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      InícioOpiniãoAs matrioskas da vida

      As matrioskas da vida

      Como parte da natureza humana, existe a necessidade de dar nomes, agrupar e classificar tudo o que nos rodeia. Esta tarefa é uma forma de colocar ordem no nosso mundo, ajudando-nos a diferenciar as coisas, a saber identificá-las e reconhecê-las.

       

      Taxonomia

      É por isso que no mundo científico, e principalmente na área da biologia, a taxonomia é muito importante. Conversar sobre taxonomia implica conversar sobre grupos, porque é exactamente isso que a taxonomia permite fazer: agrupar. Esta área científica foca-se na classificação, diferenciação, distinção e organização de grupos de seres vivos. E funciona quase como montar um puzzle. Vão-se encaixando as informações, formando grupos que possuem subgrupos, dentro dos quais existem outros subgrupos, e a cada divisão há cada vez mais semelhanças. Algo em muito idêntico às famosas bonecas russas chamadas de Matrioskas.

      Na biologia, a taxonomia estabelece uma organização hierárquica e sistemática de grupos de organismos vivos que partilham características comuns entre si, permitindo descrever, identificar e classificar esses organismos. Aristóteles foi um filósofo grego (384 A.C. – 322 A.C.) a quem se atribuem as primeiras classificações biológicas. Ele organizava os organismos por ordem de complexidade naquilo a que ele chamava de escala da vida. Bem mais tarde, o físico e botânico sueco Lineu (1707-1778), hoje em dia considerado o pai da taxonomia, desenvolveu uma forma de dar nome às espécies de organismos e estabeleceu um sistema hierárquico de grupos de taxonomia, ambos ainda usados nos nossos dias.

       

      Espécies e categorias hierárquicas

      Embora os organismos tenham variados nomes nas diferentes línguas, o seu nome científico é único para a ciência. Os nomes das espécies seguem um sistema binominal (com dois nomes), escritos em latim, seguindo as regras estabelecidas por Lineu. O primeiro nome é o epíteto genérico e refere-se ao género da espécie, o equivalente ao nosso apelido, sendo a primeira letra deste nome sempre maiúscula. O segundo nome é um epíteto específico, ou seja, refere-se à espécie do organismo, de certa forma equivalente ao nosso primeiro nome individual. Só quando ambos os epítetos são mencionados é que há referencia a uma espécie científica.

      Já relativamente às categorias hierárquicas do sistema implementado por Lineu, encontramos as seguintes: Reino: a maior das categorias, é um conjunto de filos  Filo: um conjunto de classes  Classe: um conjunto de ordens  Ordem: um conjunto de famílias  Família: um conjunto de géneros  Género: um conjunto de espécies  Espécie: que, de forma muito geral, representa um grupo de organismos capazes de se reproduzirem e originar descendentes férteis. Actualmente, existe uma categoria superior ao reino, o Domínio que agrupa todos os reinos.

      A título de exemplo, nós pertencemos ao Domíno dos Eukarya (seres eucariotas), e ao Reino dos Animais. Nesse Reino pertencemos ao Filo dos Cordados. A nossa Classe é a dos Mamíferos. Estamos na Ordem dos Primatas e na Família Homini. O nosso Género é Homo e a nossa Espécie é Homo sapiens.

      Espécie é o nível de classificação mais baixo. Mas dentro da espécie existem indivíduos diferentes. É por isso que, dependendo do tipo de organismos a que nos estamos a referir, podemos falar de subespécies (no caso dos animais e plantas), de variedades (plantas) e cultivares (plantas cultivadas que apresentam diferentes caraterísticas facilmente observáveis), e estirpes (no caso dos micróbios). Este nível de distinção, chamado de classificação infra-específica, permite distinguir mais indivíduos dentro da elevada biodiversidade, e identificar organismos que podem ser mais úteis em termos económicos ou que podem causar maior impacto a nível clínico.

       

      Como se estuda e qual é a relevância?

      Embora a taxonomia seja de grande utilidade, e nos permita distinguir e dar nome, por exemplo a novas variantes do vírus COVID, obter resultados em trabalhos de taxonomia pode ser muito complexo e demorado. Claro que hoje em dia, existem tecnologias que permitem uma análise bem mais detalhada, quer na microscopia quer na biologia molecular. As últimas, permitem analisar directamente o material genético dos organismos facilitando este trabalho. Mas muitas vezes, isso não chega para distinguir organismos. Por exemplo, os seres humanos têm entre si uma semelhança genética de 99,9%. No entanto, se compararmos a semelhança genética entre o ser humano e um cão, encontramos um valor de 94%. Curiosamente, em relação aos gatos, estes são ligeiramente menos semelhantes (em termos genéticos) connosco, apresentando uma semelhança de 90%. Apesar da elevada semelhança genética, estamos a falar de três seres que facilmente somos capazes de distinguir como diferentes.

      Ao analisarmos estes valores, convém termos em conta que, ser geneticamente semelhante a um organismo, não significa partilhar o mesmo DNA. Isto porque, os genes (parte do DNA responsável pela produção de proteínas responsáveis por muitas funções biológicas) correspondem a apenas cerca de 2% do nosso DNA. O restante genoma é composto por DNA chamado pelos cientistas de não-codificante.

      Mas se pensarmos em termos microbiológicos, em que muitos microorganismos nos parecem idênticos, distingui-los por grupos pode ser ainda mais complexo. Distinguir espécies envolve muitas vezes uma abordagem complexa e multi-facetada em que são usadas várias metodologias (por exemplo: estudos morfológicos, fisiológicos, genéticos, comportamentais, ecológicos, e até geográficos). Dentro de cada espécie, existem estirpes que podem apresentar um reduzido número de diferenças, mas que são suficientes para separá-las num novo subgrupo.

      A cada nova descoberta e a cada novo desenvolvimento tecnológico, vão aparecendo novas propostas de taxonomia e ainda mais subgrupos dentro dos mencionados aqui. E são todos estes novos dados científicos e taxonómicos que nos permitem comparar melhor os diferentes organismos, detectar novas doenças e infecções, encontrar potenciais tratamentos, entender comportamentos, e de forma geral: encontrar novas soluções para melhorar a qualidade da nossa vida e de todos os outros organismos. Este é um tópico que enche muitas bibliotecas e que terá sempre muito mais por contar.

       

      Marta Filipa Simões
      Cientista