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      Erguem-se vozes preocupadas com as estratégias do Governo no combate à Covid-19

      A política de zero casos, quarentenas excessivas e taxa de vacinação baixa deixa membros do Conselho Consultivo de Serviços Comunitários preocupados e a pedir mais concretizações por parte de quem manda. A estratégia até agora adoptada pelo Governo começa a deixar a população incomodada. “As autoridades têm de aprender com a experiência, rever as deficiências, planear o futuro, consolidar e expandir os resultados da prevenção e controlo de epidemias, evitar repetir os mesmos erros de antes”, considerou um dos conselheiros.

       

      Não são apenas os estrangeiros de Macau que se mostram incomodados com as políticas de restrições criadas pelo Governo de Macau no combate à pandemia de Covid-19. A comunidade chinesa começa agora a revelar algum nervosismo com a forma como as autoridades têm lidado com o problema, questionando a política de zero casos, as quarentenas infindáveis e a taxa de vacinação em valores considerados baixos.

      António Monteiro, um dos 24 membros do Conselho Consultivo de Serviços Comunitários da Zona Central, pediu da palavra e teve uma intervenção antes da ordem do dia na reunião mensal, que aconteceu na noite da passada quarta-feira, mostrando descontentamento pela recente gestão epidémica no território, acabando por ser secundado por alguns dos restantes membros da entidade.

      O macaense referiu que, “face aos recentes acontecimentos da situação epidémica em Macau”, “existem vozes manifestadas pela população que devem merecer mais atenção”. “A população tem vindo a colaborar com as medidas dos Serviços de Saúde, mas levantam-se muitas vezes dúvidas na forma de aplicação dos critérios ou de medidas, cada vez que surge um ou dois casos infectados”, começou por dizer António Monteiro.

      Ao PONTO FINAL, desabafou que “as pessoas já se sentem sufocadas” em Macau, “incluindo a comunidade chinesa”. “Medidas criadas a reboque ‘matam’ qualquer pessoa normal. Macau precisa de traçar um objectivo. Vamos ficar fechados até 2030?”, questionou, referindo que os membros do conselho criticaram, fortemente, a falta de medidas que impulsionem a vacinação.

      A falta de respostas “mais assertivas”, “directas” e “objectivas” por parte do Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus também merece a crítica de António Monteiro, que considera que as autoridades, muitas vezes, “nada respondem e as responsabilidades são muitas vezes empurradas para outros colegas”. “Há um ‘feedback’ de vários residentes que a imagem da política de zero casos em Macau tem produzido efeitos excessivos do medo do vírus e de impactos psicológicos nas pessoas, crianças e bebés em especial”, atira.

      Ao mesmo tempo, aponta, registou-se “efeitos de xenofobia e de discriminação entre comunidades em Macau” nos últimos casos de infecção por SARS-CoV-2 “não é nada positivo, muito pelo contrário”, uma vez que “qualquer pessoa pode ter o azar de ficar infectada”.

      Apreensivo, António Monteiro lembra ainda os problemas económicos e sociais com que a população de Macau se tem debatido nos últimos dois anos, numa altura em que se sabe mais sobre a doença e que, mesmo com a taxa de vacinação em níveis considerados insuficientes, há pessoas vacinadas, algo quem em 2020 não havia, mas as medidas são agora mais restritivas. “As recentes medidas radicais e às vezes extremas têm trazido incertezas ao comércio, lojistas e restauração, entre outros sectores. Encontram-se sufocados, levando ao seu encerramento e ao aumento do desemprego, tornando-se grave e insustentável para a economia e para o turismo”.

      As recentes medidas, nota o macaense, “têm produzido efeitos desajustados e uma imagem negativa e de descontentamento” no seio da população em relação ao Governo. “Não transmitem ou apresentam critérios exactos, instruções específicas ou planos estratégicos transparentes. Não são claras as razões das medidas extremas aplicadas, quando existe visivelmente uma incapacidade de controlo geral, de monitorização e de fiscalização. Por exemplo, no uso de máscaras por certas pessoas e o distanciamento que é exigido nos parâmetros internacionais, como nos transportes públicos, filas diversas, restaurantes, eventos com ajuntamento de muitas pessoas”.

      Ao mesmo tempo, se as autoridades locais tanto se preocupam com quem vem do estrangeiro, restringindo entradas ou aplicando quarentenas infindáveis, porque é que quem vem do continente pode entrar quase que livremente, questiona António Monteiro. “Se há risco vindo do estrangeiro, muitos residentes questionam a segurança e o risco de infecção das pessoas vindas através da China Continental.”

       

      Vacinação precisa-se

       

      António Monteiro não esteve sozinho no descontentamento demonstrado à recente gestão pandémica por parte do Governo local. Os membros Tou Mio Leng e Huang Chengbin também mencionaram, e mostraram preocupação, com a baixa taxa de vacinação, especialmente em idosos, um grupo de risco desta doença. “O que achamos é que os idosos não estão dispostos a receber a vacinação e até recusam a fazê-lo principalmente porque não compreendem a informação e segurança da vacina, estavam preocupados com os efeitos secundários, ou não sabiam como marcar uma consulta para a vacinação”, referiu Tou Mio Leng, apontando o dedo à falta de divulgação das autoridades junto daquela franja da população.

      O mesmo membro sugere que as autoridades devem “reforçar a cooperação com os prestadores de serviços aos idosos e intensificar a publicidade sobre a segurança e urgência da vacinação para encorajar mais pessoas idosas a participar”. “Deve também ser considerada a colaboração com organizações relevantes para fornecer serviços de vacinação de proximidade para os idosos, especialmente aqueles com problemas de mobilidade, no sentido de aumentar ainda mais a taxa de vacinação dos mais velhos”, considerou.

      Huang Chengbin referiu que o Governo poderia e deveria concentrar-se na publicidade e promoção para os idosos, incluindo a produção de materiais dirigidos à população idosa, tais como filmagens de pequenos anúncios que apresentem aos idosos a necessidade e os benefícios da vacinação, bem como para explicar dúvidas. “As autoridades têm de aprender com a experiência, rever as deficiências, planear o futuro, consolidar e expandir os resultados da prevenção e controlo de epidemias, evitar repetir os mesmos erros de antes, e assegurar que existem medidas adequadas para lidar com várias situações, de modo a melhorar a prevenção e controlo de epidemias, minimizando ao mesmo tempo o impacto na subsistência dos residentes”, pontuou o membro do Conselho Consultivo de Serviços Comunitários da Zona Central.

      Também membro, Lam Cheok Kai lembrou que, na China continental, já se começou a falar sobre a vacinação dos três aos 11 anos. “Espero que Macau também considere a possibilidade de baixar a idade de vacinação para incluir crianças com idades compreendidas entre os três e os 11 anos, de modo a aumentar ainda mais a taxa de vacinação e acelerar o estabelecimento de uma barreira de imunidade no território”.

      Os Conselhos Consultivos de Serviços Comunitários são órgãos de consulta do Governo da RAEM, que têm em vista aumentar o contacto directo entre o Governo e os bairros comunitários e, mediante uma cooperação interdepartamental mais eficiente, resolver directamente na esfera comunitária os problemas que dizem respeito aos assuntos cívicos e à vida quotidiana nas diversas zonas.​

       

      PONTO FINAL