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      Espectáculo  “Por Confirmar” deixa interpretação à consideração do público

      O grupo artístico local “Step Out” vai apresentar um espectáculo inserido no programa desta edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras, chamado “Por Confirmar”. Realizam-se seis sessões no terraço da Residência Oficial do Cônsul-Geral. A primeira aconteceu ontem e a última decorrerá amanhã.

      “Por Confirmar” é o nome do espetáculo de teatro físico, sem falas, e que se caracteriza pela linguagem corporal, criado pelo grupo artístico local “Step Out”. Em resposta ao convite à edição deste ano do Festival Literário de Macau – Rota das Letras, o grupo vai reformular-se e estrear o espetáculo no terraço da Residência Oficial do Cônsul-Geral, em seis sessões, durante o período compreendido entre 2 e 4 de Dezembro, às 17h30 e às 18h.

      O dramaturgo Mok Sio Chong revela ao PONTO FINAL que a primeira apresentação desta peça de teatro experimental, foi em 2020, no Espaço das Artes da Biblioteca Teatro de Macau, no âmbito do Festival de Teatro Pequeno “Book Plays”. O evento tem o objectivo de transformar a experiência de ler num espetáculo de teatro e dar corpo a obras literárias em cima do palco. O consultor literário aponta: “Desta vez, graças ao convite do Festival Literário de Macau, pretendemos explorar a nova interacção e química aquando da apresentação em outro cenário, portanto, optámos pela Residência Oficial do Cônsul-Geral, como um novo recinto de teatro. Redesenhámos as roupas e músicas, e também ajustámos os movimentos, para que se adeque ao novo ambiente”. “Neste Festival Literário, ‘Step Out’ vai apresentar o espetáculo no terraço da residência oficial do Cônsul-Geral. Olhando de lá, há flores, árvores, fontanários abandonados e prédios, e sentia que fazia parte da paisagem, como o lema do meu contador de história preferido de Hong Kong, Uncle Hung, – ‘Onde há vento, há história’”, refere Lou Chong Neng, a criadora do espectáculo.

      Ao ser questionado sobre a denominação do espetáculo, Mok explicou: “Na fase inicial da nossa criação, não queremos partir de um tema fixo, queremos procurar os sentimentos provocados ao longo do processo de criação, e deixar os próprios espectadores imaginarem e interpretarem esses sentimentos. Ao invés de passarmos uma mensagem explícita ao público, preferimos que os espectadores, através das suas experiências de vida, tenham interpretações diferentes, encontrem as suas próprias histórias e sentimentos. Por este motivo, resolvemos deixar o título para os espectadores decidirem”.

      No que toca a esta performance a solo, numa forma em que a palavra está ausente. Lou afirma que se inspirou num álbum ilustrado polaco do Nobel da Literatura, intitulado “Zgubiona Dusza” (A Alma Perdida), com texto de Olga Tokarczuk e ilustrações de Joanna Concejo. A dançarina contextualizou: “Como a nossa oficina fica no andar de cima da Livraria Pin-to Livros, todos os dias nos cruzamos com pilhas de livros. Um dia, por acaso fui atraída pela capa de uma obra intitulada ‘A Alma Perdida’, parei e abri o livro, estava fascinada pelas suas ilustrações, uma das imagens capturou a minha atenção, foi uma ilustração de uma janela que mostra uma sombra humana lá dentro. Acho que é bonito, por outro lodo, senti-me isolada, mas também familiar. Gostei bastante e decidi comprar o livro. Quando cheguei a casa, transcrevi todos os textos para um papel, para os meus sentimentos fermentarem no fundo do meu coração, permitindo-me perscrutar a experiência que o livro me trouxe”.

      A dançarina acredita que os tempos de silêncio são orações poderosas, as mãos e o corpo físico são a protagonista do espetáculo. Num espaço multifacetado para representação, com uma mão que perdeu a luva, cinco malas de vime, e uma paisagem em constante movimento, através do monólogo calado da actriz, desdobra-se a relação entre as mãos e malas. A intérprete de teatro abra as malas, uma por uma, explorando os objectos que estão dentro, cada mala poderá representar uma nova viagem, um novo cenário, ou um novo capítulo da vida.

      Lou admite que não dotou os objectos envolvidos de significado simbólico específico, a fim de não limitar a imaginação dos espectadores. A criadora frisa: “Esta obra fala sobre uma pessoa ocupada, perdeu a sua alma, e como ela procura a sua alma. Escolhi inserir os elementos comuns da vida quotidiana: Cinco malas poderão representar cinco épocas, ou cinco eventos independentes. As malas de vime são tecidas pelas mãos. Gosto de artesanato e tecelagem, o acto de tecer é um trabalho repetitivo que me permite temporariamente isolar da vida agitada. Tricotei um lenço bem comprido e coloquei-o na última mala, o público pode ter sua própria interpretação”. Mok acrescenta: “A obra própria enfatiza um tipo de experiência lenta. O processo de tecelagem é lento, cria um espaço para a conversa consigo mesmo. Como o título do livro ilustrado, ‘a alma perdida’ precisa de paciência para apanhar o que ficou para trás”.

      Embora as artistas tenham recriado a música, não adoptam qualquer equipamento de som em grande escala. O dramaturgo assinala: “Esperamos que o público possa ficar isolado num espaço privado nesta cidade movimentada, por isso, à entrada, distribuiremos fones de ouvido aos espectadores para ouvirem a música, com o intuito de criar um espaço mais privado”. A dançarina destaca: “A pandemia do ano passado fez as pessoas alienarem-se, sinto que no processo de alienação, encontrámos margem para pensar. Estou convencida de que cada pessoa é diferente. Sentar-se tranquilamente num espaço aconchegante, isolado uns dos outros, pode fazer com que o público desenvolva as suas próprias emoções ou pensamento”.

      Lou Chong Neng confessa que o próprio espetáculo também lhe trouxe alguma experiência e reflexão: “Em virtude da pandemia, a nossa encenadora Hsueh Mei-hua continua em Taiwan e não pode vir a Macau para orientar o espetáculo, portanto, só podemos realizar a comunicação à distância – mandamos daqui as gravações de vídeo dos ensaios para lá, ficamos à espera do feedback da encenadora. E entre esta ida e volta, demora tempo, também me deixa um espaço para auto-reflexão. Esperar é um processo intrigante, e isto encaixa-se mesmo no nome desta obra – tudo está indeterminado. Trago este sentimento ao espetáculo também, sendo um estado flexível, sem elementos consertados”.

      Questionado sobre se o grupo artístico tem planos futuros, Mok Sio Chong revela: “No próximo ano, continuaremos a dedicar-nos à promoção de arte e alguns teatros serão apresentados em digressão para alunos do jardim de infância ou da escola primária. Aliás, continuaremos a organizar o Festival de Teatro Pequeno ‘Book Plays’ – planeamos criar duas obras temáticas femininas, adaptadas de duas peças literárias, abordando o dilema contemporânea de mulheres. E o mais importante é continuar a explorar mais possibilidades no domínio das artes performativas”.