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      Pessoas só pessoas

      Achamo-nos cheios de azar, mas a verdade é que não sabemos a sorte que temos. E não sabemos a sorte que temos porque nos é impossível sentir uma realidade que não é a nossa, por muita empatia que possamos ter por aqueles que vemos ao longe. Nascemos na geografia certa, no ano certo, no contexto certo. Quem me lê, fá-lo porque pôde aprender a ler. Eu escrevo porque pude aprender a escrever.

      A geografia certa. As pessoas são pessoas, aqui e em toda a parte. São basicamente todas iguais, nas suas múltiplas e interessantes diferenças, até prova em contrário. Digo isto às minhas filhas, descodificado em linguagem mais simples, desde o primeiro momento em que perceberam a diferença. Um triângulo é diferente de um quadrado, mas são ambos formas geométricas. Um menino é diferente de uma menina, mas ambos têm os mesmos direitos. Nunca se esqueçam: os mesmos direitos.

      Um menino que nasceu em África é igual a um menino que nasceu na Ásia. E a um menino que nasceu na Europa. Apesar da diferença de geografias, são todos iguais, são todos crianças, uma pessoa é uma pessoa. Tão simples quanto isto. E tão complicado quanto isto.

      Há um par de anos, tive de explicar por que razão quem embalava as minhas filhas tinha as dela a muitos quilómetros de distância. Não encontrei justificação decente, moralmente aceitável: a geografia do nascimento é a razão para a situação absurda, mas o absurdo da situação esvazia de sentido a fundamentação. A geografia errada.

      As meninas do Afeganistão que agora já não podem ir à escola. Nascimentos na geografia errada, no tempo certo, no tempo errado, como se o mundo vivesse vários séculos em simultâneo. A empatia não basta para imaginar o que ali se vive, o que ali se sente. As justificações são vazias: a geografia não deveria servir de pretexto.

      Todos numa geografia aproximada e, mesmo assim, o nome da rua pode ditar o destino. Nascer mais a norte ou mais a sul pode ser sinónimo de fortuna ou de azar. Como no jogo. Antes de nascermos não sabemos a sorte que nos vai sair quando a roleta parar, mesmo sendo todos nós pessoas, pessoas iguais umas às outras, salvo as necessárias e interessantes diferenças que fazem com que nos consigamos identificar.

      A diferença para a igualdade – ou a igualdade na diferença, como se preferir – ensina-se: não nasce dentro de nós. A pedra preta e a pedra branca são necessárias para que não haja um buraco na calçada. Com as pessoas é basicamente a mesma coisa – se uma falha, o pavimento, imperfeito que já é por natureza, torna-se perigoso porque convida à queda. Quando os sentidos identificam a diferença, há que explicar que pedras brancas e as pedras pretas fazem ambas parte do chão que pisamos. É essa a nossa identidade, a identidade do mundo.

      O respeito pela diferença ensina-se e não se faz o contrário. Não se diferencia pela geografia da origem, não se discrimina pela cor da pele, não se distingue pela categoria salarial ou pela condição social. Os tempos que vivemos são dados a confusões e a solidariedade é bonita, mas ao longe. Cada vez mais ao longe.

      Avançar com planos de testes por nacionalidade é discriminar. Corri o dicionário e não encontro melhor palavra, porque o verbo é sinónimo de diferenciar, separar, especificar e também segregar, tratar de forma desigual e injusta. Um nepalês pode ser segurança ou, se tiver nascido numa rua mais a sul ou mais a norte, professor universitário. Uma vietnamita pode ser empregada doméstica ou, se tiver estudado numa escola mais a oeste ou a mais a leste, otorrinolaringologista. Um português pode ser pedreiro ou, se tiver nascido noutra hora e noutro local, engenheiro civil. Todos eles, em qualquer geografia, podem ser excelentes pessoas, cheias de diplomas. Todos eles podem ser péssimas pessoas, cheias de diplomas. Todos eles podem ser óptimas pessoas sem nada e péssimas pessoas com coisa alguma. Porque as pessoas são só pessoas.

      Para os que andam desatentos, aqui ficam as minhas constatações, baseadas numa observação da realidade e nalguns dados científicos: o que vivemos toca a todos ou pode tocar a todos. Aos que tomam os seus banhos diários e aos que pouca água têm para beber. Aos ricos e aos pobres. Aos nepaleses, aos brasileiros, aos portugueses, e também aos chineses e aos norte-americanos. A geografia, desta vez, é implacável: não dá opções. Mas, uma vez mais, a geografia diferencia. A geografia da origem é tramada, qual carimbo na testa, porque ainda falta bastante para se perceber que as pessoas são pessoas e são só pessoas. A diferença para a igualdade ensina-se e é uma obrigação de todos nós – os que desconfiam não saber da sorte que têm.

       

      Isabel Castro
      Jornalista

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