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      InícioCategorias do ParágrafoEm Foco«Os pecados são as coisas mais interessantes da vida»

      «Os pecados são as coisas mais interessantes da vida»

       

      Hélder Beja

      O sueco Henrik Brandão Jönsson escreveu um livro com título polémico sobre o espaço lusófono. Viagem pelos Sete Pecados da Colonização Portuguesa passeia por Goa (gula), Moçambique (luxúria), Timor-Leste (soberba), Angola (ira), Brasil (preguiça) e Portugal (inveja). Macau e as suas casas de fortuna e azar são o lugar da avareza – e também o território mais complicado para conseguir entrevistas que ajudassem a retratá-lo.

      Henrik Brandao Jonsson in Rio de Janeiro, Brazil, Tuesday, April 21, 2020. (Hilaea Media/Dado Galdieri)

      Os casinos ocupam, como não podia deixar de ser, boa parte das páginas que o jornalista e escritor sueco Henrik Brandão Jönsson dedica a Macau no livro Viagem pelos Sete Pecados da Colonização Portuguesa. E não podia deixar de ser, porque, na fórmula que encontrou para retratar a lusofonia, Macau recebe o rótulo de território do dinheiro, onde a avareza impera. Só que Macau, aliás como esta obra de Jönsson, também é aquilo que não parece.

      Jönsson, há muito radicado no Rio de Janeiro, onde casou e adoptou o apelido Brandão da sua mulher, fala ao Parágrafo via Zoom, com um forte sotaque carioca. É correspondente na América Latina do jornal Dagens Nyheter, o maior título da Suécia. Queria fazer um livro sobre o mundo lusófono desde que chegou a Portugal pela primeira vez em 1992, com 20 anos, «sonhando ser escritor». «Na Suécia, poucas pessoas falam sobre este mundo e também na Inglaterra, ninguém fala. É um mundo muito fechado e eu queria abri-lo um pouco.»

      Viagem pelos Sete Pecados da Colonização Portuguesa, agora editado em Portugal pela Objectiva, foi um sucesso de vendas na Suécia, onde saiu no ano passado e vai já na sétima edição. A versão portuguesa tem uma roupagem séria, do título ao texto da contracapa, onde se fala das heranças da colonização «mais negativas do que aquilo que nos permitimos admitir na história que costumamos contar». Lá dentro, porém, o texto dedica-se mais a mostrar como «as ex-colónias serviam como um contraponto ao ambiente conservador da então metrópole, uma válvula de escape onde o sexo, o álcool e o jogo floresciam».  É um livro pensado para leitores não lusófonos, como o próprio autor admite, mas no qual estes podem também descobrir pontos de interesse. «Eu acho o mundo lusófono tão bacana que eu queria mostrá-lo, então os leitores lusófonos têm muita coisa para encontrar neste livro. De alguma forma, o livro serve para divulgar a lusofonia, contar as suas histórias», diz o autor.

       

      Três Macaus

      Henrik Brandão Jönsson visitou Macau em Novembro de 2017 e ficou durante três semanas. Aterrou em Hong Kong depois de uma longa viagem desde o Rio, com escalas em São Paulo, Toronto e Vancouver. «Estava morto quando cheguei», rememora, «mas fui muito bem recebido, consegui alugar um apartamento no centro histórico a uma professora portuguesa que me mostrou todos os lugares, tomei o pequeno-almoço todos os dias no Caravela, a ver esse mundo lusófono lendo os jornais pela manhã». Jönsson fala do “choque” que foi chegar a Macau: «Era tudo moderno, tudo limpo e não era perigoso, moro no Rio de Janeiro e sempre estou com medo à noite, eles me roubam por causa da minha aparência. Em Macau eu fiquei com medo, mas estava tudo tranquilo». A impossibilidade de comunicar em língua portuguesa com a maior parte da população foi outra das peculiaridades do território com que depressa se deparou. E se, como dissemos, o jogo é o prato forte do longo capítulo dedicado a Macau, com visitas a vários casinos e entrevistas entre as quais se destaca a feita a outro sueco –  Kristoffer Luczak, gerente de restaurante –, há mais Macaus para lá da roleta e do bacará.

      «Sei que muita gente critica Macau por não ter alma mas, para mim, no centro histórico onde fiquei e gostei muito, achei uma alma lá, andando nessas ruas bem pequenas onde o turista não entra, é quase como entrar noutro mundo. Então, para mim tem pelo menos três diferentes Macaus: a do centro histórico, que acho mais autêntica; depois tem Taipa, que para mim é sem graça, podia ser Nova Iorque, São Paulo, tem bons restaurantes, hotéis de luxo, mas é muito artificial; e o terceiro lugar é Coloane, que adorei. Macau é muito pequeno mas tem pelo menos três mundos diferentes lá dentro.»

      Jönsson percorre esses mundos através da gastronomia, da cultura, de visitas ao Instituto Português do Oriente e à Universidade de Macau. Os departamentos públicos – o Turismo e a Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos – não quiseram recebê-lo e foi difícil conseguir entrevistas. Das que fez, não tem dúvida em destacar uma. «A entrevista mais importante foi a Sulu Sou, um cara muito jovem, faz lembrar Joshua Wong, é muito inteligente, fala inglês muito bem agora. Infelizmente, sei que não pode mais ficar no parlamento [Assembleia Legislativa]. Então, foi muito impactante encontrar com ele. E também com Desmond Lam da Universidade de Macau, porque realmente ele estava criticando o governo, mas muito cauteloso.» O autor considera que «em Macau foi muito difícil trabalhar» porque «a maioria das pessoas não queria falar, todo o mundo estava com medo». A sorte, tão importante no jogo, acabou por oferecer-lhe a entrevista com o seu compatriota Kristoffer Luczak. «Como ele gostou de encontrar outro sueco, ele falou de mais, falou tanta coisa que acho que ele não deveria falar.»

      Para o autor, pecados são «as coisas mais interessantes da vida»: «Os pecados capitais para mim, criado numa cultura não católica, não são só pecados. Os suecos adoraram, porque quem não quer ir para um lugar que é um pecado?», ri-se. O título sueco é “mais poético” que o da versão portuguesa: ali o livro chama-se Onde o Sol Nunca se Põe. «Roubei esta expressão dos ingleses e em sueco significa que a festa nunca acaba, vai das seis da tarde às seis da manhã. É uma expressão ‘de pecado’ e funcionou muito bem». Viagem pelos Sete Pecados da Colonização Portuguesa pode porventura afastar «as pessoas que gostam de glorificar a expansão marítima», nada que tire o sono a Brandão Jönsson. Afinal, ele tem de sobreviver todos os dias ao Rio de Janeiro.