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      Macau e Eu

      Nasci em Macau no Hospital de São Rafael que ainda se mantém um bocado de Portugal como consulado geral e devo ter lá passado os meus primeiros dias antes da minha mãe poder voltar para casa.

      Os meus pais moravam na rua da Penha nº 22, um anexo do desaparecido palacete do meu avô materno, José Vicente Jorge.

      Este macaense ilustre, filho de uma família seguramente com mais de trezentos anos de Macau foi muito influente nos aspectos políticos e culturais da colónia, professor, secretário intérprete da língua chinesa, chefe da Repartição do Expediente Sínico e detentor da que foi considerada na altura, a mais importante colecção de arte chinesa. Teve doze filhos com sua mulher, a minha avó Matilde, morrendo dois gémeos quase à nascença e “vingando” 5 rapazes e 5 raparigas. A primeira das meninas era a tia Amália, a “Tai Ku” que se tornou a responsável da educação dos irmãos mais novos e depois dos sobrinhos e, a quarta, a minha mãe: Henriqueta Clarisse Augusta, conhecida como quase todos os macaenses por um dos seus “nick name”, Catita, Titita ou Tita.

      Bonita, de estatura superior à maioria das raparigas de Macau da época, com marcados traços orientais, com os olhos amendoados e o cabelo negro asa de corvo sempre penteado para trás onde era preso, bem à chinesa, numa trança enrolada.

      Tratava toda a gente com ternura e nunca a ouvi dizer mal de outra pessoa. Tímida, gostava de passar despercebida deixando aos outros a oportunidade de brilhar. Era adorada em Macau onde nasceu e onde viveu os primeiros trinta e oito anos da sua vida e em todos os lugares onde veio a viver posteriormente.

      Até casar foi professora primária.

      Casou em 1935 com o meu pai, Leopoldo Danilo Barreiros, conhecido por todos por Danilo, uma espécie de aventureiro que chegara a Macau dois anos antes, com 23 anos de idade, e que se tornou um macaense de alma, identificando-se inteiramente com a terra e dedicando-se a quatro temas culturais macaenses para o resto da sua vida: a porcelana chinesa, o dialecto português de Macau, Camillo Pessanha e Wenceslau de Moraes.

      Foi um casamento de grande amor por parte de ambos que durou para o resto das suas vidas.

      Tiveram dois filhos antes de mim, o Rui Alberto que nasceu em 1936 e morreu 3 anos depois, deixando a minha mãe de luto o resto da vida, sempre com uma tristeza diáfana a cobrir-lhe discretamente o rosto, o Manuel António, o meu irmão Manel, meu ídolo de infância, de juventude e de adolescência, nascido em 1941, em Macau e também no Hospital de São Rafael e, três anos depois de mim, a bordo do navio “Lourenço Marques”, à vista de Port-Saïd, o José Manuel, o “Cui”, que morreu em 2005 em vésperas dos sessenta anos, depois de uma vida demasiado intensa para ser mais longa.

      Claro que do nascimento e primeiros tempos de Macau só sei o que me disseram. Sei que foi em tempo de guerra, não tenho fotografias de bebé.

      O único brinquedo que me lembro de ter, porque o conservei até mais tarde era um elefante tricotado pela tia Amália recheado a sumaúma.

      De Macau daquela época conservo apenas três imagens:

      – A primeira vez que me separei dos meus pais. Chorei desesperadamente deitado na cama chinesa da tia Amália, feita de pau-rosa com talha e embutidos que subiam até ao dossel, também de madeira, e que tinha uma enorme imagem do Sagrado Coração de Jesus, que me impressionava um pouco pois era o primeiro homem de barbas que via e ainda por cima de peito aberto e coração a sangrar semelhante ao que tinha espreitado na cozinha numa galinha deitada sobre a mesa com a cozinheira a agarrar-lhe o pescoço e a rasgar-lhe a carne. À porta do quarto os meus pais acenavam-me adeus, o Danilo sorria e a Tita procurava conter uma lágrima. Iam ao cinema e eu devo ter chorado até voltarem, para desespero da tia Amália que me pegava ao colo, me dava “bate-rabo” e me cantava o “Dom-dom-dom”, canção de embalar de Macau ao som da qual adormeceram gerações e gerações e que começa assim:

      “Dom dom-dom, dom-dom

      Sinhô capitán

      Espada na cinta e

      E rota na mán!”

      – A segunda foi o meu primeiro filme de terror, a “Branca de Neve e os Sete Anões” de Walt Disney com aquela horrorosa bruxa, de orelhas enormes, nariz aquilino, queixo revirado e dentes podres que me assustou a sério, muito mais que o lobo mau dos 3 porquinhos. O que foi compensador daquele medo todo, foi ter adormecido na cama e ao colo da minha mãe.

      – Só me lembro mais de uma passagem, ir a correr com o Manel e o Zeca (meu primo mais velho) pelo terraço que unia o 22 da Rua da Penha ao casarão do avô, no número 20, para ver quem chegava mais cedo ao pequeno almoço e comia mais depressa o ovo estrelado.

      (Claro que fui eu o último).

      Foram só estas as recordações vividas de Macau.

      Tudo o que me entrou depois e antes de lá voltar, foi fruto da convivência com os muitos macaenses da minha infância, sobretudo a minha mãe, e a tia Amália, mas também o avô, a minha prima Maria do Céu, os meus primos Johny e Zeca e o meu irmão Manel.

      E foi muito.

      Desde que tenho consciência de mim, a tenho como macaense, filho da terra, diferente dos outros meninos em muitos gostos, sobretudo na comida e no “papiá” – saíam-me espontaneamente misturadas com a língua portuguesa muitas palavras em cantonês e “patois” que não conseguia traduzir para português, embora tivesse combinado com o Manel, desde que chegámos a Lisboa, falar apenas esta última língua.

      Senti sempre que tudo o que era de Macau era melhor do que aquilo que havia cá.

      O tio Alberto mandava-nos de Macau todos os anos um enorme caixote com coisas de lá, desde o arroz, à massa, aos cogumelos, ao chouriço chinês, ao chá, à “jagra”, às “orelhas de rato”, ao “sutate”, ao “la-chew-tchon”, ao “cham pi mui”, ao “wa mui” ao gengibre, ao “tao si”, enfim, tudo o necessário para se ter uma comida decente, a nossa comida.

      Para mim, tudo o que vinha de Macau, tudo o que era de Macau, era melhor. A verdadeira felicidade era a vivida em Macau.

      Como as pombas viviam felizes no Rossio, passei a chamar à grande praça – Macau das Pombinhas e quando alguém falava de Macau, interrompia com orgulho: Macau fui eu que nasci!

      Só voltei a Macau, quarenta e quatro anos depois, em Outubro de 1990.

      Durante todos aqueles anos tinha construído em Lisboa, o meu Macau.

      A casa dos meus pais, as pessoas que lá viviam e que a visitavam, as mobílias e objectos que a recheavam, os livros que em concorrência com os pratos de porcelana forravam as paredes, os sons falados ou cantados que lhe davam a música de fundo, tal como os cheiros que vinham da cozinha e os sabores que a mesa nos oferecia, eram Macau.

      Depois, tudo continuou a ser na casa que criei com a Graça, minha mulher e prima macaense também “diasporada” primeiro para Moçambique e depois para Portugal.

      A construção criada durante esses mais de quarenta anos, alicerçada em descrições e histórias que nos tinham sido contadas, episódios repetidos que evocavam locais de interior e de rua com gente e com coisas e com sons com cheiros com sabores, e na enorme quantidade de livros e de álbuns que lia e folheava numa curiosidade e interesse permanentes.

      A gente era diferente da que encontrava nas ruas da cidade em que agora vivia e as coisas, prolongando as que havia nos quartos, nas salas e nos corredores da nossa casa, eram como as dos cadernos de papel almaço que o meu pai ia “corticolando” todos as noites, depois do jantar, com uma enorme tesoura e uma bisnaga de cola branca Cisne.

      Os sons por vezes eram vozes com entoações e palavras em diversas línguas ou sotaques, outras vezes eram músicas para festejar ou embalar ou apenas ruídos, ou barulho que ajudavam a definir distâncias ou proximidades emotivas. Ruídos como os do misturar das pedras do “mahjong” que vinham da mesa de jogo que havia na “marquise” da casa dos meus pais continuação das ruas do meu Macau imaginário.

      Os cheiros e os sabores intensificavam-se sobretudo a meio da tarde na preparação dos petiscos que a minha mãe e as suas amigas de Macau iam produzindo.

      Durante esses mais que quarenta anos vivi sempre em Macau, nessa cidade em que tinha nascido e que tinha, ao longo desses mesmos anos, construído dentro de mim e a que regressei em Outubro de 1990.

      Quando desembarquei do “ferry” de Hong Kong senti-me, como se nunca tivesse saído de Macau, envolvido pelo calor húmido do Outono, pelos cheiros, pelo ruído permanente com a musicalidade do falar cantonense.

      Desde esse primeiro retorno, após os quarenta e quatro anos que tinham passado, e nos que se seguiram, eu e a Graça, fomos acompanhando a metamorfose brusca que se deu em Macau cada vez que desembarcávamos, sempre com uma emoção crescente.

      Quadriculámos a cidade horas a fio, centenas de vezes por dia, procurando nos nossos passeios os sinais que sabíamos da nossa cidade construída e sonhada, pelas nossas recordações, leituras, conversas e imaginação.

      Em Macau há duas frentes onde podem atracar barcos: o Porto Exterior e o Porto Interior.

      O primeiro recebe as embarcações que vêm de fora, penso que nenhuns navios de grande porte, porque as águas não são suficientemente profundas.

      Do outro lado do estreito território fica o Porto Interior que tem à frente uma enorme massa de terra separada por um cada vez mais estreito ramo de mar; há aqui também um terminal marítimo que transporta actualmente apenas passageiros para a curta viagem até Zhuhai onde se chega mais facilmente a pé pelas Portas do Cerco.

      A curta distância entre as duas margens é ainda atravessada por sampanas usadas por pequenos comerciantes que trazem diariamente alguns frescos para os mercados de Macau, fazendo a viagem de regresso obrigatória no fim da feira.

      Nessas viagens anuais que há mais de vinte e cinco anos faço com a minha mulher àquela nossa terra sempre a desfazer a ideia da frase “matar saudades” pois em cada fim de visita elas não morrem mas aumentam, é no Porto interior que conseguimos encontrar a cidade de Macau que está dentro de nós e a que estamos sempre ligados em qualquer parte do Mundo em que estivermos e de que tentámos reproduzir a memória na nossa casa em Lisboa.

      Há uma imensa multidão de turistas que inunda Macau todos os dias desde os aterros dos casinos ao que resta da Avenida da Praia Grande (até porque já não há praia e muito menos grande), descendo a Sun Ma Lou até à Rua dos Mercadores, preenchendo o Largo do Leal Senado e invadindo as ruas que levam até às ruínas de São Paulo com a fachada da Igreja da Madre de Deus, que por mais imponentes, avançados arquitectonicamente ou extravagantes edifícios que vão sendo construídos anos após ano, continua a ser o ex-libris da cidade.

      Para andar nessas zonas é preciso abrir caminho à força de ombro ou de cotovelo o que por vezes se torna impossível, nomeadamente aos sábados, domingos e inúmeros dias de festa dos calendários europeu, chinês ou “globalizado” (Halloween ou St.Valentine’s day).

      Em toda a zona encostada a todo o comprimento do porto interior o clima é outro.

      Embora na larga avenida que separa o porto da cidade haja um quase sempre contínuo tráfico de automóveis, autocarros e motorizadas, andar a pé é possível e entrar pelo emaranhado de ruas e travessas, nos pátios e becos onde sempre vamos descobrindo coisas novas desde figueiras e papaieiras até pequenos templos e altares e nomes deliciosos de travessas, becos e ruas, que se lêem em cada esquina. O porto interior faz pensar no Macau que foi e rever interiormente tudo o que durante a nossa vida nos ligou a essa cidade única.

      Foi nessas deambulações pelo porto interior que fiz pela primeira vez o paralelismo entre ele mesmo e a carga do seu nome e as vidas que vivi e que ainda levo longe de Macau, na também minha Lisboa e na aldeia que me adoptou entre Sintra e a Ericeira chamada Godigana, deturpação saloia do árabe, ribeira farta.

      Das portas para fora, para a rua, para as ruas, fica o meu porto exterior de onde me chega o que vem de fora, de outras aldeias, de outras cidades muito perto ou mais ou menos longe.

      Dentro das casas fica o meu porto interior – recantos recheados de coisas que foram lá postas por mim e pela Graça com uma história de vida que vem desde que foram criadas por quem as fez até passarem a ser possuídas por nós, cada uma fazendo-nos lembrar o momento em que isso aconteceu e que sem ser por acaso estão arrumadas umas com as outras numa relação afectiva e lógica entre cada uma delas entre si e cada uma delas com cada um de nós.

      Passamos muitas horas, muitos dias a olhar para cada um dos recantos do nosso porto interior e diálogo em profundo silencio com os seus moradores que foram lá postos por nós os dois com uma arrumação que só podia ser aquela sem que isso resultasse de um estudo prévio e baseado em qualquer relação ponderada e discutida. A ordem daquilo tudo saiu de dentro de nós de forma espontânea comum, cúmplice e íntima.

      Dentro das nossas casas em Portugal estamos permanentemente no nosso Macau de que continuo a dizer com orgulho e erros de gramática: Fui eu que nasci!

       

      Pedro Barreiros

      14 de Junho de 2016

      Texto escrito por Pedro Barreiros aquando da sua participação no 5.º Festival Literário de Macau. Republicamo-lo nesta edição, prestando com isso homenagem à memória deste grande divulgador da cultura macaense agora desaparecido.