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      Escrita tradicional proibida na prova chinesa de acesso à universidade na Irlanda. Opositores acusam governo de ignorância

      A prova de acesso ao ensino superior de mandarim, que se realiza pela primeira vez na Irlanda para o ano, não vai aceitar respostas em escrita tradicional. Movimento contra a decisão fala em discriminação e pondera levar o caso a tribunal. Sinóloga ouvida pelo PONTO FINAL questiona instrução do chinês no país, “firmemente nas mãos do Instituto Confúcio”.

      Por Catarina Domingues

       

      O instante de felicidade que Chloe sentiu ao saber que o chinês iria passar a ser uma das cadeiras avaliadas no acesso à universidade na Irlanda, a partir de 2022, foi tremendamente breve.

      Ao tomar conhecimento da decisão, a aluna de 17 anos, oriunda de Hong Kong – de onde a família saiu por razões políticas – e que frequenta o secundário no Condado de Kildare, a oeste da capital irlandesa, decidiu de imediato que seleccionaria o mandarim como uma das provas de ingresso ao ensino superior (Leaving Cert, em inglês). “Fiquei feliz por ver a minha língua como uma das opções”, diz a jovem em entrevista ao PONTO FINAL. Depois, então, Chloe – que prefere não ser identificada pelo nome verdadeiro – inteirou-se da proibição de utilizar no exame a escrita tradicional chinesa (oficial em Hong Kong, Macau e Taiwan), tendo sido estabelecida pelas autoridades irlandesas a obrigatoriedade da grafia simplificada (norma no continente chinês).

      Fluente em cantonês (língua materna) e mandarim, esta “orgulhosa utilizadora da escrita tradicional chinesa” admite ter ficado “zangada e chocada” com a opção de Dublin que, além de excluir à partida os alunos de língua materna chinesa que recorrem a este padrão de escrita, “retira a possibilidade aos estudantes irlandeses de o aprenderem”.

      “É uma desilusão perceber que os ocidentais – as autoridades irlandesas – têm uma percepção equivocada sobre a escrita chinesa tradicional e simplificada”, lamenta a aluna que, entretanto, optou por substituir o exame de mandarim pela prova de japonês.

      A adopção oficial dos caracteres simplificados na China data de meados dos anos 1950, como parte de uma campanha nacional para erradicar a iliteracia no país. Fora do âmbito de aplicação ficaram Macau e Hong Kong (na altura, ambas as regiões estavam sob ocupação estrangeira) e Taiwan (ilha reclamada por Pequim, mas com governo próprio).

       

      “Simplificado não significa mais simples”

      A decisão do Ministério da Educação irlandês de impor a escrita simplificada em prejuízo da tradicional encontrou de imediato objecção entre especialistas ligados à língua e cultura chinesas, pais, estudantes e vários elementos da comunidade chinesa no país, que se associaram numa campanha pela liberdade de poder escolher entre os dois padrões de escrita no exame, à semelhança do que acontece noutros países de tradição anglo-saxónica.

      Esta foi a génese da criação do grupo LCMC (Leaving Certificate Mandarin Chinese Concern Group – Ireland), do qual faz parte Peg Chiu, professora originária de Hong Kong, a trabalhar na área do ensino especial na rede pública irlandesa, e para quem a decisão é “um acto de discriminação”.

      “O governo da Irlanda está a esquecer-se de que hoje existem diferentes tipos de imigrantes no país – segundas e terceiras gerações que tentam manter a sua língua de herança, mas que são completamente esquecidas”, afirma Chiu, salientando que a criação de dois enunciados para o exame – um em escrita simplificada e outro em tradicional – é algo que já se faz no Reino Unido, Canadá e Estados Unidos. “E não representa custos adicionais para os governos”, diz.

      A indignação do LCMC, materializada numa petição que já reuniu mais de quatro mil assinaturas, chegou em Julho ao parlamento irlandês, através da deputada Bríd Smith que questionou o governo sobre a revisão dos termos do exame de mandarim. Na resposta da ministra da Educação Norma Foley, vários pontos são contestados pelos peticionários, nomeadamente o facto da inclusão de caracteres tradicionais “não ser adequada” a alunos sem conhecimento prévio da língua – é a essas pessoas a quem se dirige a prova, apesar de qualquer estudante poder apresentar-se ao exame.

      “[A ministra] parece ser completamente ignorante quanto à natureza do que é a escrita tradicional”, começa por analisar Fangzhe Qiu, professor da University College Dublin (UCD), e um dos especialistas consultados pelo LCMC. Na internet, exemplifica o académico, é frequente encontrar as escritas simplificada e tradicional assinaladas como se fossem idiomas diferentes. Está errado, nota Fangzhi. E especifica: “É puramente uma questão de letra, como se tivesse a imprimir numa letra cursiva ou mais gótica em inglês. Não há diferença na língua por trás”.

      Contactada pelos membros do LCMC, também a SEC (Comissão de Exames Estatais), organismo público que trabalha na dependência do Ministério da Educação e que é responsável pelo desenvolvimento e supervisão do Leaving Cert, defendeu a ideia de Foley: “Se a escrita tradicional fosse expectável ou aceite, a utilização da língua podia ir além do nível A1 [iniciados] e alcançar o C1 [avançado]/C2 [proficiente] do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas”.

      É uma falácia, contesta Peg Chiu. “Simplificado não significa mais simples”, declara a professora, acrescentando que “inúmeras investigações atestam que é mais fácil aprender a ler caracteres tradicionais”, por estes serem compostos por um maior número de traços que permitem ao aluno aferir mais informação sobre a palavra estudada.

      O LCMC enviou, no início de Agosto, uma carta aberta à Ministra da Educação irlandesa a contestar todos os argumentos apresentados pelo governo para justificar a escolha da escrita simplificada, mas até ao momento não recebeu qualquer resposta. No entanto, em reacção às cartas endereçadas individualmente pelos membros do grupo, o ministério recusou alterar os termos do exame.

      Ao PONTO FINAL, Peg Chiu admite a possibilidade “de agir legalmente para apelar da decisão”.

       

      Assimilação de escrita tradicional “num ou dois dias”

      O argumento das autoridades de que tanto docentes nativos do interior da China como professores formados pelo sistema irlandês não têm capacidade de trabalhar a escrita tradicional é contestado pelo grupo, embora este ponto divida opiniões entre os especialistas ouvidos pelo PONTO FINAL.

      “Fiz isso enquanto estudante”, reflecte Julia Schneider, professora de Estudos Chineses da University College Cork (UCC), na Irlanda. A sinóloga alemã defende que qualquer profissional estrangeiro ligado ao estudo do idioma chinês é “claramente capaz” de ler a forma tradicional de escrita.

      Já na opinião da linguista de Macau, Tong Choi Lan, a transição de uma grafia para a outra pode constituir uma dificuldade para aqueles que cresceram com o padrão simplificado: “É difícil diferenciar a utilização na escrita tradicional de diferentes radicais [componentes gráficos que são decisivos para o significado da palavra], como o carácter simplificado ‘复’ [lê-se ‘fù’] que pode corresponder aos caracteres tradicionais ‘復’ (recuperar ou retomar), ‘複’ (duplicar, repetir) e ‘覆’ (cobrir, derrubar, responder)”, exemplifica a presidente da Associação do Dialecto Yue de Macau.

      Nascido no Interior da China, na província de Guangdong, Fangzhi Qiu reconhece ler “sem problemas” a grafia tradicional e acredita que a assimilação desta por alguém originário do continente chinês com educação superior completa pode acontecer “num ou dois dias”.

      “Posso fazer um erro ou outro na escrita dos caracteres mais complicados, mas para o examinador, o objectivo do Leaving Cert não é escrever, mas corrigir, e, por isso, ele vai conseguir reconhecer os caracteres”, conclui.

      Dos cerca de 87 mil caracteres na língua chinesa, 2.274 foram simplificados, de acordo com o dicionário ‘Zhonghua Zihai’, citado pelos membros do LCMC na carta aberta à Ministra da Educação. Entre estes 87 mil, três mil são frequentemente utilizados, sendo que dois terços são tradicionais e um terço são simplificados.

       

      Ensino de chinês nas mãos do Instituto Confúcio é “preocupante”

      O Instituto Confúcio tem sido uma peça fundamental no ensino da língua chinesa no mundo. Na Irlanda, onde se encontra presente em várias escolas e universidades públicas, não é excepção. Vinculada ao Ministério da Educação da RPC, a instituição chinesa tem estado sob fogo desde que foi criada, em 2004, por suspeitas de se encontrar muito próxima do poder em Pequim e de servir de ferramenta de propaganda do Partido Comunista Chinês – críticas que a China rebate, mas que já levaram dezenas de parceiros internacionais, sobretudo nos Estados Unidos, a cessarem o contrato com a organização.

      O facto de muitos professores de mandarim com origem no continente chinês a trabalhar no estrangeiro estarem ao serviço do Instituto Confúcio “implica que o ensino da língua e cultura chinesas seja feito em escrita simplificada”, clarifica Tong Choi Lan. E o facto da instrução do mandarim na Irlanda estar “firmemente nas mãos do Instituto Confúcio” constitui objecto de “preocupação” para Julia Schneider, docente na UCC, universidade onde “todas as aulas de chinês são leccionadas por professores” desta organização.

      “Se olharmos para isso em relação à decisão do Leaving Cert de mandarim, parece haver certamente uma influência indirecta”, constata.

      Suspeitas de influência chinesa na concepção da prova de mandarim, através do Instituto Confúcio, surgiram na imprensa irlandesa após a divulgação do conteúdo de uma reunião entre o Ministério da Educação, a Embaixada Chinesa no país e os Institutos Confúcio da UCD e da UCC, em Julho de 2019, onde foram discutidas as especificações do Leaving Cert.

      “O Ministério da Educação informou que está disposto a considerar quaisquer propostas da embaixada/ governo chinês a este respeito [prova]”, pode ler-se numa das minutas do encontro, disponíveis no portal do Ministério da Educação irlandês.

      Numa declaração, citada pela rádio televisão irlandesa RTÉ, a Embaixada da China recusa qualquer influência de Pequim: “A forma e o conteúdo são totalmente decididos pelo Ministério da Educação irlandês”.

      Também o gabinete de Norma Foley, contactado pelo PONTO FINAL, declarou que “o governo chinês não teve absolutamente nenhuma influência no desenvolvimento dos termos” do Leaving Cert, elaborados pelo Conselho Nacional para o Currículo e Avaliação (NCCA). Trata-se de um processo “minucioso e que envolve extensa consulta com partes interessadas e o público”, salientou.

      Este jornal contactou a NCCA para saber que indivíduos e entidades foram consultados no processo, mas não obteve qualquer resposta.

       

      Unificar língua e escrita

      Um relatório divulgado em Junho deste ano pelo Ministério da Educação da China sobre a política linguística para a região da Grande Baía sugere que seja atribuída ao mandarim e à escrita simplificada um estatuto legal nas regiões administrativas especiais de Hong Kong e Macau, onde a grafia tradicional é a norma e o cantonês a língua dominante entre a população.

      Na apresentação do Guangdong-Hong Kong-Macao Greater Bay Area Language Report, Guo Xi, professor da Universidade de Guangzhou e consultor na investigação, realçou a importância de “promover vigorosamente a língua nacional comum, falada e escrita, construir um dia-a-dia linguístico harmonioso” e “reforçar a língua e identidade nacionais” na área da Grande Baía.

      As propostas surgem numa altura em que o sistema educativo em Hong Kong passa por profundas mudanças, após os protestos pró-democracia, em 2019, e um ano sobre a implementação da lei de segurança nacional. Tanto aí como em Macau, tem-se observado um reforço do ensino do mandarim nos diferentes níveis de ensino, como forma de unificar a educação e reforçar o sentimento de pertença nacional.

      Julia Schneider faz um paralelo da redução do uso do cantonês e da tentativa de “homogeneização, simplificação da língua e escrita chinesas”, por parte de Pequim, com a condição do gaélico irlandês, língua que as autoridades Dublin “têm um desejo muito forte de manter viva”.

      “Desta perspectiva, a República da Irlanda devia ser mais consciente sobre estas línguas minoritárias”, aponta Schneider.

      Já Tong Choi Lan observa que, no processo de internacionalização da língua chinesa, Pequim tem vindo a apresentar a escrita simplificada “como norma e padrão”, e, por isso, acredita que a escolha desta grafia para o Leaving Cert de mandarim é “uma consideração política”.

      “Especialmente a Irlanda – que não é um país grande – espera ter maior interacção económica com a China”, justifica.

      O professor da UCD, Fangzhe Qiu, recusa a politização do assunto, classificando-o como “uma simples questão técnica”: “Algo que pode sugerir que o governo chinês não está a pressionar neste assunto é a transmissão no estrangeiro dos media chineses –que são simplesmente máquinas de propaganda – em canais e programas em escrita tradicional”.

      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau

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