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      Início Opinião Uma história de piratas (III)

      Uma história de piratas (III)

      Não era só história. Os piratas faziam parte do dia-a-dia de Macau. Pelo menos até aos anos 1950, os juncos ancorados no Porto Interior andavam armados com canhões. Se era para se defenderem ou atacar, não havia como apurar com certeza.

      À semelhança de outras questões consideradas “culturais”, olhava-se a pirataria com relativismo. Como escreveu Jaime do Inso, “a China é difícil de explicar e, ainda mais, de ver, de longe, com os olhos da Europa”.

      Conforme observava este oficial da Marinha, tratava-se, de facto, de “um problema complexo e de causas múltiplas”; pesavam “a superpopulação, a miséria, as guerras, a falta de unidade pública, a enorme extensão do país”, mas também “a frouxidão ou impotência das autoridades, a própria índole de certos habitantes”. E etc. Tudo concorria para que “a pirataria fosse como uma profissão admitida e sancionada, por assim dizer, por uma espécie de direito consuetudinário”.

      Num artigo publicado na revista “Portugal Colonial”, em 1934, a poetisa Maria Anna Acciaioli Tamagnini refere, a propósito de uma viagem de barco de Macau a Cantão, um navio chinês “pintalgado de cores, engalanado como para uma festa”. No alto do mastro flutuavam “bandeiras multicolores”. Mas não eram ornamentos de celebração. “Cada bandeira representa um ‘laisser passer’ das terríveis quadrilhas de piratas que se impõem nos rios e mares da China. Esses pavilhões coloridos provam que os patrões dos barcos satisfizeram já o ‘Linkim’ (tributo da liberdade) aos capitães de piratas, além dos impostos às alfândegas e às lanchas mandarinas”.

      Os piratas faziam parte da realidade. Apesar de, na cultura popular, terem já uma aura mítica, misteriosa, eram figuras do quotidiano. Como que se movendo numa dimensão paralela, eram soberanos onde as autoridades não chegavam. Ou não queriam chegar.

      “Os chineses estavam demasiado ocupados com as suas guerras, e os portugueses e os britânicos não tinham nada a dizer sobre matérias fora das suas respectivas jurisdições”, explica a Aleko Lilius um português que, em Macau, ajudou o jornalista americano a chegar ao contacto com piratas. Foi o passo que tornou possível o livro “I Sailed With Chinese Pirates”, publicado em 1930.

      Lilius é senhor de uma biografia complicada e será melhor descrito, talvez, como um aventureiro. Explorador, sim, mas também jornalista, escritor, fotógrafo, homem de negócios, diplomata. Finlandês, sueco, de origem russa. Americano e inglês. Tudo isto Lilius terá sido. Ou não, porque ainda hoje subsistem mais dúvidas do que certezas em relação à sua vida.

      Quando o livro saiu, os editores apresentaram o autor como “o primeiro homem branco a alguma vez ter navegado com piratas” chineses, contados por Lilius como “homens e mulheres que apenas pareciam estar no seu ambiente natural quando se moviam numa atmosfera saturada com o cheiro nauseabundo do sangue de corpos quentes e o fedor pungente do ópio”.

      Foi em Macau que Lilius conheceu o português que lhe dissera saber “bastante” sobre os bandidos do mar. “Contou-me que, enquanto criança, tinha brincado com os filhos de piratas”. Encontrá-los “seria a coisa mais simples do mundo”.

      Nesse mesmo dia, o intrépido jornalista conversava com um pirata numa casa de jogos. Seria depois levado ao encontro de um pirata mais importante a quem explicou o interesse em visitar Bias Bay. “Todos os barcos que saíam ou entravam em Hong Kong alvo de pirataria foram invariavelmente trazidos a Bias Bay”. Dali só saíam quando esvaziados de toda a carga que tivesse algum valor.

      O método tornara-se infalível. “Os bandidos, entre 10 a 60, subiam a bordo dos navios como passageiros, alguns na terceira classe, e outros – os líderes e uns quantos homens de confiança – na primeira classe”, o que lhes dava acesso a quase todas as partes das embarcações. As armas que depois usavam eram normalmente introduzidas nos barcos com a cumplicidade de estivadores, em terra. Depois, limitavam-se a esperar o render da guarda ou que alguém abrisse as portas de ferro que guardavam a ponte de comando dos navios.

      Isto era o que todos faziam. Mas Lilius procurava alguém especial: Lai Soi Chan. “Rainha dos Piratas de Macau”. Era uma figura misteriosa e a lenda precedia-a. Dizia-se que tinha herdado o negócio e os barcos do pai, a quem as autoridades portuguesas teriam dado refúgio em Macau, ao abrigo de um arranjo secreto em que ele e o seu bando deveriam proteger as frotas de pesca da colónia e fazer o trabalho da polícia no alto mar. Até teria adquirido o título de “inspector”.

      Lai comandava 12 juncos, tinha “barris de dinheiro” e “a sua vontade era lei”. Dedicava-se às costumeiras actividades de piratas. Além da “inspecção”, pilhava embarcações e passageiros, assaltava residências de famílias ricas, fazia reféns, queimava juncos e sampanas de bandos rivais.

      Lai era a mais temida de todos – “impiedosa e cruel”. Fazia questão de participar sempre que havia acção. Mas Lai também tinha sonhos de mãe, que confessava a Lilius. Queria que um dos filhos se tornasse um rico comerciante e que fosse para “Mei Kwo”, a América, onde havia os grandes edifícios que a rainha vira certa vez numas fotografias. Ou, então, que abrisse uma casa de “fan tan” em Macau.

      Apesar de o livro ser profusamente ilustrado com fotografias, ainda hoje se duvida se Lilius realmente navegou com piratas. Se a Lai que narrou é um produto da sua imaginação. Mas as fantasias ainda fazem sonhar; certos erros é que já não têm remissão – como escrever que Macau é uma “colónia fundada por Vasco da Gama”, talvez em 1535.

      Salvam-se, ainda, as descrições, que, sem se desviarem do que era a norma entre o que outros visitantes contemporâneos apontavam, não deixam de ser interessantes. São as marcas de uma “cidade estranha, metade chinesa e metade portuguesa”, “angelical, linda e bondosa quando é boa, mas muito má quando é má”.

      Para Lilius, Macau, “descrita pelas agências de turismo como ‘Pérola do Oriente’ e como ‘Monte Carlo do Extremo Oriente’, merece sem dúvida o primeiro epíteto, mas há muito poucas justificações para o segundo”. Faltava-lhe “o tom, se não mesmo o espírito, do palaciano Casino da Riviera Francesa”.

      Na realidade, argumentava, “não há qualquer casino em Macau, mas sim doze tascos empestados de ópio, onde nenhum cliente se veste de modo formal como é regra em Monte Carlo. Num dia quente de Verão, é possível cruzarmo-nos nas mesas de apostas de Macau com cules seminus, camponeses sujos e vigaristas fugitivos”.

      Em Macau, o jogo era “a paixão dominante da população”. Estava em todo o lado. “É impossível passear por qualquer rua de Macau sem ver um ou mais grupos de homens, mulheres e até crianças aglomerados em torno de tapetes de ‘fan tan’”.

      O governo arrecadava grandes receitas do jogo, mas, com exactidão, Lilius dizia ser impossível saber quanto valiam. Caso perguntasse às autoridades, o mais certo seria pedirem-lhe que “embarcasse no primeiro barco e que nunca mais voltasse”. Porque “Macau não gosta de que lhe queiram saber os detalhes da vida pecaminosa, e os jornalistas estão longe de serem adorados lá”.

       

      Hugo Pinto
      Jornalista