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      InícioCategorias do ParágrafoVírgulaGuimarães Rosa encontra a minha mãe

      Guimarães Rosa encontra a minha mãe

       

      – Dona Alzira, que sua paz lhe porte a feiúra não. Feiúra de malvadez, descarnada de cobra cascavel, incensada pelo demo em caminho de peçonhas, basta. Basta mesmo. Esse mundo é franzido já demais, não precisa de outros capetas ou de outros corvos rasinhos aos céus.

      – Não tenha preocupações. Estou acostumadíssima à invernia. Ainda o mês de Janeiro não pensou em chegar àquele cabeço lá além e já eu estou fartinha de o sentir nas artroses. Ao pé disso, não acredito que haja cobras ou diabos capazes de me moer a paciência. Mesmo o diabo, esse desgraçado, até era muito bem capaz de dar um certo jeito, porque às vezes a lenha arde mal. Quando os chamiços de azinho vêm molhados pela humidade, é um caso sério para os fazer arder, não há pinhas que deem à conta com esses malvados. Nessas alturas, ter o quente de um hálito do diabo até pode ser de utilidade, faz as vezes do petróleo, que está caro.

      – Deveras. Mas eu me expressava doido era pelo maligno, esse veneno verde, chupado da mandioca-brava. Veneno covarde que envergonha a natureza, aipim infeliz. Ai, dona Alzira, seu senso prático ao sertão se compara mesmo. Também nele se levanta o sol, rodela precisa e preciosa. Também nele se deita quando é hora e justiça. É o chapadão, maior que Deus Pai. Escute essa ignorância, “maior que Deus Pai”, como se, como se. Deus Pai é o chapadão, claro, Deus e Pai é o sertão. Assim é seu senso, dona. Assim, sem fronteira riscada na terra, como pele. Isso mesmo, terra como pele. E pele como terra, de certeza. Essas coisas se trocam sem problema.

      – É capaz. Não sou muito vista com a terra. Mesmo reparando nela todos os dias, pisando-a há tanto ano, parece-me que não sou capaz de chegar a compará-la com a pele. Mas se o senhor Guimarães me afiança que é assim, pode estar certo que não o hei de desdizer. Eu sei bem que a terra lhe fala.

      – Se fala, grita quase com pulmões plenos de fúria. Até enrouquece essa terra para me contar contos. É que nem bicho, me persegue por baixo dos pés, encontra com antecedência rigorosa o lugar onde firmo cada passo e é aí que o espera. Mesmo que corra, maluco de loucura tonta, a terra está sempre lá, amparando cada meio instante. Eta, terra desconformada com a vida imperfeita das pessoas!

      – Aqui, a terra parece outra. Amarela de verde seco, queimada e a queimar. Às vezes, parece disfarçada de aviso sobre aquilo que aí vem.

      – Como assim?

      – O futuro, esganado com fome, crise e mais crise, falta de fartura até em tudo.

      – Ah, compreendo essa incapacidade. Compreendo-a da mesma maneira que um lençol rasgado compreende a agulha a aproximar-se na sua direcção.

      – O senhor Guimarães sabe, mas nem queira lá saber. Aqui, os tempos da facilidade já passaram há uma bela porrada de tempo. Se me bem calha, não eram tempos de facilidade sequer, a gente é que andávamos para aí enganados. E duvido que alguém perdesse tempo a enganar-nos, éramos mesmo a gente que nos deixávamos enganar sozinhos. É a diferença entre tropeçar e passarem-nos uma rasteira. Em qualquer dos dois casos, a ponta do pé entropica nalguma coisa levantada e, também em qualquer dos dois casos, a falta de atenção pertence a quem se dispõe ao caminho. Hoje, de cada vez que penso nisso, até me chega a parecer que a gente devia andar cegos. Parecia que tínhamos cegado só durante aquele tempo.

      – Não me estranha esse enganamento. É espécie de nuvem, se desloca no ar dentro de um pouco de invisível opaco. Chega à vista por embromação e a cobre completa de besteira. Ai, tanto estalo de inutilidade grudado nos sentidos da gente. Dona Alzira, minha dona, não me estranha esse equívoco solto que, tantas vezes, captou o silêncio amargo de minha gente, onde me incluo, sou nada de coitado, sou nada de inocente. Esses crimes me pegam da mesma maneira que rebentam o focinho de um cabra lá longe, perdido na malvadez. E, de novo, a malvadez, a desgraceira besta.

      – Pois. Esse amargoso é-me bem conhecido à voz, fica preso naquele bocadinho entre palavras. Mas, outra vez lhe digo, não se apoquente com a maldade. Não é só essa a infelicidade destes dias, a ignorância também gasta a sua parte. Ainda assim, o pior é o mais mau.

      – Guardo um rombo de grata admiração pela sua maneira de ver. É ver verdade intrusa: a benevolência do olhar suga a malícia das coisas. Lava e limpa. Mas é por demais difícil, não basta decidir e fazer, é preciso ser capaz. Conseguir a capacidade.

      – Falta graça àquilo que não é custoso, senhor Guimarães.

      – Não duvido. Essas coisas são como este dia, foge que nem danado. Para onde se levanta? Nem o dia de amanhã é capaz de saber e, para ele, estas dúvidas todas são ontem, muito mais acessíveis por essa causa.

      Ponto Final
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      Redacção do Ponto Final Macau