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      Início Categorias do Parágrafo Crítica O PASSADO ESTÁ QUASE A CHEGAR

      O PASSADO ESTÁ QUASE A CHEGAR

      Cultura – Crítica literária

      Sara Figueiredo Costa

       

      Chico Buarque
      Anos de Chumbo
      Companhia das Letras

      O percurso literário de Chico Buarque é extenso, contendo romances, novelas e peças de teatro. No formato do conto, no entanto, Anos de Chumbo seria uma estreia, não fosse aquele conto sobre o mítico Ulisses, publicado em 1966 no suplemento literário do jornal Estado de S. Paulo, a fazer recuar tantos anos a primeira experiência no género. Depois dessa primeira partilha pública da sua escrita, vieram outros textos: um livro para os mais novos, em homenagem à sua filha Luísa, uma novela, peças como Roda Viva, Gota d’Água (com Paulo Santos) ou Ópera do Malandro, um poema ilustrado por pelo artista plástico Vallandro Keating e intitulado A Bordo do Rui Barbosa. Quando chegaram os romances, com Estorvo a marcar o início, em 1991, alguma imprensa destacou a estreia do compositor na literatura, mas a verdade é que a sua estreia literária aconteceu no mesmo ano em que gravou o primeiro disco – e não será exagero dizer que depois desse disco, Chico Buarque de Hollanda, a música brasileira deu uma volta profunda e felizmente irremediável. Não que isso seja relevante para a leitura que possamos fazer daquilo que escreve, mas sê-lo-á para deixarmos de falar do músico que volta e meia se dedica à escrita, antes mergulhando sem tantas protecções numa obra literária extensa, madura e com recursos linguísticos e de criação narrativa que se renovam a cada nova incursão.

      O conto, então, volta ao laboratório de Chico Buarque, desta vez num livro completo. Anos de Chumbo reúne oito narrativas, umas mais breves do que outras, e o título da colecção – retirado do último dos contos – vai desdobrando as suas múltiplas camadas em cada prosa. Na primeira, «Meu tio», remete para os anos da juventude de uma rapariga que os próprios pais prostituem, oferecendo-a, literalmente, ao tio rico e com poucos modos e nenhuns escrúpulos. E logo aí se revela a plasticidade desta escrita breve, capaz de definir um quadro tão tenebroso sem uma única expressão de julgamento e recorrendo unicamente à descrição e ao avanço narrativo claro e sem artifícios.

      Seguem-se «O passaporte», uma paródia sobre um cantor já envelhecido, as suas paranóias persecutórias e uma vingança executada com requinte e condenada ao falhanço, e «Os primos de Campos», abordando o problema da violência policial como cenário para uma reflexão mais profunda, esta sobre as origens, a paternidade escondida, as heranças não declaradas, mas ainda assim notórias. Quando se chega a «Cida», a mulher em situação de sem-abrigo e o narrador que a acompanha na sua miséria e nas alucinações que a amparam, ao longo de vários anos, é já claro que o que une esta prosa é esse olhar para as as fundações, o processo de crescimento, o peso que as coisas parecem não ter no passado a revelar-se mastodôntico num futuro que não podemos adivinhar.

      Em «Para Clarice Lispector, com candura», desdobra-se uma obsessão. Um jovem universitário com aspirações a poeta tem a sorte de conhecer a escritora que tanto admira. Depois dos inevitáveis poemas enviados para apreciação, há cafezinho partilhado no apartamento da autora, telefonemas, algumas conversas. Os poemas nunca são referidos, aumentando a ansiedade a fazendo da ilusão um tremendo poço sem fundo. O jogo está na transformação do protagonista em personagem secundário, quando se percebe que Clarice está a acabar de escrever Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres e o jovem aspirante acaba por ser parte do que na trama desse romance é desejo nunca concretizado. Clarice segue, depois de concluída a obra, e o jovem segue também, mas talvez já não tenha como sair da trama. Esse privilégio de escapar há-de ser dado ao protagonista de «Anos de Chumbo», com essa remissão dupla e bem sucedida para o universo dos bonecos-soldadinhos e para o tempo da ditadura militar.

      Os sinais de um presente recente surgem, discretos, em «O Sítio», quando um homem pouco dado a compromissos e a sua muito recente namorada alugam uma casa no campo, isolada, e por lá ficam sem saberem se o mundo já retomou a normalidade. Reconhecem-se os tempos pandémicos, porque é no presente que lemos, mas a referência não é linear e talvez mantenha os seus outros sentidos quando já não nos lembrarmos de máscaras e confinamentos. Não é o isolamento que estrutura «O Sítio», e sim uma bem urdida teia de ignorância, palavras nunca proferidas e uma espécie de destino ameaçador e cíclico que fará do narrador uma personagem futura em histórias possíveis sobre o mesmo lugar. De certo modo, os mesmos elementos que atravessam o livro nessa ideia ampla e fundadora sobre o passado e a sua insuportável característica de não existir, acabando por se fundir num eterno presente.

      O outro elemento que une estas narrativas é a fruição. Parece que o autor se diverte usando os contos como espaços contidos de experimentação, testando personagens, cenários, ritmos e cronologias nem sempre lineares. Não é a prosa que se torna divertida – há, aliás, contos de uma dureza emocional extrema –, é o modo como ela se constrói que revela o prazer de a construir e de lhe baralhar os caminhos previstos. Em «Copacabana», esse prazer emerge na leitura de um modo inequívoco, à medida que o narrador vai contando o seu passeio pelo bairro carioca na companhia de um Pablo Neruda destinado a perder-se, o medo das satisfações que terá de dar a Jorge Luís Borges ou o avistamento deslumbrado de Ava Gardner, entre outras figuras míticas do século XX. A cada passo, a voz que narra assume não conhecer e nunca ter visto nenhuma dessas pessoas, mas sempre que retoma a história não há outra saída que não a rendição, o aceitar o pacto ficcional que assume como verdadeiros todos os delírios juvenis do rapaz que conta a história. Pelo menos, para descobrirmos se o jovem tem a sorte de subir para o quarto com Romy Schneider ou se acabará tão congelado como Walt Disney, à espera que o futuro lhe traga a cura, a benção ou, pelo menos, a redenção. Como nos restantes contos deste livro, finge-se uma leveza que o passado, sobretudo o juvenil, talvez não tenha, encenando cada vez melhor o medo que fingimos não ter do futuro.

       

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      Redacção do Ponto Final Macau