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      Culto dos antepassados

      A cidade faz-se cidade e cidade interessante quando tem quem olha para ela, quem a reflecte, quem a pensa. Os artistas são parte necessária desse processo.

      Além da própria “prata da casa”, desde há muito que Macau atrai (cada vez menos, no entanto) uma miríade de olhares exteriores. O cortejo inclui convidados e intrusos, curiosos e inspirados, mas também preconceituosos, mitómanos. São de antologia os dislates – quase sempre estafadíssimos clichés – na forma de primeiras (e segundas) impressões que Macau provocou a artistas de toda a espécie e proveniência. Por outro lado, também há exemplos de olhares perscrutantes, atentos, que contrariam visões lineares e redutoras que normalmente predominam, até entre quem, pela proximidade, tinha obrigação de maior acutilância. Em poucos momentos da história de Macau tal se tornou tão nítido como durante o período da transição.

      Ao fim de séculos irremediavelmente apartada de Portugal, a “pequena jóia” que significava o fim do império era alvo de uma atenção inédita nos últimos anos da administração portuguesa. A prevalecente imagem de Macau, todavia, era a do desinteresse e de um desapego que não se conseguia disfarçar. Às más notícias, que davam conta de uma sucessão de polémicas envolvendo políticos e dinheiros mal explicados, juntavam-se postais turísticos que promoviam um território de encantos e oportunidades à espera de visitantes e investimento.

      Apesar da estranheza que fascinava e da distância misteriosa – em si mesmas lugares comuns onde a imaginação se atolava e acabava por imobilizar –, o retrato era, ainda, manchado pela suspeição. Como se só restasse imaginar com desconfiança o que se passaria lá longe.

      Entre simplesmente não olhar e olhar, mas simplesmente ver o que está à superfície, tornava-se difícil encontrar diferenças; ambas as visões se manifestavam susceptíveis a equívocos e contaminações.

      Nesse fim de história, em contraponto a estes olhares imediatos, sem tempo, e que, a pretexto dos séculos, se afogavam desgraçadamente na espuma dos dias, apresentaram-se as perspectivas de dois artistas portugueses, António Júlio Duarte e Paulo Nozolino, desafiando o olhar que não tinha outro de permeio. Apesar de trabalharem com a mais instantânea das formas de expressão artística – a fotografia, que fixa instantes –, revelaram observações que, embora em registos contrastantes, conseguiram dispor, dar a ver, os diferentes tempos que reflectiam o presente de um lugar onde a história se fazia, do passado para o futuro. A imagem que se projecta é a de um território em zona de indefinição, não só pelo que vai ser, mas também pelo que vai deixar de ser. Nenhuma resposta satisfaz. As dúvidas avolumam-se. Tal como os fantasmas, personagens privilegiados desta história, representando o passado condenado a penar pelos tempos vindouros, que aqui aparecem nitidamente captados.

      “Lótus”, a flor que nasce no lodo, escolhida para servir de insígnia à futura Região Administrativa Especial, foi o título da exposição de António Júlio Duarte. Vinte e duas fotografias a cores de uma cidade a transformar-se. Uma cidade onde ruínas de casas chinesas de tijolo cinzento marcam ainda paredes de prédios recentes, quais fósseis de uma era perdida que o degelo destapou. Uma cidade de novos aterros que ainda não se percebe o que são ou o que vão ser. Uma cidade de novos blocos de edifícios residenciais, a estrear, limpos, vazios, estéreis. Uma cidade antiga que adormeceu e uma cidade nova que desperta. Será a mesma que antes se tinha deitado a dormir? Um passado ainda sonâmbulo, estremunhado, avança meio a medo e às escuras pelo clarão arremessado do futuro.

      “As imagens com que nos confrontamos”, escreveu Francisco Feio no catálogo da exposição (Casa Garden), “parecem vir de uma impossibilidade do ver, como se se partisse de um grau zero, de uma lentidão da visão para, através dela, tentar construir um novo olhar. E é a partir desta cegueira, de uma dupla anestesia do olhar (o ‘déjà vu’ fotografável e o excesso de ver), que o autor parte para uma deriva do lugar, circunscrevendo um território que se adivinha e nunca se encontra, como se de uma saída para o regresso se procurasse”.

      Com menos alegorias, luz, mais agarrados ao chão, mas em modo de poema “noir”, encontramo-nos em “Fim”, a série de 13 fotografias de Paulo Nozolino que nos situam num território de torpor, de sonolência (precedendo o despertar) e lenta evasão, sem rumo, vigília errante.

      As marcas mais reconhecíveis do autor estão lá: o preto e branco escurecido e granulado, a tessitura aveludada, o ambiente carregado, a vida que parou, deixou de acontecer, fixando-se, à nossa vista, numa suspensão dramática.

      Na primeira imagem vemos cinco embarcações, as traineiras que “se balançam como juncos”. O céu e o mar parecem um só, desprendendo-se: um para cair, outro para se elevar, como numa dança amortecida. Vamos a bordo. Aproximamo-nos de Macau. Porto Interior.

      Antoine Volodine, heterónimo de Jean Desvignes, escritor francês de origem russa, assina o texto que acompanha as fotografias. Umas vivem sem o outro, mas depois de conhecida a relação, tornam-se inseparáveis. “De Hong Kong chega-se pelo mar, ébrio de emoção perante a paisagem, perante essa experiência de beleza pura, de esplendor simples (…). Segue as ruelas escuras, as paisagens sórdidas, caminha ao longo das construções em tijolo negro do porto interior, ao longo da miséria em ruínas da cidade chinesa de há um século, dos prédios de janelas reforçadas com grades de protecção contra os ladrões. O teu afecto será logo de amigo. A tua nostalgia do presente será logo de cúmplice. (…) Não negarás nenhuma paisagem, e, à força de deambular na banal trapalhada urbana, começarás a encontrar-lhe uma certa graça”.

      A história iria continuar. Mais tarde, com o livro “Macau”, Volodine regressa ao que escreveu em “Fim”, texto que “nunca saiu da minha memória”, como se diz nesta obra publicada em 2012, na qual o escritor parece sublinhar conceitos do filósofo francês Gilles Deleuze sobre história e memória: “A história consiste essencialmente em passar ao longo do evento. Estando dentro do evento, a memória essencialmente e acima de tudo consiste em não deixá-lo, em ficar nele e voltar a ele a partir de dentro”.

      Mas onde havia encantamento, existe agora desilusão. Enfado. “Tiras algumas fotografias. A cidade nova não te interessa. A cidade antiga, mercantil, animada, com as suas incontáveis tabuletas já não te interessa. Vagueias no dédalo das velhas casas abandonadas, desabadas, praguejando interiormente contra a invasão das motocicletas, contra a ausência das bicicletas chinesas que ocupavam menos espaço junto às paredes e tinham os seus lugares nas imagens. Tiras fotografias ao que resta dos restos. Dás-te conta com frequência que já não és sensível a nenhum charme. As ruínas são mais repugnantes que nunca. Atrás das janelas rebentadas, a escuridão dá náuseas. O facto de às vezes as trevas ainda estarem habitadas já não é para ti senão mais um motivo de desânimo. A tua errância conduz-te a um cenário intemporal, mas os vivos que ali subsistem atingiram tal grau de decrepitude, que tu pouca vontade tens de estabelecer entre ti e eles contactos psicológicos ou orgânicos. Mesmo entre os mortos há simpatias e incompatibilidades de humor, e até incompatibilidades de destino”.

      No livro “Macau”, que prolonga a intuição e a ambiência de “Lótus” e “Fim”, as personagens (nós e a cidade) continuam a existir depois da morte – “revivem as suas vidas numa espécie de sonhar acordado durante o qual se encontram sempre sós”.

      Nada mais certo numa cidade de fantasmas de incontáveis passados e actos.

       

      Hugo Pinto
      Jornalista

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