Edição do dia

Segunda-feira, 26 de Fevereiro, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
13.9 ° C
14.9 °
13.9 °
77 %
7.7kmh
40 %
Seg
19 °
Ter
19 °
Qua
20 °
Qui
22 °
Sex
16 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      Início Cultura Bessmertny: Da selva de Koh Samui para a cave do Clube Militar...

      Bessmertny: Da selva de Koh Samui para a cave do Clube Militar  

      O artista russo sediado em Macau há vários anos falou ao PONTO FINAL sobre a sua mais recente exposição de arte, que inclui trabalhos novos realizados em Macau e também alguns mais antigos, como pinturas feitas enquanto se encontrava retido na selva de Koh Samui. A exposição começou na passada segunda-feira e prolonga-se até 6 de Novembro.

       

      Joana Chantre

       

      A exposição “Voyage 2021”, do artista local Konstantin Bessmertny, foi inaugurada na segunda-feira na galeria do Clube Militar e vai manter-se no local até 6 de Novembro. O artista com estúdio em Hong Kong falou ao PONTO FINAL acerca desta sua mais recente mostra de trabalhos, que englobam obras novas e também mais antigas. “Voyage 2021” pretende mostrar uma viagem pelo tempo na memória, sempre dentro de Macau.

      “Tenho cerca de 22 trabalhos expostos nesta exposição, nomeadamente 19 pinturas, duas instalações e uma escultura”, começa por explicar. “Vários dos trabalhos eu já os tinha pelo estúdio e apenas os restaurei para serem exibidos”, refere.

      O artista russo radicado em Macau refere que escolheu “Voyage 2021” como título da exposição porque “estamos todos cá fechados, a viver à volta de quarentenas, restrições de pandemia, etc”. Uma das instalações, um monte de bagagens empilhadas em cima umas das outras, é um dos trabalhos que representa o desejo de viajar. “Neste momento apenas podemos viajar virtualmente ou nos nossos sonhos, por isso eu aproveitei e tentei com esta exposição viajar no tempo, trazendo trabalhos meus que foram feitos noutra época e noutros lugares em diferentes alturas da minha vida”, assinala.

      O tempo em que o artista esteve na selva, na ilha tailandesa de Koh Samiu, está retratado na exposição: “Eu estava em Koh Samui no início da pandemia e, como me foi recomendado que não voltasse de imediato, eu acabei por ficar por lá durante dois meses e abri um estúdio no meio da selva porque necessitava de continuar a pintar”. Bessmertny inspirou-se na ilha e, segundo ele, começou a ver o sítio com os olhos de um local, e não apenas de um turista: “A selva acabou por inspirar-me e foi aqui que eu criei um grande número dos meus trabalhos agora expostos, porém as obras mais recentes, foram criadas todas em Macau”.

      O artista aponta que foi a necessidade e o isolamento em Macau que tornaram esta exposição possível. “A maioria dos meus trabalhos que podem ver aqui nesta mostra foram totalmente realizados cá em Macau, mesmo sem o meu material que se encontra quase todo no meu estúdio em Hong Kong”, revela.

      É a terceira exposição que Bessmertny faz no Clube Militar. “Sinto que já se está quase a tornar numa tradição mostrar as minhas obras aqui todos os anos”, diz. O artista considera este espaço um dos mais subestimados para realizar exposições em Macau. “Este espaço é espetacular pois tem a melhor localização, o melhor espaço e serviço também”, refere assinalando que considera ser melhor que galerias convencionais, espaços de convenções e até museus. “Aqui uma pessoa pode desfrutar de um espaço artístico, com um café ou até comida se quiser, numa atmosfera menos formal”, aponta.

       

      O estado da arte em Macau

       

      Questionado acerca do estado da arte em Macau, no meio das restrições pandémicas, Bessmertny diz que não se pode queixar, especialmente vendo a crescente demanda dos casinos que pedem a artistas locais para realizarem trabalhos comissariados para as suas instalações. “É a primeira vez desde a época de Stanley Ho que isto acontece. Ele era o único que encomendava trabalho às vezes, mas em relação aos restantes, é a primeira vez que encomendam,” refere, acrescentando que “isso é algo bonito que está a acontecer”.

      Contudo, Bessmertny alerta que uma linha tem de ser definida. “Temos de ter a consciência daquilo que somos enquanto artistas, se somos bem-sucedidos, ou só bons ou satisfatórios, porque a vida de um artista é uma montanha russa. Aconteça o que acontecer e independentemente dos trabalhos que vender, eu continuarei sempre a pintar”, sublinha.

      O artista, que ensina também este semestre um curso na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST) intitulado “Como se tornar artista em três meses”, explica que, apesar de Macau ter um ambiente artístico menos competitivo do que Hong Kong, tem muito potencial para um artista.  “Macau tem por milhares de sítios que exibem arte, muito mais que Hong Kong, por isso eu vejo um grande potencial para o desenvolvimento da arte, com oportunidades para artistas de todo o mundo”, diz. “Eu sinto-me como um gorila a sair da floresta, ou, ainda melhor, um académico a viver numa jaula, e quero que estes meus trabalhos reflictam um pouco esta condição que estamos a viver de momento, através dos meus olhos”, conclui.