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      Rota das Letras: Dez anos de encontros literários sino-lusófonos

      “A Rota das Letras, que agora se abre a escritores e gentes de muitas outras artes, é um tributo ao papel que Macau sempre desempenhou na aproximação dos povos e das suas culturas – autêntico código genético contido na sua identidade secular – e também o reconhecimento de que o reforço das relações entre a China e o mundo Lusófono, politicamente assumido como prioritário, perderá em significado e dinâmica se não souber libertar-se de lógicas meramente económicas e mercantis”. Foi assim que, em Janeiro de 2012, o Festival Literário foi apresentado pelo seu director, Ricardo Pinto.

      O Festival vai agora para a sua décima edição e continua a procurar aproximar as culturas chinesa e lusófona. Yao Jingming, que assume as funções de sub-director do Rota das Letras desde a segunda edição do festival, explica que a iniciativa “é muito importante para a cultura de Macau, uma vez que é um evento realizado por portugueses e chineses que trabalham de mãos dadas”. Algo pouco visto em Macau, assume: “Poucas coisas eram feitas com conjunto por portugueses e chineses. Falamos muito de intercâmbio cultural em Macau, mas de facto esse intercâmbio é muito superficial”.

      O Rota das Letras serve, então, para pôr em prática a etiqueta que Macau tem, de plataforma entre a China e os países de língua portuguesa. “Este evento atravessa um bocado essa fronteira que existe entre a comunidade chinesa e a portuguesa”, diz o poeta, que frisa: “Macau nunca teve um evento literário tão internacional. É um evento com uma visão muito aberta”.

      Yao Jingming assume que a comunidade chinesa começou desconfiada com o evento e manteve a distância. No entanto, isso parece estar a mudar devido ao esforço por parte da organização, assinala o director do Departamento de Português da Universidade de Macau. Para ele, a “promoção da imagem de Macau lá fora” e a “interacção entre as comunidades chinesa e portuguesa” têm sido as duas principais valências da iniciativa.

       

      UM EVENTO QUE COMBINA COM MACAU

      Alice Kok assumiu as funções de directora executiva do Rota das Letras em 2019 e também ela destaca a natureza de ponte entre a literatura chinesa e lusófona. Mas mais do que isso, tem também uma componente interdisciplinar: “Artisticamente, é muito interessante, porque o festival literário não é apenas sobre livros. É também sobre teatro, música, artes visuais. Em nome da literatura, todas estas artes podem ser combinadas e fazer um intercâmbio”.

      Na opinião da directora executiva do evento, este é “um evento cultural muito representativo”, que faz ‘pendant’ com Macau. “Macau tem esta genética de ser uma ponte entre os falantes de chinês e os países de língua portuguesa. Além disso, temos também uma janela para escritores internacionais. Acho que Macau ter um festival internacional literário é muito adequado”, comenta.

      Já Hélder Beja foi co-fundador do festival e manteve-se como director de programação até 2018, edição que ficou marcada pelo facto de a organização ter sido avisada oficiosamente de que a presença de três dos convidados não seria oportuna em Macau. A organização acabou cancelar a vinda de Suki Kim, Jung Chang e James Church ao território. “Foi uma intervenção clara na política do festival”, comenta Hélder Beja, justificando a decisão de abandonar o cargo.

      Ainda assim, o jornalista assinala que “o papel do festival permanece importante hoje”. Até porque, diz Beja, “não há outro festival com um ADN tão especial”. A confluência do português, com o chinês e também com o inglês é a “ideia basilar” do festival.

      Outro dos aspectos que, segundo o co-fundador, fez do Rota das Letras um “festival especial” foi a publicação de colectâneas de contos e poesia, por exemplo. “Durante vários anos conseguimos publicar colectâneas que fizeram com que muitos autores, que provavelmente não escreveriam uma linha sobre Macau, produzissem alguns textos bem interessantes sobre o território”, diz.

      Hélder Beja destaca a edição de 2012, a primeira: “Eu destacaria o primeiro ano por ter sido o ano dos amadores. Nós amávamos aquela ideia mas não sabíamos como concretizá-la. Apesar de todos os problemas com que tivemos de lidar, creio que foi uma edição muito especial”. Estiveram em Macau, nesse ano, Rui Cardoso Martins, Tatiana Salem Levy e José Luís Peixoto, por exemplo. “Foi um ano verde, mas que, apesar de tudo, foi a semente certa que tivemos de plantar”, sublinha, concluindo: “Tenho saudades desse festival dos primeiros anos, que já foi e não voltará. O tempo não cura tudo mas apazigua a gente. Tento guardar cá dentro o melhor que o festival deu a Macau e aos que o fizemos acontecer”.

       

      MAIS DE 30 SESSÕES NA PRIMEIRA EDIÇÃO

      Precisamente na primeira edição, o Rota das Letras contou com mais de 30 sessões, entre painéis de discussão, projecções de filmes, concertos e exposições. O festival, que se realizou entre 29 de Janeiro e 4 de Fevereiro de 2012, trouxe desde logo romancistas, poetas, jornalistas, cineastas, músicos e artistas plásticos chineses, portugueses, brasileiros, angolanos, cabo-verdianos e moçambicanos, de diferentes gerações e correntes artísticas.

      José Rodrigues dos Santos que, em 2012, tinha acabado de lançar “O Último Segredo”, foi um dos convidados. Jade Y. Cheng, romancista, jornalista, encenadora e dramaturga de Taiwan, também passou por Macau, tal como os brasileiros João Paulo Cuenca e Tatiana Salem Levy. Marvin Farkas, Rui Cardoso Martins, Xu Xi e José Luís Peixoto, por exemplo, também marcaram presença. Por outro lado, José Rentes de Carvalho esteve confirmado mas acabou por não poder vir a Macau. O mesmo aconteceu com Luís Fernando Veríssimo e Alice Vieira.

      Na altura, em entrevista ao PONTO FINAL, José Luís Peixoto comentou que a vinda a Macau servia para conhecer melhor o território: “A impressão que tenho é que realmente essa história que partilhamos com Macau é muitíssimo importante, para nós e para Macau. Devemos esforçar-nos para que essa consciência exista, na medida em que se trata de um encontro entre duas civilizações que, mesmo numa era de globalização, ainda têm muitíssimos mal entendidos”. O vencedor do Prémio Saramago de 2001 disse ainda esperar que a iniciativa aumentasse o interesse para que se escreva sobre Macau, “para que também em Portugal conheçamos um pouco melhor este lugar que faz parte do imaginário de tanta gente, mas que muitas vezes não se concretiza completamente”.

      A fadista Aldina Duarte e noiserv, por exemplo, também actuaram em Macau no âmbito do festival. Além disso, foram exibidas obras de artistas como André Carrilho, Alice Kok, Carlos Marreiros e Lai Sio Kit, entre outros.

      No encerramento da primeira edição, Hélder Beja proferiu um discurso que apontava para o futuro: “A literatura é uma opção, deve ser uma opção. Milhões de pessoas viveram sem literatura ao longo de séculos e milhões de pessoas continuam e continuarão a fazê-lo. Umas porque não lhe têm acesso, outras porque escolhem. E é esse poder de escolha que interessa. Se a Rota das Letras conseguir mostrar a uma mão cheia de pessoas por ano que em Macau essa opção existe, se conseguir mostrar a uma pessoa por ano que essa opção existe, então a Rota das Letras já fará sentido”.

       

      OS ANOS DA CONSOLIDAÇÃO

      A segunda edição do festival chegou a 10 de Março de 2013, tendo-se estabelecido durante dez dias no Teatro D. Pedro V. À semelhança da primeira edição, contou com a presença de autores, cineastas, músicos e artistas plásticos. Nesta edição, estiveram presentes mais de 30 autores. Bi Feiyu, vencedor do Asian Man Booker Prize, e Hong Ying, autora chinesa reconhecida internacionalmente, estiveram presentes, tal como Han Shaogong, Yi Sha, Dulce Maria Cardoso, Valter Hugo Mãe, Rui Zink, Ricardo Araújo Pereira e José Eduardo Agualusa, por exemplo. Os cineastas João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata também estiveram em Macau nesse ano. Os convidados musicais foram Camané e Dead Combo.

      Afonso Cruz, Bei Dao, António Graça de Abreu, Andréa del Fuego, João Paulo Borges Coelho e Clara Ferreira Alves estiveram em Macau entre os dias 20 e 30 de Março de 2014 para a terceira edição do Rota das Letras. Cat Power, Arnaldo Antunes e os Omnipotent Youth Society actuaram na Arena do Cotai. A edição de 2014 ficou também marcada pela presença do poeta Hu Xudong, que morreu recentemente, aos 47 anos.

      À quarta edição, o festival muda-se para o edifício do Antigo Tribunal. Por ali, entre 19 e 29 de Março de 2015, passaram nomes como Ondjaki, Ann Hui, Francisco José Viegas e João Tordo. Como o festival não se faz só de livros, em 2015, o ‘rapper’ Gabriel, o Pensador encheu a Arena do Cotai, na companhia dos LMF, de Hong Kong, e dos Blademark, banda local. Já o Maestro Vitorino D’Almeida brindou o público com um concerto ao piano de improviso.

      Em 2016, o Rota das Letras quis homenagear o poeta Camilo Pessanha e Tang Xianzu, dramaturgo chinês do século XVI. O festival trouxe nesse ano dois cineastas portugueses: Luís Filipe Rocha, que adaptou o livro de Henrique de Senna Fernandes, “Amor e Dedinhos de Pé” ao cinema, e a documentarista Sofia Marques. Os cineastas locais Tracy Choi, Emily Chan e Cheong Kin Man também apresentaram produções de sua autoria. José Pacheco Pereira, Pedro Mexia, Ricardo Adolfo, Paulo José Miranda, Matilde Campilho foram alguns dos autores portugueses em destaque. Os autores brasileiros Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Carol Rodrigues e Felipe Munhoz também estiveram em Macau, bem como o guineense Ernesto Dabó.

      O vencedor do prémio Pullitzer de 2013, com “The Orphan Master’s Son”, Adam Johnson, também esteve em Macau para falar sobre o regime norte-coreano e disse ter curiosidade pela China. “Mas deixaria esse tema para os escritores chineses no exílio: em Hong Kong, em Macau ou em outros lugares, que têm a experiência, o conhecimento cultural que eu não tenho, deixaria para escritores que conhecem bem melhor o tema do que eu antes de tentar fazer qualquer coisa”, indicou numa entrevista.

      Na altura, Pedro Mexia mostrou-se surpreendido com o território: “Não imaginava que houvesse tantas ruas, tantas placas em português, os destinos dos autocarros e tudo isso. Ao mesmo, tempo também não esperava que houvesse tanta arquitectura colonial, ao que me parece a olho nu, desse período. Surpreendeu-me também o facto de a comunidade portuguesa – e eu já tinha alguma noção disso – ter uma vitalidade tão grande em termos, por exemplo, de jornais, a existência da Livraria, a existência do Festival, naturalmente”. Em entrevista ao PONTO FINAL, na altura, Mexia constatou que o Rota das Letras decorria da “pro-actividade e interesse por não deixar totalmente que desapareça o rasto da cultura portuguesa em Macau”.

      O Rota das Letras continuou em 2017, tendo incluído o escritor chinês premiado internacionalmente Yu Hua, a escritora canadiana selecionada para o Prémio Manhattan 2016, Madeleine Thien, o vencedor do prémio da Scottish Book Trust Foundation, Graeme Macrae Burnet, e o autor e académico australiano nascido em Hong Kong com raízes portuguesa, Brian Castro. José Manuel Simões, Inocência Mata e Lu Aolei foram alguns dos autores locais presentes. Sérgio Godinho e o cantor taiwanês Xu Jingchun foram as actuações musicais.

      Sérgio Godinho comentou a sua passagem por Macau, em 2017, afirmando: “Dá-me uma grande alegria porque se começa a cimentar cada vez mais a minha relação com esta comunidade, com esta terra”. Já numa entrevista ao jornal Macau Daily Times, Brian Castro referiu-se a Macau como “um enclave do passado” e disse esperar que se valorize “a velha Macau”.

      A sétima edição deveria ter tido como principal foco a Coreia do Norte. A organização tinha convidado Suki Kim, autora que passou seis meses infiltrada na Coreia do Norte, mas teve de retirar o convite. O mesmo aconteceu com James Church, ex-agente da CIA e escritor de romances policiais, e Jung Chang, escritora chinesa proibida de entrar no país. Nesse ano, estiveram presentes Julián Fuks, Ana Margarida de Carvalho, Han Dong, A Yi, Maria Inês Almeida e Bao Dongni. Também em destaque esteve Rui Tavares, historiador português. De Moçambique chegou Ungulani Ba Ka Khosa e de Hong Kong veio Chan Hou Kei.

      A edição de 2019, que levou o Rota das Letras para as Oficinas Navais, foi focada em Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Adé dos Santos Ferreira, Walt Whitman e Herman Melville. O Rota das Letras preparou uma homenagem a Sophia e convidou o filho da escritora, Miguel Sousa Tavares, para falar sobre a obra da mãe. A associação cultural D’As Entranhas preparou uma dramaturgia baseada nos seus poemas. Já Adélia Carvalho, autora de livros para crianças, apresentou uma biografia de Sophia. Jorge de sena, que faria em 2019 100 anos, foi homenageado por Frederick G. Williams. Para celebrar Melville, o Rota das Letras exibiu “Melville in Love: Uma biografia do autor de Moby Dick”, de 2018, realizada por Seth Newton e escrita por Michael Shelden. Já os 200 anos de Walt Whitman foram assinalados através do documentário “Whitman, Alabama”, de Jennifer Crandall.

      Na edição de 2019, José Luís Peixoto voltou a Macau para apresentar, ao lado de Jidi Majia, a tradução de ”Palavras de Fogo”. Nesta edição, a organização também quis homenagear o poeta macaense Adé dos Santos Ferreira com uma récita em patuá. Além disso, Raul Leal Gaião aproveitou para lançar um dicionário de patuá. Pedro Lamares, Eduardo Pacheco, Hirondina Joshua, José Luís Tavares também participaram nesta edição. O vencedor de 2017 do Festival da Eurovisão da Canção, Salvador Sobral, actuou no Broadway Theatre a 17 de Março, no âmbito do Rota das Letras.

      Antes do festival de 2019, Jidi Majia foi entrevistado pelo Parágrafo e falou sobre a importância do Rota das Letras: “Espero que possa ser uma plataforma sem barreiras a permitir a comunicação entre todos os escritores e poetas, no sentido de abrir um espaço mais amplo para a liberdade de espírito. Acredito que isso pode ser alcançado através do esforço da organização”.

       

      VERSÃO CONDENSADA DEVIDO À PANDEMIA

      Chegados a 2020, o Rota das Letras também sofreu o impacto da pandemia e, por isso, teve de ser redimensionado para um formato mais curto, no fim-de-semana entre 2 e 4 de Outubro. A nona edição foi preenchida maioritariamente por sessões com autores locais. Eric Chau, Wang Feng, Jenny Lao-Phillips e Konstantin Bessmertny falaram sobre os desafios do confinamento para os artistas.

      Nesta edição, Camilo Pessanha voltou a ser protagonista, com uma homenagem pelos 100 anos de Clepsydra através de um recital de poemas dirigido pelo Maestro Simão Barreto. O festival encerrou com uma homenagem a Henrique de Senna Fernandes, assinalando o 10.º aniversário da morte do autor de Macau. Miguel de Senna Fernandes, seu filho, lançou também o seu primeiro livro de contos, “Crónicas à Sexta – Estórias e Ironias do Comum dos Dias”.

      “Devemos insistir em ter um festival trilíngue, não só em chinês, mas também em inglês e português. Penso que isto é algo para continuar, porque sem línguas não temos acesso ao pensamento de outras culturas pois as barreiras entre povos começam pela diferença nas línguas. Se não souber português terei dificuldades em conhecer o espírito e o pensamento do povo. Assim, o festival está a fazer uma ponte e a traduzir todas estas diferenças, e penso que isto é o mais importante. Neste festival, as línguas são o veículo pois sem elas nenhuma mensagem poderia ser enviada”, sublinhou Alice Kok no final da edição do ano passado.

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