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      Início Opinião E se isto não acabar?

      E se isto não acabar?

       

      Houve uma altura em que, aqui em casa, se ouvia muito a seguinte conjugação de palavras:

      – Quando a Covid acabar.

      E, depois, a pergunta:

      – Quando é que a Covid acaba?

      A certa altura, a Covid entrou pela porta principal e a pergunta desapareceu. Nós somos os nossos contextos e o contexto é este. É com ele que vivemos e que temos de viver. De cada vez que a ciência nos apresenta uma novidade, abraçamo-la com a esperança de que um dia se possa dizer:

      – A Covid acabou.

      Mas ainda não foi embora. Ainda não é o tempo. E há apenas uma certeza: ninguém sabe quando é que este nome que se transformou em verbo – verbo de não se ser ou de ser pela metade – passará a pretérito mais-que-imperfeito. Porque não sabemos, vivemos como podemos.

      Esta semana o mundo ficou ainda mais pequeno: quem é de Macau, mas de outras partes do mundo também, terá de continuar a abdicar de parte da sua existência por tempo indeterminado. Há uns bons meses, li num jornal que quem manda na cidade aconselhara aqueles que procuram a reunião familiar (o chamado matar saudades) a fazerem-no, sim, mas fora de Macau. Assim, simples, tão simples como uma ida a Hong Kong para jantar fora quando havia barco. Não é.

      Há uma política demográfica em curso com consequências muito graves para muita gente. Também há uns bons meses, vi uma reportagem em que uma mãe (residente) teve um filho sozinha, no hospital, porque o pai (não-residente) bateu com o nariz na porta da cidade, apesar de ter emprego prometido, de a mulher ser residente e de estar prestes a ter o primeiro filho. Dou por mim a pensar se este miúdo já conheceu o pai, se o pai já sentiu a pele do filho. E por mais que tente compreender a lógica desta política de barreiras à entrada, não consigo. É-me inalcançável.

      Casos como este há muitos, com contornos diferentes. Há casos mais graves ainda – aqueles que, em partindo, não poderão sequer regressar. E depois temos as situações em que é impossível seguir as recomendações de quem manda amar no estrangeiro:

      – Chefe, vou ali 15 dias ver o meu pai de 80 anos, que nunca se sabe quanto tempo dura. Volto daqui a 15 dias com mais 21 em cima, ou talvez não, porque 21 podem ser 30, ou mais, pode acontecer qualquer coisa e eu só voltar não sei bem quando.

      E a viagem não se faz. Fica-se em terra, não tem importância, o pai vai aguentar. Afinal não aguentou e agora é que não vale a pena o risco de perder a vida que se tem, era o pai que dizia que a nossa terra é aquela que nos dá o pão que comemos, o pai era de antigamente, a terra dele é nenhuma, nem cá, nem em sítio algum.

      A demografia. Os primeiros a desistir são aqueles que não são de Macau. Como se existisse alguém de Macau. Notícia: não há ninguém de Macau. Toda a gente que vive em Macau é de outro sítio qualquer. Da China ou de mais longe. Nem os macaenses escapam, apesar de serem os mais da terra. A sua condição de macaenses faz com que mesmo aqueles que nunca saíram de casa estejam espalhados pelo mundo. É o lado bonito de Macau, esta coisa de não pertencer a ninguém e de ser de todos também. Era o lado bonito de Macau: presente mais-que-imperfeito.

      O português há 30 anos em Macau não é de Portugal, apesar das saudades do mar azul, do cheiro a Atlântico e do filho que não vê há mais de dois anos. O filipino que vive há 25 anos em Macau não é das Filipinas, apesar do dinheiro que envia para a família viver e do receio de já não ser capaz de conversar com os filhos. O bebé que nasceu em Macau e que talvez ainda não tenha sentido o colo do pai não é de Portugal. As minhas filhas também não. Eu sou mais de Macau do que de outro sítio qualquer. É o lado bonito de Macau, já lá vão 500 anos: uma cidade feita de não ilustres, de gente sem galardões, que se misturam e vivem e constroem qualquer coisa além da casa onde vivem. Constroem a cidade.

      Mas não é este o entendimento de quem cria regras consoante a distância a que ficam as outras terras das pessoas de Macau. Não há argumento científico que valha a pena esgrimir. É uma lógica demográfica sem lógica, são valores que nada valem, num capítulo completamente novo, uma inversão de tudo o que foi sendo a cidade, que nem na guerra se fechou a quem precisava de abrigo.

      Esta forma de olhar para os outros terá as suas reais consequências daqui a algum tempo, talvez não muito. Mas este lado social – a vida das pessoas – não está sozinho. Presumo que quem decidiu trancar as portas com semelhante convicção tenha noção das vantagens estratégicas e das fragilidades estruturais de Macau. E por ter essa presunção, interrogo-me sobre o que estará a ser pensado para acautelar o futuro de uma cidade fortemente dependente de uma indústria feita para 40 milhões de turistas ao ano. Uma cidade historicamente dependente de quem vem de fora. Uma cidade com pouca diversificação, onde os pequenos negócios vão morrendo. Onde falta criatividade para dar a volta ao texto. Onde falta gente para as mais pequenas tarefas e para as grandes empreitadas também.

      Partindo do princípio de que quem manda sabe onde está, não consigo perceber que não faça a pergunta:

      – E se isto não acabar?

      E se isto demorar muito tempo, talvez já ninguém seja de Macau.

       

      Isabel Castro

      Jornalista