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      Início Entrevista Redes sociais, fake news e pensamento crítico: ainda vamos a tempo?
      Isabel Meira

      Redes sociais, fake news e pensamento crítico: ainda vamos a tempo?

      Com texto da jornalista Isabel Meira e ilustrações de Bernardo P. Carvalho, Gosto, Logo Existo é um livro sobre notícias, fake news, redes sociais e jornalismo e um desafio lançado aos mais novos para que questionem o mundo que lhes calhou em sorte – e que ajudam a construir todos os dias. 

      Fotografia de Joaquim Figueira

      Um quiosque de notícias falsas instalado em pleno centro de Nova Iorque, oferecendo jornais com manchetes que pareciam a caixa de comentários de uma qualquer rede social minada por teorias da conspiração, seria algo imaginável num filme distópico. Há dois anos, essa distopia ganhou corpo num quiosque de Manhattan. Em exposição, vários jornais devidamente paginados e impressos ostentavam títulos como «Trump afirma que a América nunca devia ter dado a independência ao Canadá» ou «Texas reconhecido como estado mexicano», ou ainda «A elite de Hollywood usa sangue de bebés para se drogar». O conteúdo destes títulos soará imediatamente disparatado a quem esteja minimamente informado sobre o que se passa no mundo, mas talvez não aos milhões de pessoas que diariamente partilham fake newsnas suas redes sociais, muitas vezes acreditando piamente no que estão a partilhar.

      Isabel Meira, autora de Gosto, Logo Existo (fotografia de Rita Chantre)

      Recentemente publicado em Portugal, o livro Gosto, Logo Existo – Redes sociais, jornalismo e um estranho vírus chamado fake news aborda estes e outros problemas numa linguagem pensada para os mais jovens. Escrito por Isabel Meira e ilustrado por Bernardo P. Carvalho, o livro editado pela Planeta Tangerina coloca em diálogo e perspectiva o jornalismo e a democracia, as redes sociais e a liberdade, a comunicação e o direito à informação fidedigna. Numa conversa com a autora – mediada pelo ecrã de um computador, como quase todas as conversas destes dias –, o Parágrafo quis perceber que constatações e inquietações estiveram na origem deste trabalho. «O livro nasceu de um desafio que me foi lançado pela editora Isabel Minhós Martins», conta Isabel Meira. «Tinha estado a investigar sobre redes sociais, fake news, etc para um documentário que fiz juntamente com outras duas autoras, sobre a pós-verdade. Como jornalista, confesso que são temas que me provocam sentimentos mistos, que me deixam intrigada, fascinada, assustada, preocupada. A Isabel desafiou-me a pensar sobre estes temas, com total liberdade criativa, tendo em mente o universo infanto-juvenil do Planeta Tangerina. Fiz uma pesquisa inicial e percebi rapidamente que apesar de ouvirmos falar cada vez mais sobrefake news e de já existirem alguns projectos sobre o tema destinados a crianças e jovens (nomeadamente alguns jogos), não havia um livro que procurasse aprofundar mais a questão. Não me interessava tratar o tema com uma lógica de detective ou algo como descubra as diferenças entre notícias verdadeiras e falsas que aparecem na internet. As fake newssão muito mais complexas do que isso! Mas também tenho consciência de que estes temas podem ser demasiado teóricos ou distantes do dia-a-dia dos miúdos. Esse foi um dos enormes desafios do livro: como aproximar os miúdos destas questões? Também sabemos que muitos livros do Planeta Tangerina são lidos por adultos, incluindo pais, educadores, etc., então procurei também aproveitar isso e abordar os temas de forma a que o livro pudesse permitir o diálogo entre mais velhos e mais novos.»

       

      O que lemos na rede e o que a rede lê em nós

      Voltemos ao quiosque nova-iorquino. A iniciativa partiu da Columbia Journalism Review, uma das mais prestigiadas publicações dedicadas ao jornalismo e à comunicação, e dentro de cada um desses jornais havia um guia que explicava como distinguir notícias de desinformação, como podemos proteger-nos da cacofonia de supostas notícias que circulam diariamente nas redes sociais e como temos o dever de não as replicar. Muitos transeuntes que pararam a ler as manchetes perceberam que alguma coisa não estava bem, como conta a equipa de redacção da Columbia Journalism Review no seu sitemas houve várias pessoas que continuaram a caminhar convencidas de terem lido verdadeiros títulos noticiosos em capas de jornais legítimos. Gosto, Logo Existo seria leitura aconselhada para todos quantos acharam possível que títulos como os que ali se exibiam seriam verdadeiros. O livro terá sido pensado para leitores jovens, sobretudo aqueles que já frequentam as muitas redes sociais disponíveis, mas não parece disparatado assumir que a sua leitura seria proveitosa por parte de gente de todas as idades.

      Isabel Meira e Bernardo P. Carvalho
      Gosto, Logo Existo – Redes sociais, jornalismo e um estranho vírus chamado fake news
      Planeta Tangerina

      Entre os temas abordados por Isabel Meira está a questão da disponibilização de dados pessoais, muitas vezes sem que os utilizadores tenham disso consciência. As contas que criamos nas redes sociais são gratuitas e o reverso dessa gratuitidade é o acesso aos nossos dados por parte das empresas que detêm as redes, que vivem do negócio da publicidade. Ora, a matéria-prima desse negócio somos nós e os nossos dados, disponíveis para que algoritmos cada vez mais complexos escrutinem ao detalhe hábitos, gostos e interesses, seleccionando aquilo que surge no nosso ecrã individual e apresentando-nos produtos ou outros conteúdos absolutamente direccionados. Sempre criando a ilusão de que estamos a aceder ao mesmo que todos os outros utilizadores. Terão os frequentadores mais jovens das redes sociais a noção de que é assim que o negócio funciona? Isabel Meira crê que não: «Habituámo-nos a encarar a internet como algo mágico e essencialmente gratuito. A velocidade de comunicação proporcionada pela internet, o desenvolvimento de algoritmos capazes de prever os nossos comportamentos, de manipular as nossas emoções, fez com que conceitos como privacidade ou protecção de dados ficassem relegados para segundo plano. Afinal, nós gostamos de coisas gratuitas – sobretudo se essas coisas nos fazem sentir bem, como os mecanismos de likes criados pelas redes sociais. É por isso que acredito ser importante lembrar que o mundo virtual é real, existe mesmo, não é uma ficção que se desenvolve nas nossas cabeças. Os pais não gostam que os filhos conversem com estranhos na rua, mas quando essas conversas existem em grupos ou chats de internet não se preocupam tanto. Porquê? O que nos faz ter dois pesos e duas medidas em relação aos comportamentos que temos dentro e fora das redes sociais? Este é o tipo de questões que o livro procura colocar.»

       

      Literacia para os media

      Contrariar esta situação parece difícil quando sabemos que havia, o ano passado,

      3,80 biliões de utilizadores de redes sociais em todo o mundo, número que revela um crescimento de 9% relativamente a 2019 (de acordo com o relatório Digital 2020, publicado pela We Are Social e pela Hootsuite) e que representa mais de metade da população mundial. Apesar disso, instituições, comunidades e famílias podem ter uma palavra a dizer, se trabalharem nesse sentido. «Tem muito a ver com o papel das escolas, pois acredito que é preciso começar a trabalhar cada vez mais cedo com as crianças, desenvolvendo ferramentas de pensamento crítico, hábitos de leitura atenta e até uma coisa que me parece cada vez mais fundamental: a capacidade de ouvir o outro.», resume Isabel Meira. «Basta pensar que um das redes sociais mais utilizadas pelos mais novos é o TikTok e que toda a lógica assenta em vídeos ultra rápidos, ou seja, que a atenção está a ser treinada para se focar nalguns segundos e depois mudar para outra coisa.»

      A escola, aliás, seria o lugar privilegiado para que os temas que se cruzam neste livro fossem abordados de modo sério, envolvendo professores, alunos e respectivas famílias. O modo indiferente como cedemos os nossos dados a empresas, a capacidade de procurar informação fidedigna e o pensamento crítico que permite questionar as notícias, mas também exigir informação de qualidade, conhecer direitos e deveres e compreender o contexto em que vivemos são pilares essenciais para o funcionamento de uma sociedade saudável. Consciente dessas relações e da urgência de as enfrentar, Isabel Meira acredita «que seria mesmo importante assumir uma estratégia global, colocar esta questão como prioritária e convocar todas as escolas e projectos educativos. Isto, é claro, se assumirmos que é a nossa democracia que está também em jogo nesta questão das fake news. O avanço dos populismos e o crescimento dos partidos de extrema direita deviam, na minha opinião, ser suficientes para dar prioridade à literacia mediática. As escolas estão a formar futuros eleitores. Crianças e adolescentes que, na maior parte dos casos, estão a crescer nas redes sociais, ou seja, no mais fértil terreno de fake news e manipulação de informação. E o problema é que os pais e educadores nada podem fazer isoladamente. Por exemplo: há estudos que avaliam os impactos negativos, como aumento de problemas como a ansiedade e a depressão nos jovens, e lançam alertas. Uma família mais preocupada pode decidir que os filhos adolescentes só podem ter redes sociais a partir dos 15 ou 16 anos. E depois? Esses filhos, que ainda têm apenas 10 ou 12 anos, chegam à escola e todos os outros colegas têm redes sociais. O que lhes acontece? São excluídos dos grupos, ficam à margem das conversas, enfim, voltam para casa frustrados ou mesmo revoltados. Por isso acredito que estas mudanças têm de ser encaradas como movimentos globais e que as escolas podem ter um papel fundamental neste processo.»

       

      Democracia e 4ºpoder

      Uma visita breve a qualquer rede social pode assemelhar-se à escuta de uma conversa de café, com a diferença de os comentários ali expressos serem lidos por milhares de pessoas, todas elas potenciais subscritoras de qualquer posição apresentada, independentemente da sua lógica, justiça ou cabimento. Por vezes, a escalada é notória: alguém se queixa da imparcialidade de um pivot televisivo a propósito de um determinado assunto, que logo começa a ser discutido por arguentes que podem ou não ter visto o momento referido, podem ou não saber do que se trata, podem ou não ter alguma noção de como funciona e que regras deve cumprir o trabalho de um jornalista. Se seguirmos a sequência de comentários, não será incomum chegarmos a um ponto em que já não se está a falar daquele momento, mas antes a assumir que todos os jornalistas dizem o que lhes apetece, mentindo descaradamente, e um pouco mais à frente estaremos perante um comentário que afirma como se de um facto se tratasse que não existe jornalismo, tudo é mentira, tudo é conspiração (de quem, vai variando).

      Isabel Meira e Bernardo P. Carvalho, Gosto, Logo Existo (Planeta Tangerina)

      Quando o nível do debate chega a este ponto, é difícil perceber como se inverte o rumo. Podemos sossegar-nos com a ilusão de que isto só acontece nas redes sociais, a coberto do anonimato, mas o modo como tanta gente se mostra incapaz de identificar falsas notícias, acabando por desvalorizar as notícias propriamente ditas, já não parece ser um fenómeno isolado. É também disto que o livro Gosto, Logo Existe fala, percorrendo a história do jornalismo e o seu papel tão fundamental no funcionamento de qualquer democracia. Mas será que essa relação intrínseca entre informação, acesso e democracia ainda é perceptível para a maioria das pessoas? Isabel Meira responde: «Penso que estes conceitos podem estar um pouco baralhados e somos todos responsáveis. Os meios de comunicação social também se deixaram levar pelas lógicas das redes sociais, sacrificando por vezes o rigor em nome do imediatismo. A internet criou muitos desequilíbrios e penso que um dos mais importantes para essa relação referida na pergunta tem a ver com a existência de um intermediário. Com a internet caiu o intermediário. Passámos a ser consumidores e ao mesmo tempo produtores de conteúdos. Ao mesmo tempo, se empresas como a Google ou o Youtube conseguem instalar a ideia de que nos dão tudo aquilo de que precisamos, facilmente nos esquecemos do papel do jornalismo como pilar essencial da democracia. É por isso que o pensamento crítico (tema que também é abordado no livro) é tão importante.»

      São vários os percursos traçados em Gosto, Logo Existo, da história do jornalismo à evolução da internet, das formas mais antigas de comunicação aos algoritmos. Subjacente a todos eles está um percurso maior, assente precisamente nessa ideia de que o pensamento crítico é essencial. Convocando as vivências e visões do mundo que serão as das gerações mais novas, Isabel Meira recusa superioridades geracionais ou paternalismos e propõe de modo claro que o leitor a acompanhe nos conhecimentos, mas sobretudo nas indagações sobre o mundo, o modo como nele vivemos e as relações – emocionais, mas também de poder e de interdependência – que criamos uns com os outros. Recusando a ideia de tudo poder esclarecer e arrumar em meia dúzia de respostas, a autora preferiu « assumir, com toda a humildade, que estes temas são muito complexos. Talvez por isso seja mais importante fazer perguntas do que apresentar respostas.» Esse questionamento atravessa todo o livro, fazendo de Gosto, Logo Existo uma companhia valorosa para se olhar para o mundo. «Penso que temos de estar informados, aprender, aprender, aprender, mas que, antes de tudo isso, era bom se conseguíssemos parar para pensar», conclui a autora. «Não me interessa nada diabolizar as redes sociais. Interessa-me mais pensar sobre o impacto que as redes sociais têm nas nossas vidas. Porque é que ficamos felizes ou tristes por causa dos likes, o que nos leva a estar agarrados aos telemóveis, mesmo quando temos amigos ou familiares à nossa frente. Porque é que a realidade só parece existir quando tiramos uma fotografia e a publicamos na net.» Se uma notícia falsa cair na floresta e não estiver lá ninguém para a ler ou ouvir, ainda é uma notícia falsa?