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      Início Sociedade Orquestras de Macau vão desvincular-se do Instituto Cultural no final deste mês

      Orquestras de Macau vão desvincular-se do Instituto Cultural no final deste mês

      O Instituto Cultural confirmou ao PONTO FINAL a ideia de privatizar as duas companhias. Sem saídas para o processo, os músicos começam a ficar desesperados e acusam o instituto de falta de transparência em diversas ocasiões. Alguns acreditam que a recente saída de Mok Ian Ian da presidência do IC pode estar relacionada com a condução do processo das orquestras. Liu Jia conduziu a Orquestra de Macau pela última vez no sábado.

       

      As duas orquestras de Macau vão desvincular-se do Instituto Cultural no final deste mês e irão funcionar na forma de uma sociedade de capitais públicos. A notícia foi revelada ao PONTO FINAL pelo próprio instituto, depois de diversos músicos terem demonstrado desagrado com o processo e toda a indefinição que, dizem, está a ser criada nas suas vidas.

      “A Orquestra de Macau e a Orquestra Chinesa de Macau irão desvincular-se do Instituto Cultural, a partir de 1 de Fevereiro de 2022. A fim de acompanhar o desenvolvimento sustentável a longo prazo das duas orquestras, estas irão funcionar na forma de uma sociedade de capitais públicos”, referiu o IC, acrescentando que “a constituição da nova sociedade das duas orquestras está em fase de concretização”.

      O organismo também explicou ao nosso jornal que já comunicou com os músicos das duas orquestras, “pelo que o contrato celebrado entre os músicos das orquestras e o IC será rescindido e o IC irá proceder à indemnização compensatória legal, de acordo com as respectivas leis e regulamentos administrativos”, e mais não comentou.

      A resposta da entidade pública que tutela a cultura em Macau surge depois do PONTO FINAL ter enviado algumas questões que surgiram após a conversa que foi mantida com alguns dos músicos que, mesmo anonimamente, temendo represália, decidiram falar sobre o assunto. “Não há muito mais a dizer neste momento, pois não sabemos nada. A maioria de nós assinou uma espécie de acordo no dia 15 de Janeiro para aceitar que os nossos contratos fossem rescindidos até o final deste mês, seguindo-se a possibilidade de ingresso na tal empresa privada. Além disso, não temos mais detalhes”, explicou um dos músicos ouvidos, que revelou “bastante preocupação”, acima de tudo, pela forma “sombria e pouco clara” do processo.

      O mesmo músico, sem levantar a lebre, questiona o porquê do processo estar a acontecer ao mesmo tempo que Mok Ian Ian sai do IC de forma surpreendente. “Tudo isto é muito estranho, mesmo para o padrão de Macau. Também Mok Ian Ian acabou por sair do IC logo após a assinatura do acordo. Acho isto muito estranho. Não tenho quaisquer provas, mas acredito que isto esteja, muito provavelmente, ligado à sua saída”, apontou.

      Lu Jia é o maestro da Orquestra de Macau. Ou era, conforme refere um dos músicos com quem conversámos, porque nem há neste momento “certeza quanto a isso”. O nosso jornal tentou chegar à fala com o maestro, mas até ao fecho desta edição não foi possível.

      No entanto, um outro músico também ouvido pelo PONTO FINAL referiu que o maestro “não tem vindo a ser muito bem tratado” ao longo dos últimos anos. “Ele e o nosso antigo director musical Francis Kan, que ficou a saber que o IC estava à procura de um novo director musical quando estava em Pequim. O IC não tem sido muito gentil com as pessoas. O próprio Lu Jia também não tem sido tratado de forma adequada. Segundo sabemos, o último concerto no passado sábado foi o seu último enquanto maestro”, acusa.

      A saída de Mok Ian Ian da presidência do IC é algo que todos os músicos com quem falámos acham ter alguma ligação com tudo o que se está a passar. Quebras de contrato e histórias rocambolescas, principalmente nos último dois anos, “têm destruido as duas orquestras em Macau”. “Ambas as orquestras estão no limbo à espera que alguma informação sobre os seus futuros seja divulgada, porque, para já, tudo é um mistério”, referiu um dos músicos.

      A Orquestra de Macau fechou o mês de Janeiro com um concerto na Universidade de Macau e “nenhum elemento do IC esteve presente”, assegurou um dos músicos que acedeu a falar com o PONTO FINAL. “Ninguém mostra qualquer apreço pelo trabalho que tem sido feito por Lu Jia e por todos os músicos. Muitos músicos terminaram o espectáculo lavados em lágrimas”, referiu.

       

      Estrangeiros “ignorados”

      Entretanto, ao assinarem o tal acordo com o IC, os músicos das duas orquestras tiveram destinos diferentes. Quem é residente de Macau recebeu cerca de 200 mil patacas pelo acordo, já quem é não-residente, portador de ‘bluecard’, acabou “ignorado” e “aparentemente sem nada”. “Este é mais um ataque contra os estrangeiros, as suas famílias e contra as duas orquestras que é simplesmente imperdoável para salvar as costas dos políticos sobre como as orquestras foram montadas no passado”, acusa um dos músicos.

      Como embaixadora cultural do Governo da RAEM – conforme se lê na página oficial do conjunto –, a Orquestra Chinesa de Macau também tenta divulgar no Continente as realizações culturais de Macau, mas nem isso parece ter sido levado em conta. “Estamos perante um escândalo de nível internacional e isto deve ser levado ao nível máximo de investigação”, apontou ainda um outro músico.

      A Orquestra de Macau foi fundada em 1983, chamando-se na altura de Orquestra de Câmara de Macau. Desde 2008 que Lu Jia é o maestro do conjunto. Entre 2017 e 2019, a orquestra também participou na temporada musical internacional “Uma Faixa, Uma Rota” em Shenzhen, visitando pelo menos 30 cidades na China, bem como vários países, incluindo a Áustria, Suíça, Hungria, Portugal, Espanha, Estados Unidos da América, Japão e Coreia do Sul. Em 2018 fez uma digressão de intercâmbio cultural pelo Myanmar. Na comemoração dos 20 anos da RAEM, bem como dos 70 anos da fundação da República Popular da China e dos 80 anos da estreia da Cantata do Rio Amarelo, a orquestra foi convidada para participar num concerto com um repertório de obras chinesas de profundo significado histórico e contemporâneo.

      Já a Orquestra Chinesa de Macau foi fundada quatro anos depois, em 1987. “Sediada em Macau, abraçando o mundo e promovendo a cultura com repertório do Oriente e do Ocidente”, a orquestra chinesa tem vindo a apresentar música tradicional chinesa que reflecte o espírito dos tempos, trazendo excelentes obras aos aficionados de Macau e que permitem um acesso fácil do público a este género, ao mesmo tempo que projecta uma imagem positiva de Macau para o mundo, pode também ler-se na página oficial do conjunto musical, ainda sob a alçada do IC. A vertente chinesa fez digressões por Portugal, Bélgica, Índia, Goa, Singapura, Bahrein e quase 20 capitais provinciais do interior da China, além de cidades importantes como Pequim, Xangai, Tianjin e Chongqing.

       

       

      PONTO FINAL