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      Início Economia Receitas de jogo de 86,8 mil milhões de patacas não convencem analistas

      Receitas de jogo de 86,8 mil milhões de patacas não convencem analistas

      André Vinagre

       

      O ano de 2021 terminou com uma receita bruta de jogo na ordem dos 86,8 mil milhões de patacas, o que se traduz num aumento de mais de 43% em comparação com o ano anterior. No entanto, ainda ficou longe dos 130 mil milhões de patacas que o Governo estabeleceu como meta. Segundo os economistas ouvidos pelo PONTO FINAL, este resultado era esperado, mas não satisfatório. Para este ano, o Executivo também previu uma receita de jogo de 130 mil milhões de patacas, o que para alguns analistas é um valor alcançável e para outros é demasiado optimista.

       

      As receitas arrecadadas pelos casinos a operar em Macau foram de 86,8 mil milhões de patacas em 2021. Se, por um lado, este valor significa um aumento de 43,7% em relação ao ano de 2020, também fica longe dos 130 mil milhões de patacas estabelecido como meta do Governo para o ano passado.

      Os 86,8 mil milhões de patacas de receitas de jogo foram explicadas pela Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ) como tendo sido fruto do impacto da pandemia e das restrições fronteiriças, que levou a uma quebra no número de visitantes. Recorde-se que, nos primeiros 11 meses de 2021, Macau recebeu menos de sete milhões de visitantes, ou seja, mais 31,5% do que durante o mesmo período de 2020. Ainda assim, muito distante dos números de 2019, quando o território recebeu quase 40 milhões de visitantes.

      A DICJ também indicou que, só no mês de Dezembro, as operadoras de jogo de Macau viram as suas receitas subir 1,8% em comparação com o mesmo mês do ano passado, ao arrecadarem 7,9 mil milhões de patacas.

       

      AUMENTO DE VISITANTES = AUMENTO DE RECEITAS

       

      Para Lawrence Fong, o aumento nas receitas de jogo em Dezembro já “era esperado”, devido ao aumento do número de visitantes. No último dia de 2021, recorde-se, entraram em Macau 42.341 visitantes. De acordo com dados da Direcção dos Serviços de Turismo (DST), a média diária de visitantes na última semana foi de 30.230 e a taxa de ocupação hoteleira foi de 62,8%.

      O professor da Faculdade de Gestão de Empresas da Universidade de Macau (UM) assinalou, no entanto, que os 86 mil milhões de patacas de receitas de jogo ficaram aquém das suas expectativas idealizadas no início do ano. “As razões para não atingir 130 mil milhões devem-se claramente aos casos locais da Covid-19, à preocupação dos turistas com a segurança e às restrições das fronteiras”, aponta Lawrence Fong ao PONTO FINAL.

      Para 2022, o Governo fez um prognóstico idêntico ao que tinha feito para o ano passado: 130 mil milhões de patacas em receitas de jogo. Será alcançável este ano? Para Lawrence Fong, as perspectivas do Governo estão a ser optimistas. O economista antevê receitas de jogo mais conservadoras, entre os 100 e 120 mil milhões de patacas. “O principal factor [para prever uma receita menor] é a diminuição das receitas do jogo VIP”, diz.

      A indústria do jogo em Macau está em mutação desde o final do ano passado. A detenção do magnata do jogo VIP, Alvin Chau, desencadeou uma reacção em cadeia que fez com que os casinos locais se afastassem do grupo Suncity, que Chau liderava, e encerrassem as salas de jogo VIP da empresa. A segunda maior empresa de ‘junkets’ a operar em Macau, a Tak Chun, também encerrou as suas salas VIP nos casinos locais.

       

      É “DIABOLICAMENTE IMPOSSÍVEL” PREVER AS RECEITAS DE 2022

       

      Ben Lee, analista da consultora IGamiX, começa por explicar que “as projecções do Governo devem ser vistas como exercícios orçamentais de receitas e despesas, e, como tal, baseiam-se geralmente em outros factores que não a procura e oferta do mercado, devido às discrepâncias significativas que vimos no passado entre projecções e actualizações”.

      O analista diz que tanto os surtos de Covid-19 tanto a política de zero casos aplicada em Macau e no interior da China são “as causas facilmente identificáveis para a quebra da receita bruta de jogo em 2021”. Para 2022, as previsões são difíceis de serem feitas: “Dado que agora temos de lidar com a variante Ómicron, e ainda a possibilidade de surgirem mais variantes num futuro próximo, seria diabolicamente impossível para qualquer pessoa prever com algum grau de confiança quais as receitas brutas de jogo que podemos esperar em 2022, sobretudo agora que já não teremos o segmento VIP a avançar”.

      Para alavancar as receitas de jogo ao longo do ano, será fundamental estabelecer bolhas de viagem duradouras tanto com o continente chinês como com Hong Kong, aponta Ben Lee, acrescentando que a introdução do renminbi digital poderá também ser um factor positivo.

       

      RECEITAS DE 2021 NÃO SÃO “TOTALMENTE INSATISFATÓRIAS”, SÃO UM “DESAPONTAMENTO RELATIVO”

       

      José Isaac Duarte também vê a receita dos casinos de 86 mil milhões de patacas como estando “em linha com aquilo que foi a tendência do jogo nos últimos meses”. “Está dentro dos valores mais ou menos concebíveis, tendo em conta a tendência recente do jogo”, sublinha. É também “um resultado comparativamente pobre com aquilo que era o hábito e a tradição”.

      “Esperava-se que 2021 fosse um ano claramente de recuperação, isso estava implícito no orçamento que o Governo apresentou no final de 2020, em que as expectativas de receitas do jogo eram substancialmente superiores a estas. Desse ponto de vista, o ano é um desapontamento relativo”, comenta o economista.

      A culpa deste “desapontamento relativo” é dos surtos de Covid-19 em Macau e das “restrições associadas aos incidentes em torno dos ‘junkets’”. “Estes valores indiciam que os jogadores chamados VIP se mantêm mais ou menos por outras paragens. Uma parte das receitas estará cada vez mais dependente do comportamento dos chamados visitantes que vêm para o mercado de massas”, afirma Isaac Duarte ao PONTO FINAL, acrescentando que os resultados do ano passado “não são totalmente insatisfatórios, mas ficam muito aquém daquilo que eram as expectativas de há um ano”.

      Sobre o controlo dos fluxos de capitais por parte do Governo Central, o economista avisa que “tudo o que vise aumentar o controlo sobre os fluxos financeiros para Macau, nomeadamente aqueles que estão ligados ao jogo, tem consequências sobre as receitas”. O economista diz que a rentabilidade dos casinos não está em perigo, mas “terão de se redimensionar e habituar a receitas mais pequenas”.

      Apesar de o Governo voltar a apontar a meta de 130 mil milhões para este ano, Isaac Duarte diz que as previsões “dependem de muitos factores”. “Depende da evolução da Covid, da evolução do pensamento das autoridades sanitárias chinesas acerca das formas de contenção da doença e depende dos serviços que os ‘junkets’ prestarem serem ou não orientados em sentidos mais lúdicos e menos de aposta”, diz, concluindo que os 130 mil milhões de meta “constituem uma expectativa relativamente optimista, com o peso de já vir com um ano de atraso”.

       

      86 MILHÕES “NÃO É SATISFATÓRIO, MAS É RAZOÁVEL”

       

      Por fim, Henry Lei também acredita que foram os surtos de Covid-19 no território e as alterações no sector do jogo que fizeram com que as receitas de jogo não chegassem aos 130 mil milhões de patacas previstas pelo Governo para 2021. “Ainda assim, é um número razoável e esperado, dadas as mudanças no sector dos ‘junkets’”, ressalva. “O número não é satisfatório, mas é razoável”, afirma.

      O professor da Faculdade de Gestão de Empresas da UM diz acreditar que o mercado de massas do jogo pode compensar as perdas do segmento VIP. Henry Lei recorda que o número de visitantes a entrar em Macau ultrapassou os 40 mil a 31 de Dezembro e “uma porção considerável destes visitantes irá para os casinos, para o mercado de massas; isso traz uma receita satisfatória para os casinos”.

      Para 2022, os 130 mil milhões de patacas de meta são “alcançáveis”. “Mas isso depende do desenvolvimento da pandemia de Covid-19 e se a situação melhorar continuamente seremos capazes de ter mais visitantes”, assinala. Para Henry Lei, o eventual fim da política de zero casos em Macau poderia permitir alcançar os objectivos do Governo.

       

      PONTO FINAL