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      Início Internacional Quando as torres caíram, Macau também estremeceu

      Quando as torres caíram, Macau também estremeceu

      Há 20 anos, o mundo mudava. Dois aviões colidiram com as Torres Gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, e as ondas de choque fizeram-se sentir nos Estados Unidos da América e em todo o mundo. Macau não foi excepção, tendo-se registado na altura relatos de suspeitos detidos no território dias após o atentado e notícias de que o território terá sido usado pela al-Qaeda para fazer circular fundos. Por outro lado, Macau foi obrigado a adaptar-se às exigências americanas antiterrorismo na sequência do 11 de Setembro.

      Foi há 20 anos que dois aviões colidiram com as Torres Gémeas de Nova Iorque. O atentado, perpetrado pelo grupo fundamentalista islâmico al-Qaeda, também teve como alvo o Pentágono, onde um terceiro avião embateu contra a ala oeste da sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Um quarto avião sequestrado acabou por se despenhar na Pensilvânia.

      Quase três mil pessoas morreram durante os ataques, incluindo os 227 civis e os 19 sequestradores a bordo dos aviões. A esmagadora maioria das vítimas eram civis, incluindo cidadãos de mais de 70 países. Foi o ataque terrorista mais sangrento da história.

      O dia viria a mudar o mundo. O atentado levou a que a maioria dos países tivessem mais preocupações securitárias e aprovassem leis antiterrorismo. Nos dias imediatamente após o atentado terrorista, precipitaram-se as investigações policiais para tentar perceber quem estaria ligado a actividades terroristas.

       

      AS DETENÇÕES EM MACAU

      Macau não foi excepção. A 18 de Setembro de 2001, uma semana após os ataques nos EUA, o Wall Street Journal noticiava que as autoridades de Macau tinham feito detenções no âmbito das investigações relacionadas com terrorismo. “A polícia fortemente armada de Macau deteve sete homens do Sul da Ásia, no domingo à noite. Os detidos foram inicialmente retratados como suspeitos de terrorismo pelos meios de comunicação social de Macau e de Hong Kong, causando uma preocupação generalizada de que as duas cidades estivessem a ser alvo de ataques”, lê-se no artigo.

      No dia seguinte, notícias de Macau e Hong Kong, que citavam as autoridades policiais da RAEM, davam conta de que os sete detidos eram suspeitos de estarem a planear ataques contra alvos americanos nas duas cidades, o que fez até com que o Consulado Geral dos EUA em Hong Kong fosse encerrado.

      No entanto, mais tarde, as autoridades de Macau negaram que os detidos fossem suspeitos de planearem ataques terroristas. As autoridades de Hong Kong também afastaram as suspeições dizendo que não havia provas de que os detidos estivessem ligados ao terrorismo. O consulado norte-americano disse depois que o encerramento das suas instalações em Hong Kong foi apenas uma coincidência.

      O Wall Street Journal sublinhou ainda que, apesar das preocupações de segurança e as detenções, os ‘ferries’ que ligavam Hong Kong a Macau não tinham aumentado o seu nível de segurança, sendo que os passageiros não eram obrigados a passar por detectores de metais, por exemplo.

      Já a BBC noticiou a detenção de cinco cidadãos paquistaneses em Macau. A estação britânica citava fontes locais para dizer que os homens estariam na posse de documentos que aparentemente teriam instruções para realizarem ataques terroristas em alvos norte-americanos. A informação acabou por não se confirmar verdadeira.

      Segundo os relatos da altura um dos paquistaneses detidos em Macau estava sentado no bar do Hotel Lisboa quando agentes da polícia à paisana o detiveram. Depois do interrogatório, as autoridades locais chegaram à conclusão de que o homem era, na verdade, um ‘chef’ hindu de Hong Kong que estava de visita a Macau.

       

      COMO MACAU VIVEU O DIA FATÍDICO

      Entre Nova Iorque e Macau há uma diferença horária de 12 horas. Em Macau, eram 20h46 e 21h03 quando os dois aviões atingiram as torres, respectivamente.

      Há dez anos, uma década depois dos ataques, o PONTO FINAL recordou com se viveu o dia em Macau. José Luís Sales Marques, à data presidente da Câmara Municipal de Macau Provisória, contou, na altura, que estava a jantar com o cônsul do México. As imagens na televisão deixaram ambos sem fala. Sales Marques por espanto, o cônsul por pânico: a irmã do diplomata trabalhava no World Trade Center, em Nova Iorque. No entanto, por coincidência, a irmã do cônsul mexicano faltou ao trabalho naquele dia. A filha de Sales Marques estava, na altura, a estudar em Boston, a mais de 300 quilómetros de Nova Iorque. Em 2011, o economista recordou: “Quando falei com ela conseguia ouvir os sinos a dobrar, a tocar em finado”.

      Por outro lado, Gilberto Lopes, director-adjunto de Informação e Programas Portugueses da TDM, recordou que viu o segundo avião a embater na torre em directo através da RTPI: “Fiquei completamente surpreendido, incrédulo. Aquilo era inédito, nunca se tinha passado algo assim. Nem os maiores especialistas tinham previsto que os Estados Unidos pudessem ser atingidos no seu próprio coração”.

      Amélia António, presidente da Casa de Portugal, também contou qual foi a sua reacção inicial, depois de ver o ataque pela televisão: “Aquelas foram imagens que nunca se esquecem. Olhar para aquilo fazia frio. Demorei algum tempo a perceber que eram imagens reais”.

       

      OS ESFORÇOS NO COMBATE AO FINANCIAMENTO DO TERRORISMO

      Num relatório divulgado em 2017 sobre o branqueamento de capitais e o financiamento ao terrorismo, a Asia/Pacific Group, em conjunto com o Gabinete de Informação Financeira (GIF), compilou os esforços de Macau no que toca à área financeira para se ajustar às exigências dos EUA após os atentados.

      No documento, lê-se que a RAEM tem desempenhado bem os trabalhos no que toca ao financiamento do terrorismo. Em Macau, explica o relatório, o financiamento do terrorismo não é criminalizado directamente. Ao invés, é indirectamente criminalizado através do recurso a regras de interpretação. O financiamento de combatentes terroristas estrangeiros também não é directamente criminalizado, mas a criminalização é conseguida através dos conceitos amplos de “actos preparatórios” e “prestação de apoio material”. “A implementação de sanções relacionadas com a financiamento do terrorismo é sólida”, lê-se no relatório de 2017.

      “Para monitorizar os riscos das organizações sem fins lucrativos em associação com países com elevado risco de terrorismo, o GIF realiza análises trimestrais dos dados sobre os fluxos de fundos que entram e saem de Macau”, aponta o relatório, que acrescenta que a Polícia Judiciária (PJ) de Macau melhorou no que toca às investigações a crimes de cariz financeiro.

      O relatório diz ainda que a implementação de sanções relacionadas com o financiamento do terrorismo é “geralmente boa” e que o sector bancário tem implementado as regras internacionais . O Asia/Pacific Group concluiu, na altura, que Macau “tem uma boa compreensão sobre o risco de financiamento do terrorismo” e que o risco da região era baixo.

      Em Julho de 2020, o Departamento de Estado dos EUA não fez nenhum reparo negativo a Macau no relatório sobre as acções de combate ao terrorismo ao longo de 2019 e destacou o empenho das autoridades locais na luta contra o terrorismo. “Macau cooperou internacionalmente nos esforços contra o terrorismo através da INTERPOL e de outras organizações focadas na segurança”, referiu o relatório, sublinhando que, no caso específico dos EUA, a colaboração “incluiu a partilha de informações”.

       

      FUNDOS DA AL-QAEDA TERÃO PASSADO POR MACAU

      Macau terá mesmo tido um papel importante no financiamento da al-Qaeda. Segundo o testemunho de Jonathan Winer, secretário de Estado adjunto da Administração Clinton, na Comissão de Relações Internacionais da Câmara dos Representantes, em 2006, Macau foi utilizada para fazer circular fundos para financiar as actividades terroristas do grupo.

      No seu testemunho, Winer explicou que “o poder e eficácia da al-Qaeda foram reforçados pela sua capacidade de esconder, investir e movimentar fundos através de instituições financeiras internacionais” e que Macau seria um dos 40 países e territórios listados como canais para movimentar os fundos da al-Qaeda. Para além de Macau, a lista incluía Hong Kong, Filipinas, Singapura, Indonésia e Austrália, por exemplo.

      As movimentações de fundos que passavam por Macau aconteceram antes de 11 de Setembro, frisou Winer, explicando que as alterações pós-atentados permitiram que as instituições bancárias passassem a conhecer melhor os seus clientes e as suas transacções.

      No Capitólio, o secretário de Estado adjunto entre os anos de 1994 e 1999 disse mesmo que, depois de sair do cargo, levou a cabo um trabalho de investigação em Macau a pedido de um cliente. Na altura, as autoridades policiais de Macau, tal como o sector financeiro, disseram não ter conhecimento do uso de instituições bancárias locais por parte da al-Qaeda para movimentar fundos.

      Há apenas um caso registado em que a al-Qaeda surge associada a Macau. Este caso envolvia a venda de passaportes na ilha do Pacífico de Nauru. A operação de venda de passaportes teve lugar através da Trans Pacific Development Company (TPDC), uma empresa norte-americana com escritórios em Macau e Hong Kong. A TPDC terá comprado documentos a funcionários do Governo de Nauru e vendeu-os aos mais altos licitadores. Segundo a imprensa australiana, secundada pela confirmação do Governo de Macau, vários empresários da China continental utilizaram documentos de Nauru para reclamar residência em Macau como investidores estrangeiros.

       

      MACAU NA HISTÓRIA DOS SEQUESTROS DE AVIÕES

      Olhando para os dados Aviation Safety Network, portal que mantém o registo de acidentes e incidentes aéreos, torna-se evidente que houve também alterações, a nível global, no que toca a desvios de aviões.

      2001 foi um ano de viragem. Nos 20 anos anteriores ao 11 de Setembro, registaram-se, no total, 445 sequestros de aviões. Destes sequestros, resultaram directamente 729 vítimas mortais. Por outro lado, nestes 20 anos após o 11 de Setembro, verificaram-se apenas 60 sequestros de aviões, dos quais resultaram cinco mortos.

      Macau também faz parte da história dos sequestros de aviões, tendo sido protagonista daquele que é considerado o primeiro desvio de avião comercial de sempre. Há 73 anos, o avião anfíbio Consolidated PBY-5A Catalina da companhia Cathay Pacific, baptizado de Miss Macao, descolava de Macau em direcção a Hong Kong.

      A aeronave, operada pela Macau Air Transport Company e já com 1.596 horas de voo realizadas, acabou por se despenhar no Mar do Sul da China depois de ter sido assaltado em pleno voo por uma quadrilha, que embarcou em Macau como passageiros. Os sequestradores queriam ficar com uma quantidade considerável de ouro que o avião transportava do território então administrado por Portugal até à antiga colónia britânica. A quadrilha acabou por se envolver em agressões com os passageiros, que tentaram intervir. A confusão acabou por fazer com que o piloto fosse alvejado. Do acidente resultaram 25 mortes e um único sobrevivente – o chefe da quadrilha – , que conseguiu saltar antes de o avião embater no mar.

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