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      Morreu Pedro Barreiros, o médico militar que era pintor e poeta  

      Especialista em Medicina Interna, foi autor de uma vasta obra de pintura. Entre 1982 e 2013 ensinou Patologia Clínica em diversas universidades portuguesas. Participou no Festival Literário de Macau – Rota da Letras – em 2016, onde falou de Bocage e de Pessanha. Oficial da Força Aérea, Pedro Barreiros morreu aos 78 anos, vítima de doença prolongada. Amigos e conhecidos falam de um “homem bom”.

       

      O macaense Pedro Barreiros morreu no passado sábado aos 78 anos. O médico, militar, pintor e poeta foi vítima de doença prolongada.

      Neto do macaense José Vicente Jorge e filho do português Danilo Barreiros, Pedro Barreiros é, tal como os seus antepassados, uma figura incontornável da história da comunidade macaense no território. Juntamente com a mulher Graça Pacheco Jorge, igualmente uma figura ilustra da comunidade macaense, especialista em gastronomia macaense, escreveu “José Vicente Jorge – Macaense Ilustre”, lançado em 2011. Sozinho, escreveu o romance biográfico “Danilo no Teatro da Vida”, dedicado ao seu pai no centenário do seu nascimento.

      A propósito dessa obra, o crítico literário, escritor e professor brasileiro Paulo Franchetti escreveu na altura: “A melhor homenagem que Pedro Barreiros poderia ter feito ao seu pai era este seu retrato de corpo inteiro, movendo-se contra o pano de fundo de uma época tão próxima e diferente da nossa, ainda capaz de se constituir em palco aberto à aventura e ao exercício triunfante da audácia criativa.”

      Ao PONTO FINAL, o brasileiro considera um “privilégio” ter conhecido Pedro Barreiros. “Conheci Pedro Barreiros em casa de seu pai, Danilo Barreiros, a quem tanto devemos todos nós no que toca à memória e à obra de Camilo Pessanha. Na sequência, conheci também Graça Pacheco Jorge. A enorme admiração que tinha por Danilo estendeu-se ao casal incansável no trabalho de preservação e divulgação da cultura macaense”, começou por dizer.

      Franchetti partilhou algumas das sessões da edição de 2016 do Festival Literário de Macau com Pedro Barreiros, mas mais que isso partilhou “a letra e a presença”. “Foram muitos encontros e vários trabalhos conjuntos, pois Pedro Barreiros foi a alma da Associação Wenceslau de Moraes, e através dela promoveu a publicação de livros e a realização de vários encontros intelectuais. Magnífico pintor, produziu, entre outras obras, a melhor interpretação plástica que conheço dos poemas de Camilo Pessanha. Neste momento de tristeza pela perda, o consolo único é lembrar-me do privilégio que foi tê-lo conhecido e ter com ele convivido em letra ou em presença ao longo de mais de 30 anos.”

      Pedro Barreiros era uma pessoa querida, principalmente no seio dos seus amigos e conhecidos que com ele partilharam momentos. Ao PONTO FINAL, Miguel de Senna Fernandes, que embora desejasse ter conhecido melhor Pedro Barreiros, não quis deixar de dar uma palavra de conformo à sua mulher. “Não o conhecia profundamente, apesar de ter estado em sua casa algumas vezes e ele na minha, juntamente com a sua mulher Graça Pacheco Jorge, a quem aproveito para mandar um grande beijinho.”

      “O Pedro sempre foi uma pessoa muito querida. Sabia que ele estava mal de saúde e só desejo muita coragem à Graça. Eles estavam sempre muito juntos e a partida de um, vai levar o outro a sofrer muito”, referiu ainda o presidente da Associação dos Macaenses.

      Pedro Barreiros dedicou a sua vida à medicina, mas também à Força Aérea Portuguesa onde ingressou no quadro de oficiais médicos em 1968. Foi chefe do Serviço de Medicina do Hospital da Força Aérea, director do Hospital da Força Aérea, director do Instituto de Saúde da Força Aérea, director de Saúde da Força Aérea e presidente do Conselho Coordenador de Saúde Militar. Mas para além desse seu percurso profissional, Barreiros foi igualmente um homem das artes. Aprendeu a pintar muito cedo com um mestre chinês e em 1974 fez a sua primeira exposição individual, em Portugal.

      O artista macaense António Conceição Júnior, actualmente radicado em Portugal, recorda e lamenta a morte o amigo, já com saudade. “Pedro Barreiros, médico, militar, artista, macaense ilustre, neto de outro ilustríssimo macaense, José Vicente Jorge. Era casado com Graça Pacheco Jorge, que estoicamente o acompanhou na doença. A comunidade macaense perde um dos seus prestigiados membros que, mesmo à distância, não deixou de acompanhar Macau e a sua cultura. Todos ficamos mais pobres, e o tempo vai passando. Para a sua mulher, Graça, amiga do peito, vão as mais sentidas condolências de minha mulher e minhas”, disse ao PONTO FINAL.

       

      Espólio à consideração do Arquivo Histórico de Macau

      Também o arquitecto Carlos Marreiros se mostrou consternado com o desaparecimento de Pedro Barreiros, assumindo-se “muito triste e chocado”. “Falei com ele em Dezembro e, apesar de já estar fraco, ainda era forte. Ele era um homem muito forte. Para a doença que tinha, ter aguentado cinco anos é obra”, constatou, lembrando uma luta contra a doença que teve sempre a seu lado a mulher Graça.

      Macau perde um filho ilustre, acredita Marreiros. Ao mesmo tempo, o arquitecto macaense não esquece a dedicação de Pedro Barreiros às artes e à poesia. “Era um profundo investigador de Venceslau de Morais e de Camilo Pessanha. Foi, inclusive, fundador da Associação Wenceslau de Moraes, com o claro intuito de divulgar a vida e obra do escritor.”

      Carlos Marreiros não era da geração de Pedro Barreiros. A amizade começou a ser construída apenas no final dos anos de 1980, numa altura em que o médico começou a colaborar com o Instituto Cultural, nomeadamente, na produção do livro “Notas sobre a arte chinesa”.

      O amigo arquitecto recorda que Pedro e Graça vinham a Macau “todos os anos, passar um mês, principalmente em Março”, mas que primeiro “por causa da sua doença” e depois “por causa da pandemia” há alguns anos que não vinham.

      Marreiros lembra ainda o trabalho pictórico de Barreiros que desconhece haver algum exemplar por Macau, “possivelmente em alguma colecção privada”. “As peças dele são muito pequenas. Na grande maioria das vezes pintava para ilustrar um livro”, refere.

      Pedro Barreiros nasceu num ambiente cultural muito propício, destaca Carlos Marreiros, deixando um apelo às autoridades de Macau, em especial ao Arquivo Histórico, para que, “chegando a um acordo com a viúva”, possa adquirir a colecção de “autógrafos e dedicatórias de Venceslau de Morais e Camilo Pessanha, bem como de outras personalidades chinesas daqueles tempos” que o arquitecto defende “deveriam pertencer à RAEM. “O Arquivo Histórico deveria prestar a devida atenção a isso. Aliás, digo-lhe já aqui que vou contactar a directora nesse sentido”, prometeu.

      Devido à sua atarefada vida enquanto médico e militar, Pedro Barreiros não produziu obra plástica tanto quanto desejaria. Ainda assim, tem alguns quadros seus em colecções particulares em Macau, Portugal, França e Estados Unidos da América.

       

      De uma riqueza cultural enorme

      Além da pintura, uma das suas grandes paixões, Pedro Barreiros foi, voltamos a destacar, tal como o seu pai, um profundo admirador da poesia de Venceslau de Morais e de Camilo Pessanha, poetas portugueses que marcaram a cena literária de Macau no final do século XIX, início do seculo XX. Aos 16 anos desenhou o seu primeiro retrato de Camilo Pessanha e, um ano depois, fez a capa do “Testamento de Camilo Pessanha”, um estudo assinado pelo seu pai, Danilo Barreiros. No Festival Literário de Macau – Rota da Letras – falou de Bocage e de Pessanha.

      Carlos Morais José relembra uma pessoa que “sempre viveu como macaense” e tinha orgulho nisso. Ao nosso jornal, o escritor relembra as noites passadas na casa do amigo e as conversas infindáveis. “Sempre que ia a casa dele comia comida macaense. Aliás, eles praticamente só comiam comida macaense, confeccionada pela Graça. Depois, ficávamos a conversar até tarde”, contou.

      Ambos partilhavam a paixão pelas obras de Venceslau de Morais e de Camilo Pessanha. Para Carlos Morais José, para além “do grande e bom homem que partiu”, Barreiros “foi um amigo” com quem chegou a trabalhar, corria o ano de 2004, nas comemorações do 150.º aniversário do nascimento de Venceslau de Morais, cujo evento foi comissariado por Pedro Barreiros. “Era uma pessoa com uma riqueza cultural enorme. Tinha uma vasta biblioteca em sua casa. Confesso que senti uma perda e uma dor muito grandes quando soube da morte dele”, desabafou.

      O escritor deixa ainda uma palavra de conforto à mulher Graça Pacheco Jorge, com quem Pedro “formava um casal muito giro”. “Tenho muita pena de não estar em Portugal neste momento para dar um abraço à Graça.”

      O jornalista João Botas, criador do blogue Macau Antigo, revelou ao PONTO FINAL sentir uma enorme “admiração” pelas pinturas de Pedro Barreiros. Num texto que também publicou no seu blogue, Botas agradece “a paciência com que sempre me recebeu em sua casa, tal como a sua mulher, Graça Pacheco Jorge, uma autoridade em termos de gastronomia macaense”. “Nunca irei esquecer a forma apaixonada como falávamos de Macau, da sua história e do pai, Danilo Barreiros. Isto, claro está, para além da minha profunda admiração pelos seus quadros. Demorei até lhe pedir um para mim. Pequenino que fosse. Por vicissitudes várias nunca se concretizou, mas sei que quando nos encontrarmos o fará. Até sempre Pedro. E obrigado por tudo. Com a sua partida perde Macau mais um ilustre macaense”, pontoou o profissional da RTP.

      Pedro Manuel Pacheco Jorge Barreiros nasceu a 14 de Agosto de 1943 em Macau. Licenciou-se pela Faculdade de Medicina de Lisboa e ingressou no quadro de oficiais médicos da Força Aérea Portuguesa em 1968, tendo sido promovido a Major General. Foi director de Saúde da Força Aérea e presidente do Conselho Coordenador de Saúde Militar. Leccionou várias vertentes de Patologia de 1982 a 2013, na Força Aérea e Universidade Nova, Clássica e Atlântica. Era especialista em Medicina Interna. Aprendeu a pintar em criança com um mestre chinês e fez a primeira exposição individual no Porto, em 1974, estando representado em colecções particulares e oficiais de vários países. Sempre assumiu sentir-se inspirado pela frase de Leonardo da Vinci “A Pintura é a Poesia que se vê, a Poesia é a Pintura que se ouve”. Fez algumas exposições individuais, incluindo em Macau entre 1990 e 2002. O seu trabalho artístico passou ainda por diversas cidades portuguesas, Macau e Cabo Verde. Recebeu o grau de Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique em 2006. Em 2015 colaborou no programa “À Porta da História – Wenceslau de Moraes”, apresentado este ano pela RTP. No mesmo ano, proferiu a palestra “Portugaru San- O Senhor Japão”, no lançamento do livro Relances da Alma Japonesa de Wenceslau de Moraes. Também colaborou na produção de documentários, como “The Weekend of the Shogun”, da NHK de Tóquio (2001), e “Macau uma Paixão Oriental”, realizado por Francisco Manso e apresentado na RTP em Dezembro de 2012.

      A 25 de Fevereiro de 1990, sobre a sua ida para Portugal ainda muito novo, escreveu: “Macau foi sempre para mim um estado de espírito… Saí de Macau muito novo com os meus pais e o meu irmão mais velho, também lá nascido A minha mãe estava muito grávida e o navio a vapor estafado que nos trouxe demorou tanto tempo a chegar a Lisboa que até deu para aportarmos com mais um irmão nascido em Port-Said alguns dias antes do fim da viagem. Uma vez chegados e instalados, eu e o meu irmão Manuel combinámos – o outro ainda não falava – esquecermos a Língua Chinesa, a primeira que aprendemos, para falar daí para diante só o Português.”

       

       

      PONTO FINAL