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      Início Opinião Século XXI: O Século da Biologia

      Século XXI: O Século da Biologia

       

      A Biologia afirma-se cada vez mais como a Ciência incontornável deste século. Os desenvolvimentos na área da Genética e da Biologia Molecular, com o colher dos frutos lançados com a conclusão do mapeamento do genoma humano, ou o desenvolvimento de novas técnicas de edição de DNA permitem-nos avanços impensáveis até há poucas décadas.

       

      A Biologia está também obviamente ligada aos enormes desafios que enfrentamos (e possíveis planos de mitigação) do ponto de vista de alterações climáticas e suas consequências, bem como do ponto de vista das crescentes perdas de biodiversidade causadas por actividade humana.

       

      A crise pandémica que ainda atravessamos veio ainda dar maior destaque à importância da biologia para a saúde, nomeadamente no estudo de novas doenças emergentes, e desenvolvimento de soluções para lidar com esta e futuras crises que se adivinham com desenvolvimento de resistência a antibóticos. Os movimentos anti-vacinas e a era da desinformação apontam para a urgência da necessidade de reforçar esforços no aumento da literacia em biociências (e não só).

       

      Para além do crescente aprofundamento de áreas tradicionais da Biologia, temos simultaneamente um fenómeno curioso de mistura com outras áreas do conhecimento. Aliás, muitas das áreas de investigação de ponta da Biologia prendem-se precisamente com estas pontes transdisciplinares. Um destaque óbvio vai para a Biotecnologia, área que cruza conhecimentos de Biologia com uma vertente mais aplicada e virada para as necessidades de várias indústrias. A Biotecnologia, aliada à microbiologia e exploração de novos micróbios, promete revolucionar a nossa vida e ser a solução para os grande problemas da nossa sociedade, desde desafios na área alimentar, passando pela energia, até à sáude.

       

      Outra área digna de destaque é a Bioinformática. Este ramo lida com os desafios de gestão, visualização e análise do enorme volume de dados que são gerados actualmente pela Biologia, particularmente dados de genómica e biologia molecular. A lei de Moore, popularizada na década de 1990 e prevendo a duplicação da velocidade e capacidades dos computadores a cada dois anos, foi um sinal do desenvolvimento estonteante da informática. Menos conhecido por parte do grande público, a biologia molecular também entrou nesta onda de crescimento explosivo, com descidas abissais nos custos de sequenciação (passando para menos de metade a cada 2 anos), seguidos de um aumento exponencial na quantidade de genomas sequenciados. Apesar dos seus claros benefícios, é cada vez mais difícil navegar neste oceano de novos dados, sendo a Bioinformática cada vez mais uma área essencial.

       

      Como destaque final de área transdisciplinar temos a Astrobiologia, que combina biólogos, astrónomos, geólogos, e várias outras áreas. A Astrobiologia é ainda relativamente recente e está actualmente num crescendo de visibilidade e importância. O seu principal objectivo prende-se com a procura de Vida fora do nosso planeta, o maior desafio científico da nossa história. A investigação nesta área está ainda ligada à facilitação das próximas fases da exploração espacial, com benefícios que estendem também a aplicações no nosso próprio planeta.

       

      E Macau?

       

      Apesar da crescente proeminência da Biologia— unanimemente reconhecida a nível global como a grande Ciência do século XXI—na nossa RAEM persiste um claro défice de formação nesta área… De facto, apesar das várias instituições de ensino superior presentes no território e da sua crescente projecção internacional, nenhuma delas oferece actualmente uma licenciatura em Biologia! O mais próximo disso é uma solitária, mas louvável, licenciatura em Ciências Ambientais.

       

      Esta ausência é particularmente surpreendente dada a recorrente insistência na diversificação das actividades no território. A Biologia, e suas áreas associadas, são tradicionalmente vistas como excelentes geradoras de start-ups, patentes de elevado valor económico, e fontes de emprego altamente qualificado.

       

      A Saúde é uma área aparentemente considerada como uma prioridade para Macau, particularmente na vertente da Medicina Tradicional Chinesa. Note-se que a formação em biociências é considerada como essencial para a investigação na área da saúde, gerando para além disso mais-valias nas várias outras áreas que referi anteriormente.

       

      A Ásia configura-se como a nova grande potência para a Biotecnologia e para as Ciências da Vida, e a Grande Baía posiciona-se como uma referência com medidas como a “Greater Bay Area Biotechnology Alliance”. Vale a pena pensar no posicionamento de Macau, e como os vários intervenientes poderão contribuir para beneficiar desta nova centralidade e novas oportunidades, a começar pela aposta na formação de quadros.

       

      André Antunes

      Cientista