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      Início Categorias do Parágrafo Vírgula Kafka responde aos leitores

      Kafka responde aos leitores

       

      1. Caro Otto,

      Respire. Se possível, feche os olhos e movimente os ombros em círculos, primeiro para trás, quatro ou cinco vezes, e depois para a frente, as mesmas quatro ou cinco vezes. Não feche os olhos com demasiada força, não rode os ombros com demasiada pressa, use brandura em tudo. Relaxe.

      Encontrei ansiedade nas suas palavras. Somos animais, caro Otto. A ansiedade domina-nos amiúde, entendo-o bem, mas podemos superá-la, vencê-la e, tantas vezes, basta a humilde ginástica que referi. Peço-lhe que não leve a mal esta afirmação grosseira de animalidade. Repare que utilizei a primeira pessoa do plural e, em rigor, serei o primeiro a incluir-me nesse grupo. Animais, sim, mas sensíveis e pensantes. Do mesmo modo, peço-lhe que encare com benevolência o que tenho para dizer-lhe.

      No que concerne ao pedido que me dirige, devo dizer-lhe que não tenho hábito de ler blogs. Poderia, naturalmente, abrir uma exceção para o seu blog, mas não encontro motivo para o fazer. Não nos conhecemos, não possuo qualquer dado sobre si para além do pedido que me enviou através do Facebook. Em suma, não há nada que distinga o seu pedido de dezenas de outros que recebo, evocando o mesmo desejo. Se pretendesse corresponder a todas essas vontades, a minha própria vontade ficaria necessariamente para trás, passaria horas diárias a ler aquilo que indivíduos aleatórios achassem que eu deveria ler e gastaria tempo necessário para escrever aqueles textos que, na sua mensagem, classificou como geniais.

      Além disso, devo dizer-lhe que a única vez que enviei a minha opinião sincera a alguém que me contactou nestas condições, recebi uma dezena de comentários injuriosos desse indivíduo, que passou subitamente da admiração ao desprezo, vendo-me na contingência de o excluir dos meus amigos do Facebook e, não sendo suficiente, de o bloquear.

      Como já disse e como sabe, caro Otto, não nos conhecemos. Talvez por isso, temos uma coexistência pacífica. Para quê azedá-la? Agradeço que não me envie mais links para ler. Quando é caso disso, sei utilizar o google.

      Com os meus cumprimentos,

      Franz

       

      1. Cara Gertrud,

      Li a sua mensagem atentamente e, quando cheguei ao fim, reli-a atentamente. Achei assaz curiosa a sua interpretação do meu romance Der Process. Dei comigo a considerá-la e a interrogar-me se alguma vez privei com o seu cunhado Josef Kasparek. Essa reflexão durou cerca de dez segundos.

      Nunca encontrei o seu cunhado na minha vida, nunca visitei Obermoschel e, garanto-lhe, o enredo de Der Process não tem qualquer ligação com a infeliz história que envolve o seu cunhado e os terrenos agrícolas que me descreveu. Não creio que o meu romance constitua razão suficiente para reabrir o processo do seu cunhado e, caso o juiz defira a sua solicitação, não estou disponível para testemunhar no mesmo.

      Espero que compreenda as minhas razões.

      Com os meus cumprimentos,

      Franz

       

      3. Cara Elke,

      Peço-lhe que, por favor, não me volte a contactar nesses termos. Concordará que não é o modo mais próprio para se dirigir a alguém que apenas conhece através da leitura e, provavelmente, através de alguns retratos. Aquilo que propõe, e que nunca acontecerá, necessita de uma base de convivência bastante mais próxima do que esta. Em verdade, dispomos de pouco mais do que a contemporaneidade e do que estas singelas ferramentas tecnológicas. Sem estas últimas, seria como se vivêssemos em séculos diferentes, tal é a distância dos nossos mundos, das nossas intenções e dos nossos pudores.

      Peço-lhe, rogo-lhe que encontre forma de contrariar a expressão das propostas que me fez, e que não ouso repetir. Há vezes em que a própria pele agradece o gelo com que a cobrimos.

      Com os meus cumprimentos,

      Franz

       

      1. Caro Herbert,

      Felizmente talvez, não sou a pessoa mais acertada para ajudá-lo com o problema que refere. Primeiramente, porque as editoras não me consultam, nem sequer de modo informal, acerca dos livros que decidem publicar; em segundo lugar porque, mesmo que o fizessem, eu nunca iria sugerir-lhes o seu livro. Para fazê-lo, teria de sentir uma paixão extraordinária por ele. Seria necessário aquele sentimento que leva à acção, aquele invisível que se transforma em trabalho dos músculos.

       

      Hoje em dia, com esta idade, neste ponto, já tenho dificuldade em apaixonar-me. A fruta perdeu aquele sabor antigo da descoberta, a água parece que já não é tão fresca nas tardes de Verão, é-me muito fácil ignorar o toque da brisa. Para além disso, não me enviou o seu manuscrito e, como tal, não tive oportunidade de lê-lo.

      Por favor, não considere esta constatação como um convite a que me envie o dito manuscrito. Não tenho qualquer disposição para lê-lo. Não me faltam livros e, como sabe, todos os dias publicam um jornal novo. Para além desses afazeres, tento praticar natação com regularidade, nem sempre conseguindo.

      Esperando que alcance o sucesso que deseja nos moldes em que o imagina, envio-lhe os meus cumprimentos,

      Franz

       

      1. Cara Petra,

      A minha primeira tentação foi comunicar-lhe que não encontrava palavras para exprimir a gratidão que senti ao ler a terna mensagem que me enviou pelo Facebook mas, depois, senti uma comichão no peito do pé, por baixo da meia. Tratou-se de uma daquelas comichões tão fortes que obrigam a descalçar o sapato, a descalçar a meia e a coçar com a ponta mais afiada das unhas. Identifica as comichões a que me refiro? A mim, acontecem-me com frequência moderada. São danadas. Foi então que percebi que, na realidade, me faltavam palavras não para lhe exprimir a gratidão que senti, mas para lhe exprimir a intensidade e o estranho incómodo da comichão no peito do pé, o que me deixou perplexo.

      Agradeço a informação da hora precisa em que terminou de ler o romance. A essa hora, segundo julgo, estava eu a comer um creme de aipo.

      Com os meus cumprimentos,

      Franz

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      Redacção do Ponto Final Macau