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      Exposição de fotografia revela olhares sobre Macau em tempos diferentes

      A mostra reúne imagens captadas pela geógrafa Raquel Soeiro de Brito, no início dos anos de 1960, bem como de quatro fotógrafos, nas décadas de 1980 e 1990. O resultado pode agora ser visto, em formato online, na página do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa. Dois livros sobre Macau estão na calha para serem editados, revelou ao PONTO FINAL Francisco Roque de Oliveira, investigador e especialista em Geografia Humana.

       

      A fototeca do Centro de Estudos Geográficos do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa (CEG-IGOT-ULisboa) e o Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) co-organizam a exposição de fotografia online “Macau: diferentes olhares em tempos diferentes” com fotografias da geógrafa Raquel Soeiro de Brito, captadas nos anos de 1960, e outras da colecção do CCCM, da autoria de Álvaro Tavares, Eduardo Tomé, Cheong Io Tong e Rogério Beltrão Coelho, captadas nas décadas de 1980 e 1990.

      A ideia de se fazer esta exposição – disponível no link https://exposicoes.ceg.ulisboa.pt – surgiu muito naturalmente, conforme referiu ao PONTO FINAL um dos curadores da exposição, o professor Francisco Roque de Oliveira – que partilhou a tarefa com Helena Coelho, bibliotecária do CCCM. “Sabíamos que em 2021 passavam exactamente 60 anos desde que a professora Raquel Soeiro de Brito tinha estudado Macau pela primeira vez e que aqui, na fototeca do Centro de Estudos Geográficos (CEG) da Universidade de Lisboa, guardávamos a generalidade do material fotográfico recolhido nessa ocasião – tanto fotografias a preto e branco como diapositivos”, começou por dizer ao nosso jornal o investigador efectivo do CEG-IGOT-Ulisboa, doutorado em Geografia Humana pela Universitat Autònoma de Barcelona.

      O docente, que também se tem debruçado em questões relacionadas com Estudos Asiáticos e Estudos Africanos, acrescentou que é função do CEG-IGOT-Ulisboa, além de preservar, “divulgar o espólio da Fototeca, que reúne peças únicas recolhidas em contexto de trabalho de campo por sucessivas gerações de geógrafos desde os anos de 1940”. “Importava-nos confrontar as imagens fotográficas dessa altura com olhares das décadas seguintes e que não tivessem sido pensados a partir de um olhar de cientistas – neste caso, uma geógrafa – em trabalho de campo, para podermos intuir semelhanças e diferenças nas perspectivas de observação sobre um mesmo território que sofreu uma transformação muito rápida num curto período de tempo. Por isso, lançámos o desafio ao CCCM, prontamente acolhido pelos seus responsáveis”, explicou o académico.

      Ficou definido que, para fazer contraponto ao trabalho de Raquel Soeiro de Brito, seriam escolhidas cerca de 5000 fotografias dos anos de 1980 e 1990 da autoria de quatro jornalistas e fotojornalistas de Macau, incorporadas na Biblioteca do CCCM há cerca de 20 anos. Acabaram por ser selecionadas apenas 66, imagens que representam “a nova face que Macau foi ganhando”. Do lado da geógrafa foram selecionadas 90 imagens dos mais de 300 diapositivos e fotos da viagem realizada em 1961. “São imagens de uma cidade com pouco mais de 150.000 habitantes, ainda muito marcada pelas actividades marítimas, pela horticultura chinesa nas áreas recém-conquistadas ao mar, e pela sobrevivência de espaços intersticiais não completamente urbanizados”, explica o CEG-IGOT-Ulisboa no texto de apresentação da mostra.

      A decisão de criar uma exposição online decorre das condições actuais de pandemia de Covid-19 que assola o mundo e tem criado sucessivas restrições em todos os países, conforme explica o professor Francisco Roque de Oliveira, que não descarta a possibilidade de uma exposição à moda antiga, entre quatro paredes. “O contexto de pandemia fez com que todos tivéssemos reinventado formas de comunicar numa fracção de semanas. Quando programámos as actividades para o ano de 2021, estávamos em pleno confinamento, com o IGOT, onde está sediado o CEG, fechado aos nossos alunos. A Biblioteca do CCCM também estava fechada à leitura presencial. Por isso, tentámos antecipar que a exposição pudesse ser fruída independentemente das condições de circulação que viéssemos a ter na altura da inauguração. Naturalmente, não excluímos vir a realizar esta exposição em formato “normal”, físico, como fazemos com as exposições que organizamos regularmente. Mas as circunstâncias que todos estamos a viver levaram ao online e à agilidade que o mesmo formato também permite. No dia seguinte ao lançamento da exposição, recebemos o primeiro feedback de Macau, de Hong Kong e do Brasil, e esse impacto só foi naturalmente possível pelas grandes vantagens que o online também traz.”

       

      Livros na calha

      Instado a comentar se a exposição não daria um bom livro, Francisco Roque de Oliveira não tem dúvidas: “Dará certamente vários bons livros.”

      Ao PONTO FINAL o também geógrafo considera que as fotografias que agora estão à mercê do público, em formato digital, são de grande valor documental, salientando “a imensa qualidade estética” das fotografias de Raquel Soeiro de Brito, “uma ‘fotógrafa de estirpe’, como se lhe referiu um dia o professor António Manuel Hespanha, quando prefaciou uma reedição daquele que talvez seja o mais importante livro de Raquel Soeiro de Brito, intitulado “Goa e as Praças do Norte”.

      Roque de Oliveira revelou ainda ao nosso jornal que, ainda este mês, será lançado um livro que inclui algumas das fotografias de Macau escolhidas para esta exposição, incluído na colecção Cadernos da Fototeca, que começará a ser publicada pela Fototeca do CEG. “Esse livro intitular-se-á ‘Memórias fotográficas: uma entrevista com Raquel Soeiro de Brito’ e trata-se de uma longa entrevista sobre a sua carreira de geógrafa, organizada em torno das fotografias da sua autoria integradas na Fototeca do CEG, cruzando vários espaços, incluindo Macau”, explicou o professor de Geografia, acrescentando que está igualmente pensado “um outro volume da mesma colecção, nesse caso exclusivamente dedicado a Macau e que sistematize o fundo dedicado a este território integrado na Fototeca”.

      E como vê o curador o ‘casamento’ das fotografias captadas pela geógrafa com as fotografias captadas, anos mais tarde, já nos últimos anos de Administração Portuguesa do território? Francisco Roque de Oliveira explica que “a generalidade das imagens das décadas de 80 e 90 oferecem um contraponto muito expressivo em relação a estes espaços e a alguns dos modos de vida ainda presentes em Macau no início da década de 60”. “A paisagem – ou as paisagens – de Macau sofreram uma transformação radical num brevíssimo período de tempo. As fotografias de Raquel Soeiro de Brito de 1961 captam, por assim dizer, o último momento de um tempo longuíssimo – começando pelas imagens das hortas de Macau, da Taipa e de Coloane, que desapareceram pouco depois, ou pelas fabulosas imagens das embarcações à vela de todo o tipo que desapareceriam em poucos anos”, notou o investigador, autor dos textos que acompanham a mostra.

       

      Um acervo excepcional

      O geógrafo Francisco Roque de Oliveira não tem dúvidas que estamos perante um acervo de “valor excepcional”. Concretamente no caso da série de fotografias de Raquel Soeiro de Brito “trata-se da mais extensa série de fotografias sobre Macau que existe no espólio da Fototeca do CEG – mais de 300 imagens, entre fotografias e diapositivos”, e isto no conjunto do acervo da Fototeca – que tem cerca de 50.000 fotografias.

      Sendo uma das poucas séries sobre Macau que o CEG-IGOT-ULisboa possui, para além desse “valor excepcional”, o trabalho da geógrafa alentejana – condecorada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e pela Marinha Portuguesa – “é um conjunto de fotografias com um grande valor didáctico para percebermos como trabalhavam os geógrafos deste período em contexto de trabalho de campo”, defende o curador da exposição. “Há todo um saber fazer de ‘escola’ no critério usado para a definição dos sítios a fotografar, dos enquadramentos tomados e dos temas selecionados, atento à organização espacial da cidade e às principais funções urbanas – residencial, comércio, serviços, etc. -, mas também à relação entre as condições naturais do território e os modos de vida tradicionais, designadamente a pesca e a agricultura”, pontua, considerando Raquel Soeiro de Brito “uma das figuras da Geografia portuguesa do século XX que utilizou a fotografia de forma mais competente e mais sensível”.

       

      Exposição em quatro capítulos

      A exposição está subdividida, e assim podemos dizer, em quatro partes ou secções: Vistas, Ruas e Gente, As Hortas e A Vida Marítima. A parte dedicada às “Vistas” de Macau é o “reflexo quase instintivo dos geógrafos em trabalho de campo, as primeiras imagens de Macau são tomadas a partir dos pontos mais elevados ou correspondem a panorâmicas mais ou menos gerais do Porto Interior e da Praia Grande, auxiliando assim a compreensão do sítio e da situação geográfica da cidade”. Já nas fotos que mostram as “Ruas e Gente” “percebe-se bem como a vida urbana de Macau estava centrada no Bairro do Bazar, prolongando-se pelo Porto Interior, ao longo da larga Rua do Almirante Sérgio, dominada pelo comércio especializado de artigos de pesca, e pela rectilínea Avenida de Almeida Ribeiro, aberta no início do século XX e marcada pelo ritmo das arcadas dos edifícios de modelo oitocentista e pelas actividades comerciais de maior qualidade e prestígio”. As fotografias da secção “As Hortas” revelam como, no início dos anos 1960, existiam pequenas hortas nos terrenos recém-conquistados ao mar na periferia leste de Macau. “Estes aterros cultivados garantiam a subsistência a mais de um milhar de chineses de Macau e também a muitas famílias de refugiados da China Continental”. Por fim, no capítulo “A vida marítima”, Raquel Soeiro de Brito fez uma reportagem exaustiva das distintas tipologias de barcos chineses que ainda sulcavam as águas de Macau no início dos anos de 1960. Nessa altura, a motorização era ainda muito escassa, sendo sobretudo visível nos pequenos barcos, enquanto a generalidade dos grandes barcos de pesca e de cabotagem continuava a ostentar enormes velas de esteira ou de pano.

      A exposição conta ainda com um vídeo-depoimento de Raquel Soeiro de Brito, de uma montagem multimédia de imagens do filme “Macao” de Josef von Sternberg (e Nicholas Ray), datado de 1952, e ainda uma secção com cartografia antiga relevante de Macau.

      Raquel Soeiro de Brito, de 97 anos, nasceu em Elvas em 1925. Esteve associada aos primeiros anos de actividade do CEG-IGOT-ULisboa, segundo nos revelou Francisco Roque de Oliveira. Licenciou-se em Geografia em 1948 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tem trabalho de relevo realizado nos Açores, tendo sido a primeira cientista a chegar e a escalar os Capelinhos. Para além de Macau, destacou-se ainda no seu trabalho desenvolvido na Índia Portuguesa e em Timor, onde estudou não só o relevo da ilha, como também factores humanos como a ocupação dos solos ou a dispersão da população. Foi bolseira do Instituto de Alta Cultura junto do CEG entre 1948 e 1960 e secretária do próprio CEG entre 1954 e 1960. Foi professora do antigo Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina, onde ingressara em 1960, mas manteve por muitos anos a sua colaboração com o CEG, que estava sediado na Faculdade de Letras de Lisboa. Realizou a sua primeira missão de estudo a Macau em 1961. Em 2021, o realizador Gonçalo Tocha homenageou-a com um ciclo de exposições e projecções das filmagens realizadas aquando da erupção do vulcão dos Capelinhos.