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      Início Categorias do Parágrafo Crítica PLANTAR NO CORPO AS RUÍNAS DE UMA ERA

      PLANTAR NO CORPO AS RUÍNAS DE UMA ERA

      Daša Drndić
      Belladonna
      Sextante
      Tradução de António Pescada

       


      No princípio deste romance, a voz que narra desfia histórias de gente que se calou. O silêncio nasceu de contextos diversos, mas foi decidido pelos seus protagonistas, ora porque a sua voz era considerada inútil, ora porque não havia forma de suportar as palavras que a memória ia trazendo à superfície. E eis que surge Andreas Ban, protagonista desta história: «Também ele o poderia fazer. Parar de falar. Parar de recordar.» (pg.8) É nesse conflito entre a vontade de travar verbo e memória e a impossibilidade de desistir que se estrutura Belladona, o penúltimo romance da escritora croata Daša Drndić, que morreu em 2018.

      Sozinho, velho e com demasiadas maleitas a ameaçarem o sossego do corpo, Andreas Ban ensaia um quotidiano sem surpresas enquanto luta contra as recordações. Na memória que teima em não parar de ressurgir, guarda os ecos da II Guerra, mas também o crescimento do nazismo e do nacionalismo na região da Croácia, uma hidra que continuará a crescer e a apontar novas cabeças em múltiplas direcções, ligando esse tempo da década de 40 aos anos que se sucederam ao fim da Jugoslávia e ao nascimento de outras nações. Nascido na zona croata, vivendo em Belgrado na altura da derrocada, o escritor e psicólogo muda-se para uma pequena vila da agora Croácia, tentando equilibrar os dias entre a vida académica, a escrita e os pacientes, mas a hidra permanece viva e de boa saúde.

      Já em Trieste, um dos seus romances anteriores, a autora havia mergulhado nos traumas da Europa do pós-guerra, com um enredo onde a procura de uma criança roubada pelas autoridades nazis levava o texto a diversos lugares de confronto com a memória. Em Belladonna, os temas do trauma e da memória voltam a ser transversais e é no seu protagonista que se concentra a torrente de emoções e contradições que tendem a acompanhar qualquer processo traumático. Com um terço do romance concluído, diz-se do homem que vai registando com amargura a sua própria decadência, à medida que convoca velhos fantasmas de outras derrocadas, a II Guerra, a Guerra das Balcãs, os nacionalismos que depois disso se exacerbaram, ou que talvez tenham estado sempre lá:

      «Andreas Ban não é Marlene Dietrich. Não tem umas pernas tão bonitas e ainda está vivo. Não tem lugar nenhum para onde regressar. Não tem onde lançar raízes. O que resta é a sua língua. Uma mistura de línguas que o excluem, com as quais se exclui a si mesmo. Que o “trai”, com a qual se “trai” a si mesmo.» (pg.139)

      Numa narrativa que se afasta da sucessão cronológica ou do suporte de relações de causa-efeito, acompanhamos a vida deste protagonista através de flashbacks desordenados. Estas intromissões que chegam de cronologias passadas, mas não ordenadas (e tantas vezes de outras geografias), ganham na escrita uma dimensão que se aproxima do intemporal. São referências que o texto permite localizar no tempo, muitas vezes de modo preciso, mas porque a sua evocação é a linha mestra da narrativa e porque o protagonista que nelas se perde vive em permanente e presente conflito com a impossibilidade de as esquecer, o resultado aproxima-se de uma suspensão do tempo, ou pelo menos das fronteiras que atribuímos ao passado. Belladonna é, por isso, um romance feito de permanências, mais do que de cronologias. E nessa suspensão, Andreas Ban faz das cicatrizes de uma Europa devastada pela guerra, de uma região delapidada pelo nacionalismo e dos silêncios e conivências que acompanharam todas essas décadas anteriores, as marcas do seu próprio corpo.

      Andreas Ban é um protagonista sem heroísmo, mas cuja solidez resiste a todas as intempéries. Daša Drndić soube fazer dele uma ruína, ao mesmo tempo que lhe conferiu poderes de resistência consubstanciados num humor ácido, numa tendência para encontrar o norte mesmo quando parece perder-se entre cronologias e vestígios emocionais e numa brutal frontalidade – ainda que sem interlocutores, ou talvez por isso mesmo. A impossibilidade de esquecer ou de permanecer em silêncio restrito parece espelhar-se nas doenças que vão afectando o protagonista, nomeadamente no cancro que ameaça espalhar-se pelo seu corpo. A metáfora é clara e a hipótese de esquecimento como modo de cura é, sabemo-lo desde as primeiras páginas, uma impossibilidade. A dada altura, Ban é seduzido pela hipótese do suicídio, um modo eficaz de afastar doenças, dores e memórias, mas o gesto não está ao alcance da sua capacidade. Numa digressão que convoca as teorias de Freud sobre a melancolia, o narrador (que só no fim revelará a sua identidade), sempre exímio na omnisciência relativamente a Andreas Ban, explica: «Visto que o melancólico recusa separar-se do objecto perdido, com o tempo esse objecto perdido começa a persegui-lo, pelo que o melancólico abandona gradualmente o mundo exterior e definha no subterrâneo da sua psique.» (pg.261) A explicação talvez merecesse contestação de Andreas Ban, por não ser capaz de dar conta do turbilhão mental em que vive os seus dias, mas é uma aproximação possível a esta incapacidade de calar a memória e de colocar o passado onde uma percepção mais arrumada do tempo diria que ele pertence. Ainda assim, explicar a mente dos outros é um exercício mais teórico, e talvez clínico, do que literário, e onde Belladonna se revela um grande romance é precisamente nessa recusa, preferindo dar corpo verbal ao indizível e mostrando que as cicatrizes de um corpo são, tantas vezes, as mesmas que a memória já guardou num qualquer lugar sem carne ou pele.

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