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      O melhor remédio

       

      “Macau tem a taxa de vacinação mais baixa da China”, declarava o título da notícia do final de Setembro (que ainda não perdeu actualidade) sobre a (falta de) protecção contra a COVID-19. Justifica-se surpresa. Bastante, até, pesem emboras as explicações, sobretudo, a insistência na política de portas fechadas e falta de horizontes – não só porque a generalidade da população de Macau tem acesso gratuito a três tipos de vacinas contra o novo coronavírus desde Março, como Macau tem, na China, o historial mais antigo de vacinação como a que conhecemos, uma vez que foi através do território que este método de prevenção de doenças foi introduzido no país.

      O primeiro hospital de Macau, da Misericórdia ou dos Pobres, fundado por D. Melchior Carneiro ainda na década de 1580, poucas décadas depois do estabelecimento dos portugueses, foi onde o médico inglês Alexander Pearson realizou, em 1805, essas primeiras vacinações contra a varíola, poucos anos depois do compatriota Edward Jenner ter descoberto a utilização do vírus animal (bovino) para criar a imunidade.

      Pearson era funcionário da Companhia das Índias Orientais, instituição que, de modo pragmático, fazia questão de promover activamente a vacinação com o objectivo de proteger os seus agentes das epidemiais, e também para, limitando a disseminação de doenças, conquistar o apoio das autoridades da dinastia Qing, conforme observa John M. Carroll no livro “Canton Days: British Life and Death in China” (2020).

      Num retrato do que eram os movimentos da globalização daqueles tempos, a vacina que chegou a Macau viajou de Manila, num barco com pavilhão português, em indivíduos inoculados provenientes do México. Revelou-se de imediato a eficácia contra a varíola, doença que, há séculos, era endémica na Ásia. Em Macau, surgia quase todos os Invernos. Na Europa, só nos séculos XVII e XVIII, calcula-se que 60 milhões de pessoas tenham morrido devido àquela que era considerada a doença mais temível da altura.

      Em 1805, a boa nova de Macau espalhava-se na região. Em número crescente, os residentes da província de Guangdong, onde a varíola grassava impiedosa, dirigem-se ao estabelecimento português para receberem a vacinação pelas mãos de Pearson e dos seus assistentes chineses, a quem o inglês ensinou as técnicas da milagrosa ciência.

      Pearson não perde tempo e decide passar para o papel as instruções da inoculação. No folheto, traduzido para chinês, o processo é apresentado como um “método mágico” e manifesta-se a esperança que, uma vez “aplicado durante dezenas de anos”, a varíola possa deixar de ser uma preocupação. Pelo sim, pelo não, descrevem-se também os sintomas da doença, para que todos fiquem mais atentos.

      Num relatório que apresentou em Inglaterra, em 1816, Pearson confessa-se surpreendido com a taxa do sucesso e de adesão à vacinação. Só no primeiro ano, estimou, foram inoculados milhares de pessoas.

      A vacinação prosseguiu em Guagdong sob as instruções que Pearson deixara escritas, e já longe da supervisão do médico inglês. Dez anos depois da primeira vacinação em Macau, constatava Pearson, o novo método de prevenção “espalhou-se muito”. A resistência que havia, notava, devia-se maioritariamente aos médicos chineses. Nada que impedisse, todavia, aquela que seria a base de uma campanha que iria alastrar a toda a China.

      Mas o sucesso inicial em Cantão, sublinha John M. Carroll, ocorrera devido a “circunstâncias únicas” e tornara-se “possível pelos interesses comerciais e políticos partilhados pelos comerciantes britânicos e os mercadores ‘hong’ chineses”. Com muito pouca intervenção burocrática, continua o investigador, “a vacinação tornou-se aceite em Cantão muito antes de o mesmo acontecer no Japão ou na Indochina, e muitas décadas antes de quaisquer outras cidades chinesas e até a colonial Hong Kong”.

      Em Macau, logo desde 1805, a vacinação passou a ser uma prática recorrente. Nas narrativas históricas portuguesas sobre esta introdução da vacinação, além de Alexander Pearson, é também dado destaque a Miguel de Arriaga, o todo-poderoso “ouvidor das justiças” de Macau. Segundo o padre Manuel Teixeira, é mesmo a Arriaga que se deve a introdução da vacina em Macau, sendo até o próprio ouvidor quem vacinava todos os que lhe apareciam em casa para esse fim.

      De acordo com Pedro J. Joaquim Peregrino da Costa (“Medicina Portuguesa no Extremo Oriente”, 1948), a vacinação contra a varíola torna-se obrigatória em Macau em 1917. Foi só nesse ano, escreve, “que, vencendo-se a resistência e o terror chinês, se conseguiu vacinar, percorrendo-se casa por casa, quase toda a população; e com tão felizes resultados, que a colónia se viu livre de varíola por alguns anos”. Neste cenário, “passaram desde então os chineses a recorrer voluntariamente a vários pontos de vacinação, que os Serviços de Saúde todos os anos estabeleceram”. Em 1932, quando Cantão e Hong Kong contavam centenas de casos de varíola, vacinaram-se voluntariamente em Macau 26.000 chineses, refere Peregrino da Costa, tendo havido “a registar em Macau um único caso” da doença.

      Por vezes com recuos e, outras, com desvios, avançava-se. O caminho da ciência, do progresso, podia ser tortuoso. Fazia-se passo a passo, experiência a experiência, numa lógica de acumulação que devia muito, também, aos pioneiros chineses que primeiro estudaram a imunidade e testaram a “vacina humana”, técnica que consistia na aspiração, através da narina, de uma porção do vírus (de um anterior doente) seco, transformado em pó. O método foi introduzido com grande popularidade na Europa e na América no início do século XVIII. Apesar de acarretar o risco de cegueira, salvou milhares de vidas. Caiu em desuso definitivo quando se fez o movimento de sentido contrário e as descobertas ocidentais chegaram ao Oriente.

      O mundo só seria declarado livre de varíola em 1980, mas mais do que este fim – agora que a doença está erradicada, mas outras persistem –, interessa talvez valorizar os processos de desenvolvimento de curas só possibilitados pela liberdade – de pensamento e de movimento. Não há melhor remédio.

       

      Hugo Pinto

      Jornalista

       

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