1974 veio por cobro.

      Manuel não era um tropa qualquer. Era paraquedista, mas também não era um paraquedista qualquer. Fazia parte do Grupo Especial de Paraquedistas (GEP), fundado por Kaúlza de Arriaga, comandante militar das forças coloniais em Moçambique até ao momento em que Marcello Caetano, na posse de informações de Jorge Jardim, terá dado fim à carreira do general. “Esse Jardim era uma boa peça, era. Consta que se serviu dos militares para proveito próprio, mas eu quando cheguei ao teatro de operações, as coisas já não funcionavam dessa forma”, revelou Manuel da Silva.

      Recorde-se que Kaúlza de Arriaga, sob ordens de Salazar e Marcello Caetano, foi comandante das Forças Terrestres em Moçambique em 1969 e 1970 e foi Comandante e Chefe das Forças Armadas em Moçambique de 1970 a 1973 durante o conflicto armado naquela nação africana virada ao Oceano Índico.

      Manuel da Silva fez a sua formação na vila de Boane, junto a Lourenço Marques (actual Maputo). Durante a recruta saltou seis vezes do avião, mas em combate nenhuma, apesar de, em muitos casos, virem os helicópteros que os carregavam e levavam mesmo junto ao inimigo. “A missão era atirar a matar e à rajada”, recordou. Na tropa, confessou-nos, “cada um sabia o que tinha a fazer e isso, nos paraquedistas, notava-se bem”.

      Quando se deu o famigerado Massacre de Wiriyamu – ou Operação Marosca, como outros lhe chamaram – a 16 de Dezembro de 1972, Manuel da Silva estava no Dondo a receber formação nos GEP. Tinha entrado para a recruta meses antes, a 16 de Julho. Ainda assim, recorda bem os momentos aflitivos que as tropas portuguesas viveram nesses meses e o quanto foram julgadas na praça pública por aquilo que aconteceu em Tete. “Infelizmente, o homem – Alferes Antonino Melo – que conduziu os Comandos para o massacre foi mobilizado em Moçambique e foi meu colega no IICB – Beira e amigo, tinha entrado para a recruta um ano antes de mim”, contou Manuel.

      “Quero deixar, mais uma vez, claro que as nossas operações ali serviam para interditar a passagem no rio Zambeze. Nunca as chefias nos diziam para matar. A palavra ‘matar’ não se dizia. O que se usava era ‘interditar’. Nunca fui instigado a matar, embora matasse”, assumiu, acrescentando que, sendo o GEP uma tropa de elite, “qualquer merda que se passasse connosco era logo bufada ao comandante-chefe, Kaúlza de Arriaga” e isso não seria, certamente, o ideal.

      Quem quiser saber mais histórias e peripécias da Guerra do Ultramar em Moçambique é só adquirir um exemplar de “Kapalautsi”. O livro de memórias do alferes miliciano Manuel da Silva, com chancela da Chiado Books, do grupo editorial português Atlântico, e lançado em Setembro do ano passado, é composto por 310 páginas de informação pertinente para quem se interessa por um dos períodos mais negros da história portuguesa.

      Em Macau, o livro pode ser adquirido na Livraria Portuguesa através de uma inscrição e pagamento prévio, estando no local um exemplar para amostra.

      Recentemente, revelou Manuel da Silva, Portugal e Moçambique têm vindo a trocar experiências em matérias ligadas à história da luta armada de libertação nacional de Moçambique. O ARPAC – Instituto de Investigação Cultural tem vindo a defender que os investigadores devem tirar o máximo proveito da troca de experiências para melhor documentar a história do país. “Tendo eu sido combatente, mobilizado em Moçambique e ali residente durante 20 anos, tenho mantido contactos regulares desde Janeiro de 2020 com o director provincial da ARPAC em Manica. Desta forma, a ARPAC e a Universidade de Coimbra estão a documentar a história da luta armada de libertação de Moçambique, tendo certamente em consideração as memórias que reportei a ambas as instituições”.

       

      PONTO FINAL