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      Uma história de piratas (II)

      “Enquanto a pirataria na costa quase desapareceu, as águas interiores da província continuam infestadas com assaltantes. Mesmo nas vizinhanças de Cantão, são cometidos actos de pirataria todos os dias”. Assim escrevia o cônsul britânico destacado na grande região do sul da China, num relatório de 1894.

      A passagem faz parte de um excerto usado pelo enciclopedista James Dyer Ball, que, no seu livro “Things Chinese” (1903), detalha um país onde camponeses honestos eram atirados por intempéries para a condição de pedintes, ou, nos casos mais desesperados, para a pirataria. O mesmo acontecia a “soldados mantidos com salários de fome”, quando não eram pagos de todo “durante meses”.

      Os barcos que transportavam passageiros, conta o impressionado cônsul, andavam “armados como se fossem entrar em acção”, e tinham grelhas de ferro a proteger as cabinas dos pilotos, com o objectivo de evitar serem alcançados pelos piratas. “Em terra”, todavia, “não há muito mais segurança”, lamentava o representante britânico.

      Sucediam-se as notícias de ataques. “Os negociantes de seda (em Cantão) estão aflitíssimos”, relatava o jornal “O Lusitano”, em Julho de 1899.  “Os piratas, espalhados por toda a parte e contando com a impunidade, não permitem a saída das embarcações com quaisquer carregamentos de seda (…) sem que se lhes pague primeiro a fabulosa importância que eles estabelecem como imposto de passagem pelas suas águas! O desgraçado que se recusa a satisfazer às suas exigências ou pretende regatear com eles, fica sem a seda e é preso até que os seus parentes e amigos o venham libertar a troco de milhares de taéis”.

      Os piratas adoptavam tácticas que consideravam melhor adequadas aos novos tempos. Dos ataques directos – aparatosas investidas, tão surpreendentes quanto rápidas – passavam a realizar sequestros em que grupos tomavam barcos de assalto. Sem pressas, roubavam as mercadorias, que vendiam a comerciantes menos escrupulosos (por vezes, durante o próprio assalto), enquanto faziam reféns.

      Este modo de operar generalizara-se na viragem do século, mas não era uma novidade absoluta.

      Em 1854, por exemplo, a umas 20 milhas náuticas de Macau, ficaria célebre o assalto ao navio “Caldera”, de bandeira chilena, que transportava carga propriedade de americanos. A bordo seguiam dois passageiros, um chinês e uma francesa, Fanny Loviot, que imortalizou a experiência num livro publicado em 1858, “A Lady’s Captivity Among Chinese Pirates”.

      A viagem, com partida em Hong Kong, no dia 4 de Outubro, era suposta durar três meses até à Califórnia, conhecida na China da altura como “A Montanha Dourada”, terra de uma imaginada riqueza prometida.

      Na descrição de Loviot, o seu único companheiro de viagem – além da tripulação – era um empresário chinês, dono de uma casa comercial em São Francisco. “Transportava com ele uma grande quantidade de ópio, açúcar e café”.

      A bordo, havia apenas uma arma – um revólver, do capitão. Insuficiente, claramente, para lidar com a situação com que o “Caldera” se deparou numa noite, somente 48 horas após a partida.

      A embarcação estava ancorada numa baía próxima de Macau, onde procurara refúgio de uma tempestade que, entretanto, se levantara. Não havia era abrigo dos piratas, que, em três juncos, cada um com tripulações de 30 ou 40, cercaram o “Caldera”.

      Armados de sabres e pistolas, os piratas rapidamente dominaram e pilharam o navio. “Sem misericórdia”, haveria de noticiar a imprensa francesa, meses depois, quando Loviot estava regressada sã e salva da odisseia que, então, partilhava com os alarmados compatriotas.

      Ao todo, durante quase duas semanas, quatro bandos diferentes de piratas revezaram-se no saque ao “Caldera”. Os primeiros demoraram-se por três dias, até fugirem assustados com a chegada dos segundos.

      “Ao todo, durante quase duas semanas, quatro bandos diferentes de piratas revezaram-se no saque ao ‘Caldera’. Os primeiros demoraram-se por três dias, até fugirem assustados com a chegada dos segundos”

      Os dois únicos passageiros seriam transferidos para um junco onde ficariam sequestrados numa pequena sala. Devido à exiguidade do espaço, Loviot escreve que foram obrigados a manter-se dobrados, só podendo sair da “cela” à noite e apenas por um quarto de hora.

      No confinamento, apercebiam-se do negócio que os piratas iam fazendo, vendendo a mercadoria pilhada a mercadores cúmplices que recebiam no junco.

      Na manhã de 18 de Outubro, os últimos piratas voltariam a fugir, desta feita em direcção a terra. Aproximava-se um vapor em socorro do “Caldera” e dos dois reféns, de quem o capitão do navio – mandado por piratas pedir o dinheiro do resgate – conseguiu dar notícia em Hong Kong. Era um final, apesar de tudo, feliz. Como nem sempre acontecia.

      Podia até ser um privilégio de estrangeiros em terra estranha. “Com toda a anarquia que existe, os estrangeiros vivem em perfeita segurança”, informava o cônsul britânico citado por Dyer Ball. “Nas suas [dos piratas] incursões por terra ou água, [os estrangeiros] nunca são (ou antes, deveríamos dizer, raramente são) incomodados. Os assaltantes sabem que os estrangeiros vão oferecer uma resistência mais resoluta do que os tímidos chineses, e que as autoridades nativas não vão poder hesitar perante a afronta, como fazem quando as vítimas são chinesas”.

      Ainda assim, havia uns estrangeiros mais estrangeiros do que outros. E uns bandidos ainda piores do que outros.

      “O ódio aos estrangeiros na China, especialmente aos ingleses, continua a manifestar-se cada vez mais provocadora e ostensivamente”, iria escrever, já nas primeiras décadas do século XX, Ivens Ferraz, Capitão-de-Mar-e-Guerra que comandou o cruzador “República”, em 1925, 1926 e 1927, altura de guerra civil na China e de conflitos com as potências ocidentais.

      Ferraz conta, num relatório que Jaime do Inso extraiu para o seu livro “China” (1938), que costumava fazer caçadas com amigos nos terrenos adjacentes às margens do Rio Oeste, onde era recebido pelos habitantes “talvez com desdém, mas nunca hostilizados”.

      Revela que chegou a ir à ilha de Pak-chiu, “conhecido coio de piratas no delta do Rio do Oeste”. Não foi ao acaso. “Éramos convidados do célebre cabeça [chefe] Lei-lam, que há muito insistia pela minha visita, assegurando a abundância de perdizes na ilha, onde poderíamos caçar com toda a segurança até à hora do almoço que ofereceria em minha honra. Tentado pela originalidade do convite e confiado na palavra do pirata, acedi ao pedido”.

      A caçada, segundo Ivens Ferraz, “foi muito feliz”; o almoço, “uma magnífica ‘comida china’”, a que se seguiu uma sesta bafejada pelos fumos do ópio, que Lei-lam, “um dos mais temidos piratas nesta região”, insistiu que o convidado experimentasse. Reinava a tranquilidade.

      “Apenas uma vez”, assegura Ferraz, “em Chanliu, íamos sendo vítimas de uma cilada que, tendo sido descoberta a tempo, conseguimos evitar (…). É preciso, todavia, dizer que à entrada da povoação estava hasteada uma bandeira vermelha com o emblema soviético – um martelo e uma foice cruzados – que representa a união dos operários e camponeses”.

      Vinha “a propósito dizer”, atalhava Ferraz, “que a campanha contra os estrangeiros é incitada pelos russos, que encontram entre os proletários da China um óptimo campo para a propaganda das ideias bolchevistas”.

      Compreendia-se o comentário com que Jaime do Inso acompanhava este relato: “como se verifica”, observava este oficial da Marinha, “não seria fácil a qualquer agente da polícia, por mais zeloso e competente que fosse, chegar a Macau e resolver, duma assentada, a velha questão dos piratas…”

      Nunca tinha sido fácil. Era cada vez menos. Até porque, está bom de ver, os ares eram agora agitados por novos ventos. A história soprava.

      (continua)

       

      Hugo Pinto
      Jornalista

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