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      Início Opinião Estratégias para a Diversificação: Oásis ou Miragem?

      Estratégias para a Diversificação: Oásis ou Miragem?

      Os problemas da economia de Macau são regularmente discutidos e analisados por vários comentadores e especialistas na matéria. Um dos maiores desafios que temos está obviamente ligado à enorme dependência económica do sector do jogo, que se assume como o único verdadeiro motor do nosso crescimento económico, gerador de empregos e fonte do enorme enriquecimento e modernização a que a nossa RAEM assistiu nas últimas décadas. O sector do jogo assegura mais de 70% das receitas fiscais de Macau. O caminho para reduzir esta dependência, e reduzir o choque de eventuais crises futuras neste sector, é propalado em loop contínuo em quase todos os discursos oficiais: é necessário apostar na diversificação! Acrescente-se que em várias ocasiões se menciona também uma ligação à Lusofonia e o reforço do papel histórico de Macau como ponte ou plataforma de ligação com o interior da China.

      É bastante interessante ver alguns paralelos entre a situação actual do nosso território e algumas discussões similares e planos feitos e em execução noutro ponto do Globo.

       

      O exemplo saudita

       

      A Arábia Saudita tem uma economia próspera, geradora de uma enorme riqueza, que transformou a vida dos seus habitantes no espaço de poucas décadas. Também aqui temos uma dependência de um único sector de actividade: o Petróleo. A Arábia Saudita alberga a maior produtora de petróleo – Saudi Aramco. Esta empresa era a mais rentável do mundo no período pré-pandemia, com resultados líquidos de 111 biliões de dólares americanos em 2018, o dobro da Apple, relegada para o segundo lugar da lista.

      Com o rei Abdullah, iniciou-se uma viragem histórica no país. Após vários anos de debate sobre a necessidade de diversificar a economia e reduzir a dependência do seu único motor, lançou-se uma nova visão. Uma parte das receitas do sector petrolífero passaram a estar destinadas a promover uma sociedade baseada no conhecimento, com clara aposta em universidades e investigação científica, quer a nível de ciências fundamentais, quer aplicadas. A isto estava associado uma abertura ao exterior sem precedentes, com recrutamento de investigadores estabelecidos e jovens talentos de várias partes do globo. A ideia era fazer da Arábia Saudita um ponto de encontro e uma referência mundial na inovação e colaboração científica.

      O primeiro grande passo foi o estabelecimento da King Abdullah University of Science and Technology (KAUST) em 2009, com o seu impressionante campus e cidade universitária, situado nas margens do Mar Vermelho, numa área previamente deserta a norte de Jeddah e no eixo entre Meca e Medina. A instituição está totalmente virada para a investigação, não oferecendo licenciaturas, estando antes virada para formação mais avançada de mestrados e doutoramentos. Dez anos após a sua abertura, esta universidade foi considerada a 8ª melhor jovem universidade estabelecida nos últimos 50 anos, tendo um desempenho e evolução notável nos rankings internacionais. Parte do seu sucesso vem do seu carácter vincadamente transdisciplinar, transnacional e transcultural.

      O falecimento do rei Abdullah em 2015 não esmoreceu esta visão para o país, tendo antes sido fortalecida pelo plano “Saudi Vision 2030”. Desenvolvimentos mais recentes na Arábia Saudita incluem o estabelecimento do projecto NEOM: uma nova cidade trans-fronteiriça situada no golfo de Aqaba, que pretende ser um novo pólo de desenvolvimento sustentável, ancorado na investigação e nos mais recentes desenvolvimentos de inteligência artificial, robótica, energias renováveis, entre outras. A NEOM anunciou esta semana o estabelecimento da região OXAGON, que pretende mudar o paradigma mundial da indústria. Por outro lado, o sucesso do exemplo da Arábia Saudita tem vindo a ser seguido por outros países do Golfo, com um destaque particular para o Qatar.

       

      Que caminho para Macau?

       

      Macau tem apostado, e bem, no apoio às universidades do território e ao desenvolvimento de projectos de investigação. No entanto fica-nos a dúvida se poderia fazer mais e aprender com os exemplos do exterior. O recentemente anunciado plano de recrutamento de novos talentos no exterior parece ser um passo na direcção certa, mas terá que ser alicerçado num conjunto de políticas mais alargado, quer de recrutamento, quer de apoio aos investigadores que já cá estão. Uma maior articulação com a comunidade local de investigadores e auscultação das suas opiniões e sugestões poderia ser altamente benéfica. É curioso notar que Zhuhai tem também os seus próprios planos de apoio a investigadores e captação de novos moradores para Hengqin. Uma maior articulação dentro do contexto da parceria Macau-Zhuhai e dos planos da Grande Baía são essenciais para o sucesso de qualquer iniciativa tomada em Macau.

      Por outro lado, não se fazem omeletes sem ovos! A qualidade e impacto da investigação está cada vez mais dependente do diálogo e colaboração entre investigadores a um nível internacional. Infelizmente, as restrições pandémicas actualmente em vigor em Macau, apesar de destinadas a proteger-nos do ponto de vista de Saúde Pública, têm-nos isolado cada vez mais do exterior. Macau é uma cidade cada vez menos internacional, estando rapidamente a perder os factores que a diferenciavam face a outras cidades da Grande Baía. Após 2 anos de pandemia, continuamos sem ter mecanismos que permitam a entrada no território de trabalhadores estrangeiros altamente qualificados provenientes do exterior. Isto aplica-se quer a novas contratações, quer aos infelizes trabalhadores não-residentes que se encontravam no exterior quando fecharam as fronteiras. A única excepção parece ser feita para profissionais ligados directamente ao combate pandémico. Não seria tempo de revisitar este tópico e criar os instrumentos que permitam promover a diversificação e vitalidade de Macau, não comprometendo a saúde pública?

       

      André Antunes

      Cientista