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      Dramas de um confinamento obrigatório

      Como é de conhecimento geral da população, as quarentenas em Macau são obrigatórias para quem vem de qualquer país, havendo vários residentes retornados ao território que aceitam esta nova realidade como mais um facto da vida devido às circunstâncias actuais. Quatro residentes relataram ao PONTO FINAL um pouco acerca da experiência de voltar a Macau em tempos de pandemia.

      Na maioria dos países pelo mundo, a luta contra a propagação do novo coronavírus mantém-se forte, impondo quarentenas de 14 dias apenas, ao invés dos 21 exigidos em Macau, sem mencionar os restantes sete dias de autogestão de saúde também obrigatórios. Com isto, o território acaba por apresentar um período de tempo de isolamento de praticamente um mês. Serão estas medidas excessivas? Vários residentes de momento em quarentena falaram ao PONTO FINAL acerca das suas experiências na quarentena.

      José Drummond, designer e artista plástico, encontra-se em quarentena desde o passado sábado num dos hotéis designados pelo Governo, o Golden Crown China Hotel. O artista português, que veio de Lisboa e encontra-se isolado até pelo menos dia 28, começa por criticar a medida, referindo que “ter de ficar 21 dias [em isolamento] quando os casos de incubação do vírus em 21 dias são tao raros é uma alucinação completa”.

      Drummond é da opinião que ter a premissa de uma quarentena ao chegar a Macau não se justifica, devendo haver sim um “acompanhamento”. “Justifica-se um acompanhamento, um isolamento das pessoas em casa, mas não se justifica estas medidas assim como se fazem aqui. Se isto fazia sentido no ano passado, agora com as vacinas, com todo o número de coisas que se alternaram já deixa de fazer sentido, e acho ainda que a grande diferença entre o ocidente e o oriente é que realmente vemos o ocidente, à força de tanto errar, ter aprendido a viver com a coisa, e eventualmente vai estar melhor preparado para o que vier, enquanto que aqui deste lado da China parece que se está sempre a tentar fugir com o rabo à seringa, por assim dizer”, refere. “Não se encara o problema e a questão continua a ser a mesma. Se o vírus não se for embora e se continuar entre nós, como é que vai ser? Macau e a China vão continuar a fazer quarentena? Vão continuar a só ter residentes?”, questiona.

      Como alternativa, José Drummond sugere que o território deveria adoptar uma postura mais confiante. “Acho que aqui usa-se muito esta teoria ou política do medo, infligir medo às pessoas disto e daquilo, e realmente o ocidente tem tido uma postura completamente diferente. Não é que não haja medos, receios, preocupações, mas por exemplo, já há eventos desportivos a acontecerem lá, enquanto que por aqui, os Jogos Olímpicos no Japão ainda não tiveram pessoas”, recorda. “Dou o exemplo de Portugal, onde os jogos de futebol já têm pessoas, pois há realmente uma postura diferente que tem a ver também com o facto de haver vacinação, de haver os testes feitos para se poder ir a determinados eventos, como é o caso dos jogos de futebol”, acrescenta.

      No interior da China fazem-se 14 dias apenas de quarentena, e se há alguma cidade que porventura faz 21, esses fazem só depois de terem tido surtos”, refere o artista plástico. “Em Macau não houve surtos, houve quatro casos. Os 21 dias de cá já veem desde Janeiro para aí, por isso não faz sentido nenhum continuarem a ser 21 dias em Macau ainda, quando aqui ao lado fazem-se 14 dias”, frisou.

       

      A odisseia de Palla e filho

      João Palla, arquitecto e fotógrafo, chegou no dia 7 ao território juntamente com o seu filho de 14 anos e encontra-se em isolamento no mesmo hotel de José Drummond. O português começou por contar a odisseia que experienciou desde o aterrar, aos testes, à papelada e as oito horas de espera numa sala “completamente desconfortável. “Nós ficámos lá até às duas da manhã à espera dos resultados, apenas com cadeiras de metal. Dão também uns ‘cupnoodles’ às pessoas e pronto… Depois de uma pessoa vir àquelas horas todas de viagem ainda tem aquilo”, lamenta.

      “Em relação ao quarto, no meio disto tudo acho que até tive sorte, porque eu vim com o meu filho. Deram-nos um quarto cada, com porta comunicante, que foi uma coisa boa. Os quartos até que são confortáveis, porém não é aquele luxo dos hotéis modernos. Mas está-se bem aqui”, aponta.

      O arquitecto menciona no entanto que três semanas “é demasiado”. “Ainda nem estou aqui há uma semana e já sinto”, contou. “No fundo é um mês de quarentena e não três semanas até começar a trabalhar porque são 21 dias mais sete de ‘self management’. Acho que não se coaduna com a vida de hoje das pessoas e com a vida que as pessoas têm de fazer, com os compromissos que há, sejam eles familiares ou de trabalho, e acho que é demasiado tempo, é um absurdo”, reitera.

      Uma residente que não quis ser identificada, que chegou no dia 4 e foi instalada num dos hotéis designados, o Metrópole, descreveu as coisas numa luz mais positiva. “Em termos do sistema achei que foram impecáveis”, começou por referir. “Gostei que à chegada deram-me possibilidades, nomeadamente uma lista de hotéis que estão disponíveis, e se escolhermos o gratuito, indicam-nos qual está disponível”, prossegue.

      Quanto à experiência, a residente elogia o pessoal do hotel Metrópole. “São incansáveis. Excluindo todas essas limitações da língua, são sempre impecáveis, sempre preocupados connosco”, revela.

      Relativamente à rotina, revela que “vinha cheia de planos”, contudo tem tido problemas com o ‘jet-lag’ e a não conseguir pôr o sono em dia. “Inscrevi me em três cursos online, tenho imensa coisa para fazer, pessoal e profissional, e ao final de dez dias estou a zero”, descreve.

      A residente admite, porém, que apesar de ter sido sempre a favor de todas as decisões que o Governo tem tomado, revela que não entende o porquê desta quarentena ser tao longa. “Eu sabia que a partir do momento que saí, que ao voltar teria de me sujeitar. Cientificamente, e comparando com outras situações de quem vem de outros sítios e que teve contacto com pessoas aqui em Macau que fazem só sete ou 14 dias, não faz sentido, e não há explicação para isto”, lamenta.

       

      Quarentena por conta própria

      Cristina Telhado Borges, dona do Nirvana Spa, está desde o dia 11 à noite de quarentena no Grand Coloane. Uma opção que implicou ter de pagar por conta própria. “É óptimo, tenho o mar à frente e oiço os passarinhos”, começa por contar. Porém, deixa também algumas críticas face à sua experiência até agora. “O Governo de Macau já anda há vários meses a fazer isto. Metem-nos numa sala de espera ali no terminal marítimo, em bancos de metal, sem uma televisão, sem wifi decente, sem monitores para ir à internet, sem ‘vending machines’, e isto já não se justifica”, lamenta. “Estamos ali quase 10 horas porque vamos tirar sangue, fazem-nos o teste e temos de esperar, no entanto já lá vão meses disto e não entendo porque é que eles não podem criar uma situação um pouco melhor”, referiu.

      “Havia uma mãe com duas crianças, uma com 5 anos e um bebé de colo de um ano, e isto depois de 30 horas de voos, de esperas, é agoniante, e as autoridades não querem saber. Não nos deram comida, só puseram ali uns caixotes abertos com noodles, os noodles cheios de SMG [sal sódico do ácido glutâmico], os de pior qualidade, secos como sei la o quê, garrafas de água e bolachas”, lamenta.

      “Desde que aterramos eles não ajudam nada, nem querem mexer em nada que é teu, simplesmente metem-nos em dois autocarros, depois levam-te para este espaço, ninguém fala nada, nem uma palavra de inglês, e estás ali 10 horas seguidas”, continua, mencionando Singapura como um exemplo. “Ali pelo menos tens sofás, ‘vending machines’ com sumo de laranja, pode-se encomendar comida até apesar do aeroporto estar todo fechado”, revela. “Às três da manhã já não há comida nos quartos e foi essa a hora a que chegámos aos hotéis.

      Porém, Cristina Telhado Borges garante que não está “a fazer queixa”, mas apenas a deixar algumas sugestões para melhorar a situação actual que se vive. “O Governo de Macau já podia pôr um bocadinho mais de conforto para os seus residentes, e eu acho que para os visitantes é uma péssima imagem. É necessário haver um pouco mais de compaixão”, conclui.