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      Início Opinião A literatura portuguesa não se dá no “ambiente exótico”

      A literatura portuguesa não se dá no “ambiente exótico”

      Portugal entrou no século XX, o século de todas as transformações, do futuro, a ansiar pela glória do passado. Velho hábito de um país que foi do esplendor ao declínio numa só geração.

      Uma eterna questão transversal, que unia até monárquicos e republicanos, era a expansão ultramarina e os domínios coloniais, entendidos como razão de ser da nação, tanto material como espiritual. Todavia, apesar da obstinação com que as elites apregoavam esse “génio nacional” fundador, na realidade – na prática – reinava a indiferença. O país que mostrara “novos mundos ao mundo”, afinal, conhecia mal esses mesmos universos, e exibia pouco ou nenhum interesse em alterar a situação.

      Para acudir ao que se considerava um magno problema, foi criada, em 1906, uma Escola Colonial. Como de costume em Portugal, corria-se (mas não muito) atrás do tempo. “Fazer isto, mais não é do que imitar nações previdentes, bem orientadas no capítulo da colonização e nas quais os esforços governativos se consorciam com os dos institutos particulares, de maneira a difundirem em larga escala a instrução”, concedia-se no relatório que antecede o decreto que estabelece a nova instituição.

      Admitia-se, no fundo, que era preciso inverter papéis e seguir os exemplos ditados pelos que, antes, tinham andado no encalço dos navegadores portugueses, Inglaterra, Holanda, Alemanha, Rússia, Bélgica ou França, com a ressalva de que “mais modesta deve ser a nossa pretensão”, pois “nem possuímos recursos tamanhos que nos permitam dotar o país com estabelecimentos de custosa implantação e sustentação, nem seria fácil bruscamente sairmos da situação, neste ponto bem mesquinha, em que nos encontramos, para outra que ombreasse com os magníficos institutos coloniais, alguns riquíssimos, de estranhas nações”.

      Com os pés bem assentes na terra, a principal preocupação foi, portanto, “dotar a Escola Colonial apenas com as cadeiras verdadeiramente úteis”. Assim, no que dizia respeito às “línguas das nossas possessões”, só se contemplava as de Angola e Moçambique.

      O contraste era evidente com o que se passava nas “estranhas nações” que se pretendia imitar. Na Escola Colonial de Paris, por exemplo, além de línguas europeias, como inglês, alemão ou espanhol, ensinava-se ainda cambojano, árabe ou malgaxe; os ingleses obrigavam os funcionários que enviavam para a Índia ao conhecimento da língua da presidência onde iam prestar serviço, enquanto os holandeses impunham javanês e malaio aos aspirantes ao serviço colonial.

      “Em Portugal”, iria resumir, em 1926, Lourenço Cayolla, professor da Escola Colonial, “um problema de tanta magnitude fora sempre esquecido e sacrificado às conveniências das clientelas políticas”, levando “os que se viam sem méritos nem qualidades de trabalho para exercer, na metrópole, a mais simples profissão ou emprego, [a filiarem-se] num partido político, com a certeza antecipada de que, quando os seu correligionários disfrutassem o poder, obteriam, sem dificuldades, a nomeação para qualquer cargo nas colónias, embora desconhecessem, por completo, as funções que lhe eram inerentes”. Isto aplicava-se até aos “postos mais graduados”, incluindo os “próprios governadores”.

      Mas a questão batia mais fundo e o desdém pelas questões coloniais acomodara-se confortavelmente na imaginação. Mais do que uma escola, era preciso chamar a atenção da “elite pensante da nossa terra” para “a necessidade dum género de literatura que, pela imaginação e pelo sentimento, estimulasse e deslumbrasse as curiosidades e o espírito de aventura da massa gregária da nação, assim a interessando apaixonadamente nesse problema vital da nacionalidade”.

      O apelo é de Carlos Selvagem, pseudónimo literário de Carlos Tavares de Andrade Afonso dos Santos, oficial do Exército, historiador militar, governador colonial (Inhambane e Huíla) e dramaturgo.

      Selvagem intervinha a convite de António Sérgio numa conferência realizada na União Intelectual Portuguesa, em 1925, sobre a “inexistência duma literatura portuguesa de ambiente exótico como sintoma flagrante da nossa decadência de nação colonizadora”.

      Esta falha era atribuída à desconsideração das colónias, vistas em Portugal como antros de corrupção, inércia, doenças, costumes esquisitos, gente escrava.

      O que tinha, pois, para mostrar “a nossa literatura de ambiente exótico”? O “bem magro espólio a inventariar” era composto apenas de nomes que, hoje, estão completamente esquecidos. Roberto Ivens, Brito Capelo, Serpa Pinto, as “formosas páginas de Wenceslau de Morais sobre o Império do Mikado”, “dois volumes de versos do dr. Osório de Castro, a ‘Terra das Lendas’ do dr. Brito Camacho, a ‘África Nostra’, de Augusto Casimiro, as ‘Memórias dum Caçador de Elefantes’, de J. Teixeira de Vasconcelos, irmão do grande poeta Teixeira de Pascoais, e ainda dois volumezinhos dos almirantes Leote do Rego e Brás de Oliveira, e um ou outro livro de narrativas das nossas campanhas coloniais”.

      Era pouco, sobretudo, se comparado com a literatura de viagens que se produzira em português nos séculos XVI e XVII, “desde os ínfimos diários de bordo às eruditas crónicas das Navegações, Descobrimentos e Conquistas, desde as gestas populares da nossa epopeia trágico-marítima à luxuriante fantasia dos Lusíadas que, além de bíblia da nacionalidade, é também o poema eterno do mar”. Pouco, perante os cronistas João de Barros, Damião de Góis, Diogo do Couto, Fernão Lopes de Castanheda, Gaspar Correia, Fernão Mendes Pinto, “precursores dum género de literatura que dois séculos mais tarde tanto havia de apaixonar toda a Europa culta, excitando-lhe o gosto das longas viagens, estimulando-lhe a curiosidade e o interesse pelas raças e civilizações exóticas, exacerbando-lhe a romântica e byroneana nostalgia por esses lendários países de mistério e maravilha, assim preparando, porventura, o mais propício ambiente para a febre de aventuras coloniais que caracterizou toda a política europeia do século XVI”.

      Agora, naqueles anos 20, eram outros os nomes que dominavam o imaginário. Rudyard Kipling, Pierre Loti, Claude Farrére, Ridder Haggard. “Que imaginosas novelas em língua portuguesa, com heróis portugueses e em exóticas paisagens de domínios portugueses, podemos nós modernamente nomear? Nem uma, por amostra”.

      Sobravam as peças que a burocracia produzia. “Tudo se resume a relatórios, monografias, impressões de viagem, narrativas de caça, crónicas militares – páginas, decerto, interessantes, algumas mesmo dum alto relevo literário, mas que, por não estimularem nem ferirem vivamente a imaginação, não ultrapassam um restrito círculo de leitores, exercendo uma influência quase nula ou contraproducente no espírito do grande público”. E ainda não tinha chegado a ditadura do Estado Novo, que, com o seu longo véu negro, haveria de toldar a imaginação popular. (continua)

      Jornalista