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      Início Opinião Um “passageiro perpétuo”

      Um “passageiro perpétuo”

      Quando se escrever a história desta pandemia, deverá merecer menção especial, certamente, a súbita mudança de hábitos de uma população global habituada a viajar constantemente em contínuas ligações que davam a volta ao mundo e que, uma a uma, foram sendo cortadas. Todavia, maior destaque, pelo insólito, poderá ser dado ao prolongamento dessas interrupções em alguns países e regiões, contrariando a tendência geral que se foi seguindo no restabelecimento da normalidade que se conhecia antes da COVID-19.

      A realidade nunca perde capacidade de nos surpreender. Nem o passado. É de lá que vem um inusitado paralelo invertido – a correr na direcção contrária –, a estes dias de clausura forçada, em que uma estratégia rígida de combate à propagação da doença, na prática, significa uma rejeição do mundo pela via directa em que esse mundo se comunicava, se dava. É um episódio tão estranho quanto julgamos inconcebível o que agora acontece – ou, melhor, não acontece: viajar ininterruptamente, só que contra a vontade e sem chegar a lado nenhum.

      Foi o que sucedeu a Michael Patrick O’Brien, que durante quase um ano viajou de “ferry” entre Hong Kong e Macau sem poder desembarcar em nenhum dos portos, porque não tinha passaporte nem outro documento que as autoridades considerassem credível.

      Havia apenas um antigo certificado da Cruz Vermelha Internacional a identificá-lo como um “irlandês apátrida”, contudo, ele próprio afirmava-se como um americano de nome Steven Stanley Ragan. Já o Departamento de Estado norte-americano, por sua vez, acreditava que o homem tinha nacionalidade húngara e se chamava Istvan Ragan, tendo chegado aos Estados Unidos criança, com apenas dois anos. A Hungria nada dizia. Sem documentos e sem país, ficou conhecido como “o homem sem passaporte”.

      Ao contrário do protagonista, a sua história deu a volta ao mundo. Aos poucos, os jornalistas começaram a embarcar no “Lee Hong” para conhecer a misteriosa figura que subira a bordo do “ferry”, em Macau, no dia 18 de Setembro de 1952, mal sabendo que dali não sairia tão cedo.

      O’Brien recebera ordem de expulsão das autoridades portuguesas de Macau quando chegou ao território, oriundo de Cantão. Em Hong Kong, viu ser-lhe barrada a fronteira por não ter documentação em ordem. Regressado a Macau, foi-lhe lembrado que era “persona non grata”. Tornou a seguir para Hong Kong, voltando depois a Macau. E assim sucessivamente durante 315 dias e 23.680 milhas, quase tantas quantas são necessárias para circum-navegar o globo.

      A companhia do “ferry”, contava a Associated Press, que apanhava a história à terceira semana de viagens, “gostaria de ver-se livre de O’Brien, mas não pode simplesmente atirá-lo borda fora”. Ainda por cima, o homem nem sequer tinha comprado o bilhete – embarcou à socapa.

      Em Dezembro, O’Brien é entrevistado pelo New York Times. “As primeiras semanas” a bordo do “ferry”, contava, “tinham sido uma piada”, mas “agora é monótono como o inferno”.

      Os jornalistas queriam saber tudo. “Tanto quanto sei”, recordava, “nasci em Tacoma, Washington”. Nos Estados Unidos, confessava, usava outros nomes: Robert Stephens ou Stephen Stanley Ragan. Com apenas 8 anos, dizia ter sido internado numa “escola para vadios”, depois de ter ajudado a atear um incêndio numa fábrica de fogo-de-artifício. Dali em diante correu várias instituições similares, até acabar na prisão estadual de Oregon. Pelo meio, ainda se alistou no exército dos Estados Unidos, do qual desertou passado pouco tempo.

      Ao fim de seis anos e meio de prisão – não fica claro nas notícias qual tenha sido o crime –, zarpou da Califórnia para a China a bordo de um navio onde trabalhou na sala dos motores. Em Xangai, adquiriu o nome que viria a usar, Michael Patrick O’Brien, depois de ter desembolsado 100 dólares pela identificação de outro marinheiro.

      Eram as histórias que, talvez para matar o tempo, “o homem sem passaporte” desfiava em conversa com os passageiros do “Lee Hong”, que assim também passavam as quatro horas da travessia mais entretidos.

      Num artigo publicado ainda em Outubro, o New York Times imaginava que chegaria o dia em que “o homem sem passaporte” desembarcasse. Mas, até lá, e antecipando que esse momento iria demorar, O’Brien era visto como um “símbolo”. Era, escrevia o jornal, “como um homem que tenta decidir a sua preferência numa eleição”; “ele é como a Humanidade, colocada às vezes e em certos lugares, perante uma escolha entre a tirania da Esquerda e a tirania da Direita”; “ele é como a civilização flutuando entre a paz e a guerra, entre a esperança e o desespero”; “ele é o futuro e o passado, e a mente de um homem oscilando entre um e outro”. Certamente que O’Brien dispensaria tais epítetos a troco de ser apenas um passageiro como os outros.

      A 30 de Julho de 1953, a Reuters noticia que o O’Brien, pela primeira vez em onze meses, pisa terra. Hong Kong não era mais uma miragem. O “passageiro perpéutuo”, como lhe chamara a Associated Press, tinha pedido às Nações Unidas ajuda na obtenção de autorização para entrar no Brasil. Nesse mesmo dia 30, a polícia de Hong Kong dá o caso de Michael Patrick O’Brien por encerrado. Às dez da manhã, o “Lee Hong” partiu em direcção a Macau. Todos os passageiros, consta, tinham passaporte e puderam desembarcar tranquilamente à chegada a Macau.

      Não era possível confirmar se o homem seguira para o Brasil, tal como se dizia que pretendia, sobretudo porque corria a história de que a sua mulher, que conhecera em Xangai – uma emigrante russa fugida da revolução bolchevique – passara por Hong Kong, proveniente de Xangai, a caminho do Brasil, ao abrigo de um programa de refugiados das Nações Unidas. Era verdade, e outra saga estava a começar.

      Quando chegou ao Brasil, em Agosto, Michael Patrick O’Brien passou por uma experiência que não estranhava: foi-lhe recusada a entrada. Desta feita, acusavam-no de ter estado envolvido no tráfico de droga.

      Negou tudo, mas viu-se forçado a navegar de volta para a Europa. No fim da longa travessia, nem França, primeiro, nem Itália, depois, permitiram que desembarcasse. Não teve outra opção senão manter-se no cruzeiro “Bretagne” e regressar ao Brasil, onde as fronteiras continuavam fechadas.

      A espera fez-se longa, mas havia de chegar-se a bom porto. Em Outubro de 1953, finalmente, O’Brien recebe boas notícias: possibilidade de asilo na República Dominicana. Anunciava-se o fim da história do “homem sem passaporte”, a quem se perderia o rasto.

      Desaparecia das notícias, mas a sua vida dava um filme. “Ferry to Hong Kong”, sobre um passageiro apátrida que esteve dez meses a bordo de um “ferry” entre Hong Kong e Macau, surgiu no grande ecrã em 1959. Qualquer semelhança com a realidade não era pura coincidência.

       

      Hugo Pinto

      Jornalista