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      Macau, na escrita de Ishiguro Prémio Nobel da Literatura

      Kazuo Ishiguro escreveu a letra, Jim Tomlinson compôs a música, Stacey Kent emprestou-lhe a voz. Tango em Macau, assim se chama o tema, vai agora ser apresentado no Festival Rota das Letras.

      O ano era 2002. Kazuo Ishiguro, escritor britânico nascido em Nagasaqui no pós-guerra, estava a ser entrevistado num canal de rádio da BBC e Stacey Kent ouvia-o em casa, atentamente. Ishiguro tinha ganho anos antes o Prémio Booker com o romance Os Despojos do Dia, e era já dos escritores que Stacey mais admirava. O programa que escutava era ‘Desert Island Discs’, também um dos seus preferidos. Como outros convidados antes dele – escritores, actores, atletas, políticos e outras celebridades –, Ishiguro estava em estúdio para dizer que discos levaria para uma ilha deserta se lá tivesse de ficar para sempre.

      Depois de citar nomes como Leonard Cohen ou Bob Dylan, Ishiguro explicou que não conseguiria passar sem a música popular americana pré-rock & roll, e que o seu disco favorito neste género musical era uma versão do tema “They Can’t Take That Away From Me”, de George Gershwin, gravada por Stacey Kent num álbum de homenagem a Fred Astaire.

      “Fiquei sem palavras”, recorda a cantora norte-americana, que à época tinha ainda uma carreira relativamente discreta no mundo da música; os prémios e as nomeações para Grammys viriam depois. “Eu não o conhecia, mas era uma grande fã dele. Há grandes escritores a quem se admira a prosa e as ideias. Depois há os escritores com quem se sente uma relação especial. Escritores de quem se lê umas linhas, uns parágrafos, uns capítulos, e se diz: ‘É exactamente assim que eu vejo o mundo’. Ishiguro era, para mim, um desses autores que expressava coisas que eu sentia, com quem tinha uma sensibilidade partilhada, mesmo não o conhecendo então”.

      Stacey sentiu-se de tal modo maravilhada ao perceber que um disco seu poderia estar pousado na mesa onde Ishiguro escrevia os seus romances, que decidiu escrever-lhe uma carta a agradecer a referência no programa da BBC. A resposta foi quase imediata. Ishiguro viria a confessar mais tarde ter também experimentado uma ligação muito especial ao ouvir Stacey pela primeira vez. “A sua atitude enquanto cantora é muito semelhante à minha enquanto escritor”, justificou. “Quando a ouço cantar, sinto que capta um mesmo sentido de interioridade”.

      A amizade entre ambos começou a crescer logo ali e rapidamente se estendeu à mulher de Ishiguro, Lorna MacDougall, e ao marido de Stacey, Jim Tomlinson. Mas iriam passar ainda mais uns anos até nascer a relação de trabalho que ainda hoje se mantém.

      “Estávamos os quatro a almoçar e a discutir o disco que planeávamos gravar no ano seguinte para a (editora) Blue Note, a falar dos nossos desejos, do tipo de composições, das histórias que queríamos contar, até da música de Joni Mitchell, quando alguém se lembrou de dizer – julgo que foi o Jim – que o Ish (como Kazuo Ishiguro é carinhosamente tratado pelos amigos) deveria escrever uma canção para mim”, relembra a cantora ao PONTO FINAL, sem saber indicar a data com exactidão, 2006 soubemo-lo depois. “E o Ish respondeu: ‘Oh, meu Deus, tens toda a razão! E de repente estávamos já a falar da linguagem das canções que iriamos fazer juntos e dos seus temas. Foi uma mudança no rumo dos acontecimentos muito intensa”.

      Havia agora que passar das palavras aos actos. Das palavras à música.

      “Decidimos que o Ish deveria escrever sem estar preso a estruturas musicais, muito menos às habituais estruturas standard do jazz, para então o Jim compor a música a partir daí”, conta Stacey, antes de evocar um momento de que jamais se esquecerá. “Duas semanas depois daquele almoço, estava eu de pijama à entrada da casa, onde vão parar as cartas do correio, quando chegou o primeiro envelope. Abri-o e li pela primeira vez Ice Hotel e Breakfast in the Morning Tram. A sensação foi indescritível, esmagadora. Os textos eram fantásticos. Fui lê-los em voz alta ao Jim. E decidimos que era isso que faríamos de futuro: eu registava as letras num gravador, lendo-as em voz alta, e ele usava essa gravação para compor e desenvolver as melodias. É isso que torna estas canções tão pessoais: parecem feitas à medida para que possa contar uma boa história”.

      Foi assim que as duas primeiras canções foram compostas, e foi assim que todas as outras foram acontecendo. “O Ishi envia a letra, eu leio-a e gravo-a, o Jim desaparece no estúdio por uns tempos e reaparece já com as canções”, diverte-se Stacey a contar. “Depois das duas primeiras, surgiram I wish I Could Go Travelling Again, que acabei de gravar de novo; Bullet Train; The Summer We Crossed Europe in the Rain; The Changing Lights; Waiter, Oh Waiter; Postcard Lovers – tudo histórias incríveis”.

      Invariavelmente, as letras das canções remetem para romances antes publicados por Ishiguro. “É o lado cómico disto”, diz a cantora. “Waiter, Oh Waiter fez-me logo lembrar o mordomo de Os Despojos do Dia. É como se ele (Ishiguro) estivesse sempre a tomar de empréstimo os seus próprios temas para os reinventar – e é tudo isto que explica que esta nossa relação de trabalho seja tão forte ainda hoje”.

       

      Macau no reportório e na agenda

      “Tango em Macau é uma canção que esteve semi-abandonada no meu piano durante muito tempo”, junta-se Jim Tomlinson à conversa. “Trabalhei nela várias vezes, mas nunca estive sequer perto de conclui-la. Foi preciso vir a pandemia para eu poder dedicar-lhe o tempo que merecia”.

      O poema tinha algo de muito comum nas letras escritas por Ishiguro para a voz de Stacey Kent: uma justaposição estranha, enigmática, “que nos faz entrar numa espécie de cenário surreal”, na descrição de Tomlinson. “Em Breakfast in the Morning Tram, a estranheza advém do facto do pequeno-almoço estar a ser tomado num eléctrico. O mesmo é verdade para Tango in Macao. O tango é, obviamente, uma forma de dança argentina. Há um par de amantes e um promete ao outro um tango. Mas não é um tango em Buenos Aires. E não é só tango; é tango em Macau. Ou seja, logo a partir do título há uma certa sensação de exotismo e estranheza, que nos faz perguntarmo-nos: ‘Porquê tango? E porquê Macau’?”

      Stacey acabará por apresentar uma razão possível. Mas, antes, o marido confessa que o lado enigmático da letra foi o que mais o estimulou no momento de compor. Isso e a liberdade que Ishiguro lhe permitiu: “Sabes, chama-se Tango, mas não tem de ser um tango”, ouviu o músico do escritor. “Isso desbloqueou-me. Embora uma parte da música esteja próxima do tango, também não anda longe de uma valsa de Viena. E essas mudanças de carácter musical reflectem a indecisão da protagonista da canção na forma de resolver a situação em que se encontra”.

      Stacey toma o mesmo tema como exemplo para realçar o lado cinematográfico das letras que Ishiguro lhe faz chegar. “São sempre imagens poderosas! E essas estranhas justaposições a que o Jim se refere, isso é uma técnica muito dele”.

       

      Porquê Tango? E porquê Macau?

      Apesar de ter mencionado Macau num dos seus livros (“o detective vagueia pela linha da frente do exército invasor japonês, enquanto Sarah espera para fugir com ele para Macau”, no romance Quando Éramos Órfãos), não consta que Kazuo Ishiguro alguma vez tenha aqui estado. Segundo Stacey, o autor de Os Despojos do Dia, Prémio Nobel da Literatura em 2017, ter-se-á inspirado no filme Macao, de 1952, com Jane Russell e Robert Mitchum, para escrever Tango em Macau.

      “Como fãs dos seus livros, todos sabemos que a essência do que quer dizer e expressar não tem de se encontrar necessariamente no cenário que escolhe para os seus temas. Há uma rampa de lançamento, mas pode ser puramente metafórica, um caminho apenas para uma boa história”, explica a cantora. “Acho que a única razão que o levou a escrever Tango em Macau foi o facto de nessa altura estarmos muito interessados no género Film Noir americano. Eu, o Jim, o Ish e a Lorna tendíamos a fazer os nossos próprios pequenos festivais de cinema, onde víamos filmes de Satyajit Ray, Renoir, Powell e Pressburger, e outros. E numa dessas fases, lembro-me de ele me ter dito ao telefone que estava a ver o filme Macao. Isso não significa que tenha pensado de imediato que teria de escrever sobre Macau, mas terá ficado no seu subconsciente – e quando se sentou para escrever, foi isso que saíu”.

      Não foi possível confirmar esta versão com o escritor, que está envolvido em filmagens por estes dias: trata-se da produção de um filme baseado no clássico Ikiru, escrito em 1952 por Akira Kurosawa, agora com argumento adaptado por Kazuo Ishiguro. Mas sabe-se, com toda a certeza, que escreveu Tango em Macau tinha Stacey Kent acabado de actuar pela primeira vez na RAEM, um concerto no Centro Cultural de Macau em Setembro de 2006 de que guarda boas memórias, embora não necessariamente ligadas à performance em si.

      “Era 9 de Setembro, dia de anos do Jim, e ofereceram-nos uns posters de uma exposição que lá tinham, Breath of the Universe (trabalhos de caligrafia e pintura tradicional chinesas), de que gostámos tanto que acabámos por trazer dois para emoldurar. Estamos sempre a olhar para eles em casa. E isso mantém Macau sempre muito presente, muito perto dos nossos corações”.

      Stacey e Jim voltaram a Macau em 2014, para um concerto que marcou a reabertura do Teatro do Venetian, depois da saída de cena do espectáculo Zaia e do Cirque du Soleil. E, se possível, preparam-se para aqui regressar no próximo ano, no âmbito de uma digressão asiática.

      “Gravámos, entretanto, o tema Tango em Macau e ontem já o cantei ao vivo pela primeira vez, agora que pude reatar os concertos, com uma digressão pelo Reino Unido, França e Estados Unidos”, revela a cantora, à partida para a América. O tour asiático será no Outono e Stacey diz que vir a Macau tornou-se agora quase obrigatório: “O que acham? Mal podemos esperar. Que especial será se o conseguirmos levar a casa, aí a Macau!”

      Para críticos de jazz que já o puderam ouvir, Tango em Macau, tema original num álbum de covers (Songs From Other Places), é de uma certa forma paradoxal, senão irónica, o tema que mais fica no ouvido de entre todos os que Stacey Kent se prepara para cantar ao vivo nas próximas semanas. É já mesmo “um clássico instantâneo”, garante um dos críticos. Macau vai poder fazer a sua própria avaliação em breve, no Festival Rota das Letras.

       

      “Ok, agora vou falar em Português”

      Stacey Kent tem no seu repertório um vasto número de versões de canções brasileiras, em particular de bossa nova. Quando lhe perguntámos por essa ligação lusófona, respondeu assim:

      “Ok, agora vou falar em Português, porque é uma língua que eu adoro. Eu e o Jim (o marido, Jim Tomlinson) estamos a estudar português juntos na universidade. Adoramos esta língua. Seria para mim muito difícil ficar dentro do universo de uma canção sem compreender a língua, sem compreender as letras. Não quero com isso dizer que, quando estou a ouvir uma canção, seja sempre necessário para mim compreendê-la. Dão-nos discos em todos os sítios onde vamos e, claro, não podemos compreender todas as línguas do mundo. Pode ser muito agradável ouvir uma música cantada, mesmo sem compreender a letra. É uma experiência mais abstracta. Mas para mim, como cantora, alguém para quem a poesia é tão importante, seria muito difícil contar uma história sem compreender a língua”.

      Jim Tomlinson, num português um pouco menos fluente, tinha algo a acrescentar:

      “Além da língua portuguesa ser muito bonita, falada e cantada, é a língua da música do Rio (de Janeiro), da bossa nova, que tem uma ligação bem forte com o jazz. Acho que as melodias e as harmonias do Tom Jobim são as mais bonitas entre todos os standards do jazz. Quando eu componho para (letras de Kazuo) Ishiguro, procuro criar uma atmosfera de saudade, que é um elemento muito forte nos livros e nas letras das canções dele. O Tom Jobim e outros compositores brasileiros são o meu modelo nesse trabalho”.

       

      Os dias da Pandemia

      Como a generalidade dos músicos um pouco por todo o mundo, Stacey Kent ficou afastada dos palcos por mais de ano e meio, apenas voltando a actuar em público há poucos dias. Mas isso não significa que tenha ficado inactiva, longe disso.

      “Eu e o Jim fazemos música para nós, é claro – é o nosso bilhete para este planeta –, mas fazemos também música para os outros, para os fazer sentirem-se bem, para os transportar a outros lugares. Isso é muito profundo em nós, é muito importante. E é assim porque também estamos do lado de cá, como ouvintes. É isso que a música nos faz sentir. Adoramos essa partilha. O mesmo acontece na literatura, nas artes. Há coisas que te fazem sair deste mundo, que te levam em sonhos para um outro mundo. É ainda o mundo real, mas é um outro lado dele. Se posso criar uma atmosfera e um universo, com os meus músicos e com as canções que canto, que permita às pessoas que nos vêm que partilhem connosco este sentimento colectivo da condição humana, nada há de melhor do que isso.

      “Quando ficámos fisicamente afastados das pessoas, por causa da pandemia, ligámo-nos a elas através das redes sociais. E ouvimos dizerem-nos como era duro viver em solidão, ouvimos as suas preocupações, as suas ansiedades. Eu e o Jim decidimos que teríamos de continuar a trabalhar. Temos sorte de ter em casa um estúdio que nos permite fazê-lo em boas condições. Estabelecemos uma rotina. Discutíamos ao pequeno-almoço a música que faríamos durante o dia, e encontrávamo-nos mais tarde para confrontar o trabalho de ambos. Mas também queríamos fazer as pessoas sentirem-se melhor. Abrimos uma página na (rede social) Patreon e criámos aquilo a que chamámos ‘os vídeos do isolamento’, que abrimos a todos os utilizadores também do YouTube. E recebemos toneladas de pedidos para que tocássemos este e aquele tema. O mais pedido foi a canção de Tomlinson e Ishiguro, I Wish I Could Go Travelling Again. Por razões evidentes: era o título que mais se adaptava à situação. O que eu mais adoro nessa canção é que, embora seja triste e contenha uma forte dose de melancolia, tem também um lado divertido no modo como a letra e a música se encontram. Ou seja, não era daquelas que nos fizessem sentir muito em baixo – embora também não haja nada de errado com música que possa ser considerada deprimente.

      “Sou muito a favor de revisitar canções que já tenham antes sido gravadas. Quando se envelhece, é possível que a nossa sensibilidade mude pouco ou nada. Mas vê-se sempre o mundo de uma maneira diferente, porque tudo o que se vai acumulando ao longo da vida altera a nossa perspectiva das coisas. O mesmo acontece nas artes. Quando se vê um filme uma, duas, três, quatro, cinco vezes, deixa de se poder voltar a ver o filme como se fosse a primeira vez. O que não é mau. E daí que eu e o Jim tenhamos decidido recriar vários temas e reuni-los num álbum a que chamámos Songs From Other Places. Há neste disco um sentimento de pertença, uma consciência do lugar, do que deixou de existir, que são comuns nesta pandemia a todo o mundo. As circunstâncias foram diferentes, mas passámos por isto todos juntos. Daí que sintamos ser o momento apropriado para nos expressarmos desta forma”.

       

      O que vai mudar no mundo da música

      Mais gravações em estúdio, menos actuações ao vivo. É assim que Stacey Kent vê o futuro da indústria musical.

      “São várias as razões que tornarão as digressões e os concertos mais complicados”, segundo a cantora. “Há a pandemia, que não irá desaparecer tão cedo, e há também o problema das alterações climáticas. Daí que preveja que se viaje menos, se grave mais em estúdio e se esteja mais envolvido na internet. Mas continuaremos a fazer concertos; só que menos. E isso tornará ainda mais indescritível e mais intensa essa experiência única que é partilhar música numa sala com outros seres humanos. Quanto à nossa carreira, queremos continuar a crescer como músicos. E quero muito que a dupla Tomlinson-Ishiguro continue a escrever para mim, o que estou certa irá continuar a acontecer. Ainda há dias nos encontrámos para falar dos planos que temos para novos álbuns e outras colaborações. É tudo o que quero e é tudo em que consigo pensar agora.

      “Ainda esta noite cantei Bullet Train em palco. É uma vinheta de amor o que se passa no comboio de Tóquio a Nagoya, de Nagoya a Berlim. O Shinkansen (comboio-bala) é o pretexto ideal para uma canção de amor. Como tudo se move tão depressa, não se percebe bem o que é real e o que é sonho. E estes dois (Tomlinson e Ishiguro), quando se sentam juntam e se põem a sonhar, sei que vou ter algo de muito bom para cantar. Não posso esperar por fazê-lo de novo em Macau.”

      1 COMENTÁRIO

      1. Excelente artigo para qualquer professor/a de Português viajando pelo mundo transcultural da lusofonia e da “anglofonia” , bem como pelo universo intercultural dos sentimentos.

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