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      A escolha

       

      Se ainda não viram, liguem-se: tem menos de uma hora e explica-nos por que estamos todos aqui, neste momento. David Attenborough, já com a pandemia em marcha, conta em “Extinction – The Facts” a razão de tudo isto. Basicamente, é uma questão de biodiversidade, palavra comprida que não entrou ainda no vocabulário corrente. Andámos a dar a cabo da diversidade do planeta em troca de um sofá novo e, para isso, metemos o nariz onde não somos chamados: como se viu, como ainda se vê, não estamos preparados para lidar com vírus que originalmente não nos pertencem.

      Mais recentemente, Sir Attenborough, com a imensa sabedoria dos seus 95 anos, resumiu numa hora como é que o mundo mudou com os confinamentos dos últimos tempos. Porque nos trancámos em casa, porque saímos de cena, demos espaço à natureza. O resultado foi visível: “The Year Earth Changed” mostra animais curiosos em cidades silenciosas, paisagens nunca vistas porque a poluição não o permitia. Humanos em modo de pausa são sinónimo de salvação do planeta. Em suma, é apenas uma questão de escolha e essa escolha ainda existe.

      David Attenborough faz-me temer o futuro e também voltar ao passado. Quando era miúda e Sir Attenborough aparecia na televisão entre a vegetação de selvas incríveis, a vida era infinitamente mais simples. As pessoas viviam de outra forma, as contas domésticas faziam-se de outra maneira. Havia menos opções – mas, como não se sente falta daquilo que ainda não foi inventado, ninguém era infeliz por falta de alternativas.

      Não sei quando é que os pais deixaram de massacrar os filhos por deixarem ligadas luzes inúteis. Também não sei quando é os miúdos passaram a amontoar quilos de plástico em formato de brinquedos resgatados dos quilos de plástico em que são embalados. Não sei precisar o momento em que começámos a ter tudo do mundo todo à nossa porta. Não me lembro do dia em que passámos de pessoas que satisfazem os seus desejos simples a consumistas desenfreados. Mas certo é que passámos. E já ninguém se lembra das inúteis luzes ligadas, quanto mais de massacrar os filhos por causa de interruptores.

      E depois vem o futuro que – diz a ciência – é negro. A verdade é que o futuro já cá está e nem sequer chegou de mansinho. Andamos há anos a ouvir uns avisos de uns excêntricos preocupados com a natureza, os animais e coisas do género. Eram excêntricos. Não eram, deixaram de ser. Mas, ainda assim, os excêntricos de outrora não mandam no mundo. E quem manda no mundo, nos vários mundos que temos, quer tudo hoje e agora, agora mesmo. Ainda não descobriu que ser sustentável dá dinheiro – há gente importante das finanças mundiais que já chegou a essa conclusão.

      Nós: os que não produzem e se dedicam à arte da aquisição à velocidade da luz. Alguns foram acordando lentamente do torpor e compensam o crime dos sapatos novos, tão inúteis quanto as luzes deixadas ligadas, por um champô em forma de sabonete. E até separamos o lixo, aquela chatice, mesmo sabendo que depois ninguém recicla coisa alguma. Ficamos um bocadinho melhor dos males da consciência, ainda que o ar lá fora continue irrespirável.

      Macau: a cidade que podia ter sido tudo. Há muitos anos – ainda o céu não era o gigante tubo de escape em que se transformou –, entrevistei um arquitecto italiano que, em meia hora de conversa, deixou uma dúzia de ideias sobre construção sustentável. Entre conceitos inovadores, conselhos do passado que abandonámos: tratar da casa comum onde vivemos não é excentricidade, nem exige grande ciência. Só mesmo sensatez.

      Macau: a cidade que poderia ter crescido para um lado, mas foi no sentido oposto. A cidade que anda lentamente a reboque e que podia ter sido tudo, mas fez tudo em sentido inverso. Compra-se demasiado lixo, faz-se demasiado lixo, polui-se o chão que se pisa, o ar que se respira, mas está tudo bem. Alguns até vão comprando os champôs em forma de sabonete e sempre há uma embalagem de plástico que não é feita. Mas não chega.

      Não chega em Macau e não chega em lado algum. Nós, humanos, precisamos de organização, de gente a mandar que saiba mais do que aquilo que efectivamente sabe. Precisamos de empresas que descubram que podem poupar uns trocos valentes se gastarem menos em embalagens e muito menos em gasóleo. Precisamos de deixar de meter o nariz onde não fomos chamados e deixar os bichos serem bichos. Precisamos de voltar a ensinar aos miúdos que as luzes são para desligar. Para que as possam ligar sempre que precisarem. É apenas uma questão de escolha.

       

      Isabel Castro

      Jornalista