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      InícioCategorias do ParágrafoVírgulaHomero pede o livro de reclamações

      Homero pede o livro de reclamações

       

      A carne do gyros estava seca como cabedal, o molho estava rançoso e o pão pita estava duro, quase deixei lá um dente. Mas não são essas as fontes da minha indignação.

      Todos os que me conhecem sabem o quanto gosto de concórdia, dou privilégio a tranquilidade. Até hoje, nunca me foi ouvido o mínimo lamento nos inúmeros restaurantes onde já me serviram sopa avgolemono gelada ou insossa. Desaprovo o escândalo, evito-o com toda a capacidade que disponho de compreensão, que não é pouca. A prática do queixume, a queixa, sempre me pareceu reflectir o desleixo tíbio dos fracos, a procurarem razões no mundo para expiarem o desconforto que sentem por si próprios. Prefiro resguardar-me mas, como todos os que pisam esta terra, sou também um ser de músculos, tendões e matéria nervosa. Tenho dificuldade em suportar a absoluta falta de senso.

      Vim a Paris para tirar algumas dúvidas ao tradutor dos meus livros, um rapaz sorridente da Baixa-Provença, recluso num quarto, entre dicionários, a pouca distância da Bastilha. Nestes casos, habitualmente, são os tradutores que se deslocam, mas, já se sabe, há sempre tanto para fazer em Paris, todos os pretextos são bons para espairecer à beira do Sena. Estou hospedado num pequeno hotel na área de Saint-Germain-des-Prés e, sozinho, sem pressa, dei um passeio à procura de jantar. Quando vi este restaurante, as suas cores e o seu nome, pareceu-me que poderia ser uma forma de, a esta distância, por momentos, sentir consolo saboroso e caseiro.

      Se me alongo nesta introdução não é pelo prazer de gastar páginas deste livro gorduroso de reclamações. Não poupo frases porque me parecem necessárias para a correcta contextualização da minha revolta e porque, em simultâneo, sei que, à medida que for escrevendo, o meu fluxo sanguíneo vai abrandando, a minha respiração vai-se afinando com o horizonte e a minha mente ganha nitidez. Não existem momentos em que não se encontre préstimo na serenidade.

      Para gregos sentimentais, que trazem sempre o pathos rente à pele, “Ítaca” é um nome que desperta vontades antigas, adormecidas às vezes, frequentemente cobertas por pudor. Desse modo, em Paris, numa viela de Saint-German-des-Prés, não consegui ler essa palavra no toldo de um restaurante, “Ítaca”, e ignorar o desfile interior de imagens do mar Jónico, imagens de um paraíso no início do Verão. Foi assim, que me achei a pedir um gyros. Em casa, não como sanduíches há anos, disparam-me o refluxo gástrico; mas, em Paris, a promessa de um minuto de Grécia entre crepes, entre o cheiro enjoativo dos gaufres, ajudou-me a decidir.

      Pousei um pé no restaurante. O único empregado saltou de onde estava e, em três pulos, apresentou-se a uma proximidade incómoda. Tive de afastar o pescoço para conseguir distinguir-lhe o rosto. Senti-lhe o ritmo da respiração, o sabor do hálito. Apresentou-se: Yannis. Não precisei de apresentar-me também, já sabia quem eu era. Sentou-me numa cadeira e, logo a seguir, pousou-me uma ementa plastificada à frente dos olhos. Fixou-me, à espera que escolhesse. Yannis segurava uma caneta, o bico assente sobre o bloco, podia anotar qualquer pedido a qualquer momento.

      Um gyros. Pedi um gyros para interromper o constrangimento daquela situação e, também, porque me pareceu que poderia ser o que, num lugar como aquele, fariam com menos erros. Enganei-me nessa presunção. Quando o gyros chegou, não consegui engolir mais do que duas dentadas. Mas, antes ainda, assim que fiz o meu pedido, começou o suplício: Yannis tinha questões de toda a ordem sobre a Ilíada e a Odisseia. Pior ainda, tinha opiniões. As suas perguntas partiam quase sempre de opiniões abusivas, intrusivas, descabidas. Yannis sentou-se à mesa, à minha frente, e lançou-me meia dúzia de dúvidas. Procurando ser simpático, tentei iniciar uma resposta mas, enquanto respondia, reparei no modo como me olhava, arregalado, não ouvindo. A meio de frases, interrompia-me para tecer considerações acerca da maneira como eu piscava as pálpebras, ou de como pronunciava determinadas palavras. Que engraçado, dizia.

      Acreditei que poderia ter algum descanso quando chegasse a comida. Ingenuidade minha. Pousou o tabuleiro com o gyros à minha frente e voltou a sentar-se. Sendo os ciclopes símbolos evidentes do falo masculino e a morte do ciclope uma metáfora óbvia da castração, disse Yannis, a figura de Ulisses é, na realidade, um retrato irónico dos valores tradicionais da masculinidade, confirma? Eu estava a remoer uma dentada de gyros, a segunda, e vi-me aflito para conseguir engoli-la. Yannis fixava-me sem intervalos, esperando resposta. Engoli a massa mal mastigada, arranhou-me a garganta, caiu-me no estômago à bruta. Pousei o gyros no tabuleiro de plástico e pedi o livro de reclamações.

      Yannis continuou a olhar como se não entendesse. Parecia não ter certeza de que o momento anterior tivesse existido. O silêncio e a minha expressão fizeram-lhe ver que esse momento tinha sido bem real. Yannis tentou desculpar-se por algo que não sabia identificar, mas o meu rosto era irredutível. Saiu derrotado e regressou com este livro, onde quero escrever com toda a clareza, para que não restem dúvidas: este restaurante utiliza indevidamente o nome da bela ilha de Ítaca, a comida que serve é um equívoco intragável e a bandeira da Grécia nunca deveria ser hasteada num buraco como este. Quanto ao empregado Yannis, a sua vocação é muito distante do ofício de servir à mesa e as suas competências sociais são nulas. Espero que, no futuro, não volte a admirar-se com clientes apenas por não se exprimirem em versos hexámetros dactílicos. Outros, mais exaltados do que eu, menos inclinados para a paz, poderão partir para o confronto físico. Se o fizerem, quem os poderá criticar?

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      Redacção do Ponto Final Macau