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      Decisão de Trump sobre Hong Kong pode até só “ser simbólica”, mas já deixou a China “furiosa”

      A lei assinada pelo Presidente norte-americano está agitar as já tensas relações sino-americanas. Por Hong Kong e pelo futuro daquele território, passa uma parte importante do que será a relação entre os dois gigantes. A guerra comercial é o pano de fundo desta disputa. Para Hong Kong e para a luta pela democracia que os manifestantes têm trazido para a rua nos últimos seis meses, a decisão poderá não ter efeitos visíveis no imediato.

      A decisão era já esperada, e desta vez Trump não surpreendeu. Depois da Câmara dos Representantes e do Senado ratificarem o “Hong Kong Human Rights and Democracy Act”, o Presidente norte-americano deu-lhe força de lei. E a reacção da China não se fez esperar. Pequim fala de ingerência clara dos Estados Unidos e acusa Washington de ‘bullying’. No meio da guerra comercial, os politólogos ouvidos pelo PONTO FINAL dividem-se nas consequências desta medida. Há quem fale de um gesto meramente simbólico sem consequências práticas, e quem veja nesta acção um momento-chave que poderá ter bastante impacto nas relações entre os dois países.

      O professor da Universidade Baptista de Hong Kong, especialista em assuntos ligados com a China e Hong Kong, Jean-Pierre Cabestan, acredita que a decisão conhecida ontem é “muito simbólica”. E que, apesar das hesitações, Donald Trump não tinha grandes alternativas. “Ele tinha mesmo de assinar a lei. Penso que a lei em si é bastante simbólica, e com ela o presidente pode sancionar quem infrinja os direitos humanos em Hong Kong”, refere Cabestan. “Ele quer assinalar a Pequim que os EUA estão preocupados com Hong Kong, a sua autonomia, e a liberdade” frisa.

       

      Para o bem de todos, diz Trump

      Ontem, depois da ratificar o documento, o Presidente norte-americano emitiu uma declaração em tom conciliador: “Eu assinei estas leis por respeito ao Presidente Xi [Jinping], à China e ao povo de Hong Kong”. “A promulgação é feita na esperança de que líderes e representantes da China e de Hong Kong sejam capazes de resolver amigavelmente as diferenças, levando a paz e a prosperidade para todos, no longo prazo.”

      Esta lei permite a Washington suspender o estatuto especial de Hong Kong com base numa avaliação anual que verificará se a cidade mantém um grau de autonomia suficiente dentro do princípio “um país, dois sistemas”. Também poderá sancionar pessoas por actos que limitem a autonomia de Hong Kong e dá instruções para que os seus representantes diplomáticos não neguem vistos a pessoas sujeitas a prisões ou detenções “motivadas por razões políticas”.

      A China subiu o tom do discurso e promete retaliar. O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros convocou de imediato o embaixador dos EUA em Pequim, Terry Branstad, para dar conta do descontentamento da China. Antes, já o vice-ministro das Relações Exteriores Le Yucheng disse a Branstad que “pelo acto erróneo dos EUA, a China certamente tomará medidas firmes e os EUA serão totalmente responsáveis por todas as consequências”. O mesmo Le Yucheng fez questão de deixar claro que os Estados Unidos “interferiram seriamente na política interna da China e violaram gravemente as leis internacionais e os princípios básicos das relações internacionais”.

      Para o politólogo Sonny Lo, ouvido pelo PONTO FINAL, Pequim irá ser “cada vez mais combativa em relação à democratização de Hong Kong”. “Irão reagir de forma cada vez mais intensa, e o primeiro sinal será em relação à eleição do Chefe do Executivo em Hong Kong, em que vai voltar a exigir que haja dois ou três candidatos a combaterem, depois de terem sido escolhidos por eles”, explica.

      Jean-Pierre Cabestan não desvaloriza o momento simbólico, e enaltece a decisão política “que tem consequências”. “A China ficou zangada”, acredita, no entanto não deixa de relativizar as consequências práticas. “Quem é que vai ser sancionado e porquê?”, pergunta. “São coisas que terão de ser trabalhadas, e não é muito claro para mim se alguém vai mesmo ser penalizado em Hong Kong por não respeitar os direitos humanos”, defende, apontando esta iniciativa como um “sinal forte” dos norte-americanos.

       

      Não há ingerência

      Este especialista em assuntos relacionados com a China diz que os argumentos chineses de ingerência não colhem, porque Hong Kong “goza de um estatuto especial”, e “a fórmula de ‘um país, dois sistemas’ é muito importante” porque a forma como “lidamos com Hong Kong, está muito ligada a esse mesmo estatuto”.

      As pessoas de Hong Kong gozam de liberdade de entrada no espaço Schengen. Há muito comércio, e acordos culturais que são feitos na assumpção de que Hong Kong é autónoma. “Se a autonomia for restringida e ameaçada, isso põe em causa os acordos com Hong Kong”, relembra o professor da Universidade Baptista.

      As queixas da China em relação aos Estados Unidos são vistas por Sonny Lo como podendo ter uma interpretação subjectiva, no entanto há algo que parece claro: o conceito de interferência chinês é “muito alargado”. “Se algum representante norte-americano falar da democracia em Hong Kong, pode ser considerado interferência”, explica.

      Também o Governo do RAEHK reagiu, em comunicado à imprensa, onde esta medida “obviamente interfere nos assuntos internos de Hong Kong” e “não são necessários nem justificados”. “O Governo disse que isso prejudicaria as relações e os interesses entre Hong Kong e os EUA”, declarou. “Os dois projectos de lei são irracionais”, disse um porta-voz do Governo no mesmo documento.

       

      No meio da guerra, uma batalha

      Esta decisão norte-americana aparece no meio de uma intensa guerra comercial, sendo que a resolução do conflito pode ficar agora comprometida. Sonny Lo crê que a estratégia norte-americana é a de ligar as “transformações democráticas em Hong Kong com as negociações da guerra comercial”.

      Na opinião deste especialista em assuntos relacionados com a China, pode-se esperar que Pequim retalie e que se torne mais dura nas negociações com os Estados Unidos. “Vai fazer menos concessões. Por isso, não podemos esperar que as coisas melhorem. Vai ter impactos imediatos nas lutas que os dois países atravessam”, defende.

      Por seu lado, o professor da Universidade Baptista de Hong Kong, Jean Pierre Cabestan espera nos próximos dias “muitos protestos, muita condenação, e críticas muito vocais” da China. No entanto, “não vejo que vá haver grandes retaliações, porque estes países estão no meio de uma negociação e isso será a prioridade dos dois lados”. “Talvez possa haver consequências para as empresas norte-americanas, mas como e quais ainda não podemos saber”, sublinha.

      Em relação aos ‘hongkongers’, este professor acredita que “se vão sentir felizes e apoiados pelo Governo norte-americano”, mas as implicações directas “acho que não vão ser muito grandes”. “Não penso que isto vá impedir que Pequim continue a interferir na autonomia de Hong Kong”, argumenta.

      Uma das vozes que mais apelou a esta acção do Presidente norte-americano, nos últimos cinco anos, foi Joshua Wong— activista de Hong Kong e líder do partido Demosisto — que disse que Pequim e o Governo de Hong Kong devem responder à aprovação do acto, diminuindo a tensão e investigando as alegações de brutalidade policial. “Estou satisfeito pelo Presidente Trump ter assinado o documento depois de os manifestantes estarem a lutar pelo sexto mês consecutivo. Esta conquista notável não seria possível sem a persistência e sacrifício do povo de Hong Kong”, rematou Joshua Wong.

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