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Segunda-feira, 16 de Maio, 2022
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      Início Opinião Longe da vista

      Longe da vista

      Não é fácil identificar o momento a partir do qual Portugal (o seu Estado, os seus governos) se desinteressaram por Macau. Os sinais desse alheamento já vinham de trás, mas, nas primeiras décadas do século XX, apesar dos futuros que se imaginavam (demasiado irrealistas, como demonstram as obras do porto e a proposta da ligação ferroviária ao continente chinês), tornaram-se constantes (também na então “Metrópole”) as queixas sobre o abandono a que se entregava um território simplesmente longe e pequeno demais.

      Mesmo durante o Estado Novo, quando se cultivava uma exaltada retórica nacionalista que se dilatava pelas “possessões ultramarinas”, os profusos discursos prometendo mundos e fundos esgotavam-se muitas vezes nos seus pontos finais, deles não restando mais do que a sua propaganda – mera simbologia de lapela, uma metafísica de ficar por casa e engrandecer sonhos. Até nas controladas sessões da harmoniosa e circunspecta Assembleia Nacional se pressentia, a cada passo, a exasperação dos apelos para que se zelasse pelo distante pedaço do Oriente. Todavia, com mais ou menos “conversa”, fazia-se por dar a entender que “a questão de Macau” era ponto de honra para o regime. Custasse o que custasse.

      A partir de 1966, as coisas mudaram, mas apenas para que tudo ficasse como dantes. Aproveitando a agitação da Revolução Cultural, procurou-se desmascarar o que, afinal, só ficou ainda mais mistificado. Realinharam-se papéis, inverteram-se posições, mas o teatro de sombras não chegou sequer a ser interrompido. Virava-se a página, mas os discursos, tirando uma ou outra tonalidade, não sofreram alterações profundas.

      Com a democracia portuguesa, surgiu a grande oportunidade de resolver “a questão”. E assim foi. No entanto, até nessa hora final não se fazia mais do que voltar ao princípio e à ideia que tudo orientava: para Portugal, em Macau, o que interessava era a China. E assim passou, oficialmente, a ser, tal como no século XVI, quando mercadores navegavam à procura do grande e misterioso Cataio, império de que ouviam falar e que lhes aguçava a ambição. Macau seria apenas uma porta – um porto – de entrada. Na realidade, nunca passou a ser mais do que isso, mesmo que dessa porta nunca se tenha passado.

      O historiador Charles R. Boxer destaca o relato de um anónimo espanhol dando conta, nos finais do século XVI, de como os produtos europeus disponíveis em Macau eram surpreendentemente baratos. Talvez lembre tempos mais actuais. O vinho, por exemplo, custava quase o mesmo do que em Lisboa. A explicação era simples. Segundo o tal espanhol, citado em “The Christian Century in Japan – 1549-1650” (1967), “os portugueses dizem que só estão interessados em colocar o seu capital na China, pois é no investimento que eles fazem os seus lucros”.

      Tal como insistentemente se propaga desde há algumas décadas, também há séculos Macau era somente uma plataforma. A diferença é que, então, se tratava de uma base através da qual os portugueses (e outros estrangeiros) faziam grandes negócios, comprando em Cantão o que, depois, vendiam no Japão e na Índia. Não se esperava obter lucros a vender o que quer que fosse para um estabelecimento que começou por ser um ajuntamento de umas quantas centenas. Os olhos estavam postos no lado de lá. Foi assim que Macau se fez cidade, que cresceu, declinou e voltou a erguer-se – entregue à sorte das suas ligações ao exterior.

      Mas este percurso sinuoso, marcado sucessivamente por tempos áureos e decadência, encontra paralelo nos planos que para o território se faziam em Lisboa, também eles variando ao sabor das necessidades e de uma realidade por vezes tumultuosa e sempre complexa. Não se passava desta oscilação. Não se assentava. Nem cá, nem lá. Na novilíngua dos empreendedores, também não se aproveitavam as oportunidades. Suspeita-se que nem havia a percepção de quais fossem.

      Teve ressonância para lá do seu tempo, por isso, a observação de um dos deputados que representaram Macau na antiga Assembleia Nacional (1949-1953), António Maria da Silva: “Portugal é das felizes potências que tem uma melhor posição na China, da qual não tem tirado o proveito que poderia”.

      Claro que, em pleno Estado Novo, este deputado sentia a necessidade (ou talvez acreditasse genuinamente) de dizer, logo a seguir, que as coisas estavam bem encaminhadas para, finalmente, mudar para melhor. Ressalvava António Maria da Silva: “a nova linha de navegação ao Oriente é um prenúncio de que a nossa posição comercial na China e no Extremo Oriente vai melhorar, graças ao sábio Governo de Salazar”. Compreendia-se. Tudo se fazia “a bem da Nação”.

      Foi o que se viu. Apesar dos séculos, apesar da História, pouco havia para contar. O que sobra? É o que se vê. O vinho português continua barato.

       

      Hugo Pinto

      Jornalista