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      “Macau tem uma história e uma relação com Portugal de centenas de anos que não é fácil apagar”

      Aos 74 anos, Dulce Kurtenbach é, mais uma vez, candidata a deputada à Assembleia da República Portuguesa pela Coligação Democrática Unitária (CDU), sendo o cabeça de lista pelo Círculo Eleitoral de Fora da Europa. Ao PONTO FINAL, a professora de inglês aposentada não admitiu mudanças políticas em Macau, referindo que a debandada de portugueses de Macau deve-se “maioritariamente porque alcançaram a idade da reforma e desejam voltar ao seu país”. Para a candidata, e à semelhança do que outros candidatos têm vindo a defender, independentemente do espectro político que representam, os serviços consulares carecem de melhorias e o Governo tem de apostar forte no ensino da língua portuguesa. O PONTO FINAL continuará a entrevistar até ao dia da eleição todos os candidatos a deputados pelo Círculo Eleitoral de Fora da Europa dos partidos com assento parlamentar.

       

      Filiada no Partido Comunista Português há 47 anos, viveu na República Popular da China durante 18 anos, sendo que quatro desses anos esteve baseada em Macau. Dulce Kurtenbach referiu ao nosso jornal que por aqui sempre se sentiu “respeitada e integrada na sociedade”. “Macau está no meu coração”, acrescenta. A candidatada da CDU desempenhou cargos de direcção na área da medicina física e reabilitação, tendo trabalhado na manutenção hospitalar do Hospital Conde de São Januário, de 1996 a 2000. Depois seguiu-se uma carreira de docente na Universidade de Zhoukou, na província de Henan, onde foi professora de inglês. Tal como em 2019, pretende criar condições para uma maior proximidade entre quem está longe de Portugal e o país. Ao mesmo tempo, o reforço da rede consular, uma aposta na rede do Ensino de Português no Estrangeiro – EPE – e a eliminação da respectiva propina, bem como um apoio ao Movimento Associativo e o efectivo reconhecimento do Conselho das Comunidades Portuguesas, são outras das questões que defende.

       

      Quais as expectativas da CDU e da cabeça de lista Círculo Eleitoral de Fora da Europa para as próximas eleições?

      Partimos para estas eleições com a convicção clara que a CDU, independentemente de não ter deputados eleitos pelo Círculo Eleitoral de Fora da Europa, não deixa de dar voz às suas preocupações, desenvolvendo um intenso trabalho intimamente ligado às comunidades emigrantes, propondo e apresentando soluções para os seus problemas. E é isso que continuaremos a fazer, independentemente dos resultados eleitorais. Claro que da nossa parte, esperamos ver reconhecido este trabalho e que as comunidades emigrantes votem em quem está verdadeiramente comprometido com a defesa dos seus interesses e aspirações.

       

      PSD e PS têm dividido os deputados no Círculo Eleitoral de Fora da Europa. O que pode fazer a CDU e, em particular, a candidata Dulce Kurtenbach para contrariar essa tendência?

      Como já referi, não podemos votar e eleger sempre os mesmos e esperar resultados diferentes. As comunidades emigrantes sabem o trabalho que temos feito e desenvolvido em prol das suas reivindicações e dos seus direitos. Também sabem que é no reforço da CDU que encontram a mais sólida garantia da resolução dos seus problemas. Estas eleições são o momento de fazer convergir no voto a vontade dos que lutam por uma vida melhor. Se temos hoje uma política de abandono das comunidades emigrantes, ela não é fruto do acaso, ela tem responsáveis, e esses são aqueles que nos têm governado ao longo das últimas décadas. Por isso, como também já referi, se interessa às comunidades emigrantes terem na Assembleia da República deputados verdadeiramente comprometidos com a defesa dos seus interesses e aspirações, a opção a fazer é clara. É votando na CDU, dando mais força à CDU, que essa garantia está mais próxima.

       

      Pergunto-lhe, o que é que de bom e de mau tem sido feito pelo PS e pelo PSD no Círculo Eleitoral de Fora da Europa, em particular, e no Círculo da Emigração em geral?

      Essa questão não pode ser vista assim. Não temos a pretensão de dizer que tudo está mal, mas também não podemos ignorar que muita coisa poderia ter sido feita e não foi. Desde logo se algumas das propostas que temos vindo a apresentar tivessem sido acolhidas. Dou-lhe um exemplo muito claro. Temos tido inúmeros relatos da parte dos nossos compatriotas da situação que se vive hoje nos postos consulares – ausência de respostas a problemas concretos; falta de pessoal para responder às inúmeras solicitações; agendamentos e marcações calendarizadas, nalguns casos para daqui a 7/8 meses. Houvesse disponibilidade dos sucessivos governos para acolher a nossa proposta de reforço da rede consular, seja a nível de recursos humanos, com também matérias e financeiros, e porventura não tínhamos chegado à presente situação. Claro que para isso acontecer a política a seguir teria de ser outra. Uma política que ao invés de privilegiar a diplomacia económica, olha-se para as pessoas, para as suas reais necessidades e fosse ao encontro destas.

       

      E o que falta fazer?

      Muito há a fazer. Já lhe referi o reforço da rede consular. Posso também referir a rede do Ensino de Português no Estrangeiro – EPE – e a eliminação da respectiva propina, assim como a garantia dos manuais escolares gratuitos, a semelhança do que ocorre hoje em Portugal, por proposta do PCP. O apoio ao Movimento Associativo, o efectivo reconhecimento do Conselho das Comunidades Portuguesas, e poderia continuar, mas para quem está mais atento a estas questões, sabe que estas têm sido as nossas reivindicações ao longo dos anos e que delas não iremos abdicar.

       

      Como estão as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, principalmente numa altura em que existem restrições em todo o mundo e incertezas quanto ao futuro?

      Temos tido relatos de imensos compatriotas nossos que de certa forma nos vão informando sobre as mais diversas situações. Sabemos também que a pandemia de Covid-19 veio agravar muitas dessas situações e que as medidas praticadas nos diversos países, que não são uniformes em todos, têm reflexo nas nossas comunidades. Na medida do possível, e dentro das nossas possibilidades temos procurado acompanhar as diversas situações, e sempre que nos é solicitado, procuramos intervir na resolução das mesmas.

       

      Como emigrante que foi pensa que a sua experiência enquanto expatriada pode ajudar melhor as comunidades portuguesas ao redor do mundo, aferindo as suas necessidades?

      Fui emigrante na República Popular da China e senti-me respeitada e integrada na sociedade. No entanto, sei que ao redor do mundo, muito há a fazer para que aqueles que foram forçados a abandonar o país em que nasceram, se sintam a ele ligados de maneira e se criem as condições que permitam o seu regresso ao país, a terra de seus ascendentes, a sua cultura. Dos contactos que fiz e do conhecimento que adquiri ao longo dos anos, muito há a fazer. No meu entender precisamos de avançar no que é preciso fazer. Precisamos de um outro rumo e uma outra política capaz de responder aos problemas do país, dos trabalhadores, do povo, das comunidades emigrantes. Uma política que aproveite melhor as potencialidades existentes no nosso país. Portugal pode ser mais desenvolvido, mais justo e soberano. Portugal, os portugueses, as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, merecem e precisam de uma outra política, uma política alternativa, patriótica e de esquerda.

       

      Viveu em Macau alguns anos e depois na República Popular da China. É conhecedora da realidade nesta zona da Ásia. Isso é um ponto a favor para poder ser eleita ou, pelo menos, para ter uma boa votação por estas bandas, mesmo sabendo que não há muita tradição comunista em Macau?

      Atribuo essa questão, mais a falta de conhecimento, do que propriamente a outros factores. A comunidade portuguesa em Macau está enraizada e integrada na sociedade. Naturalmente tem as suas vidas organizadas e não será fácil mudar de um dia para o outro. Também, naturalmente, da nossa parte faremos aquilo que temos de fazer. Dar a conhecer as nossas propostas, demonstrar porque elas são as que melhor servem as nossas comunidades emigrantes, e procurar assim que mais e mais compatriotas nossos se juntem a nós.

       

      Macau, muito por culpa das mais recentes políticas chinesas, mas também devido às restrições pandémicas que obrigam a quarentenas de 21 dias após o regresso ao território, tem colocado em debandada a comunidade portuguesa. Isso preocupa-a?

      Tanto quanto sei as pessoas que diz estarem a abandonar Macau não são pelos motivos que refere, mas maioritariamente porque alcançaram a idade da reforma e desejam voltar ao seu país. Quanto à influência social, cultural e comunitária ela ainda é bastante visível.

       

      Macau continua a ser importante para Portugal e para os portugueses?

      Macau tem uma história e uma relação com Portugal de centenas de anos que não é fácil apagar. Deixámos a nossa marca em muitas coisas, que ainda hoje pesam nessa relação, que continua a ser importante.

       

      Uma pergunta de nível pessoal. Sente falta de Macau?

      Se sinto falta de Macau? Sim, sinto! Foi uma cidade onde fui feliz numa época difícil da minha vida. Fiz muitos amigos para a vida, portugueses e chineses. Sinto a falta exactamente dessa diversidade. E sim, fui muitas vezes a Macau depois de ter saído de lá em 2000. Macau está no meu coração.